Desde que foram previstos pela teoria da relatividade, os buracos negros fascinam e intrigam cientistas. Agora, um novo estudo revela um objeto tão extraordinário que pode obrigar a reescrever parte do que sabemos sobre a formação e evolução do universo. Batizado de RACS J0320-35, ele cresce em uma velocidade que não deveria ser possível.
Um gigante que desafia os números
🌀 “A black hole grows faster than theory”
Astronomers have discovered the black hole RACS J0320-35, which is consuming matter 2.4 times faster than the theoretical Eddington limit allows. This challenges existing models of how quickly black holes could grow in the early Universe pic.twitter.com/KGc1bplxZv— Anders An (@Chronovethra) September 25, 2025
O buraco negro descoberto tem massa equivalente a um bilhão de sóis e foi observado a cerca de 12,8 bilhões de anos-luz da Terra. O que mais chama atenção é a rapidez com que está engolindo matéria e energia.
Segundo os dados publicados no Astrophysical Journal Letters, o ritmo de crescimento supera mais que o dobro do chamado limite de Eddington, a barreira teórica que deveria estabilizar a expansão de buracos negros. Em vez disso, RACS J0320-35 continua absorvendo matéria de forma descontrolada, sem sinais de instabilidade.
O que é o limite de Eddington
O limite de Eddington é uma espécie de freio natural: quando um buraco negro puxa matéria, a compressão aquece o material e gera radiação. A pressão dessa radiação deveria empurrar contra a gravidade, equilibrando o processo.
Mas no caso de RACS J0320-35, esse mecanismo parece não funcionar. O objeto cresce a taxas entre 300 e 3.000 massas solares por ano, segundo os cálculos baseados nas observações do Observatório de Raios X Chandra da NASA, combinadas com dados ópticos e infravermelhos de telescópios terrestres.
Um quasar raríssimo
Além de buraco negro supermassivo, RACS J0320-35 também é classificado como quasar — um núcleo galáctico ativo que brilha mais do que toda a sua galáxia hospedeira. Ele libera jatos de partículas em velocidades próximas à da luz, fenômeno raro que torna o objeto um verdadeiro laboratório natural para estudar os limites da física.
Instrumentos como o radiotelescópio Australian Square Kilometer Array Pathfinder e o Telescópio Gemini-Sul, no Chile, ajudaram a medir sua distância e características com precisão.
O que isso muda sobre a origem dos buracos negros
Até agora, a hipótese mais aceita era que buracos negros supermassivos só poderiam se formar se nascessem com dezenas de milhares de massas solares. O caso de RACS J0320-35 sugere outro caminho: ele pode ter surgido do colapso de uma única estrela muito massiva, com menos de 100 sóis, mas crescido de forma acelerada ao longo de milhões de anos.
Para o pesquisador italiano Alberto Moretti, do INAF, esse cálculo “abre a possibilidade de testar novas ideias sobre a origem desses objetos”.
Perguntas cósmicas em aberto
Se RACS J0320-35 desafia a física, é possível que outros buracos negros supermassivos também tenham ultrapassado o limite de Eddington no universo primordial. Isso ajudaria a explicar como se formaram tão cedo na história cósmica.
“Como o universo criou a primeira geração de buracos negros? Essa ainda é uma das perguntas mais importantes da astrofísica, e este objeto nos ajuda a buscar a resposta”, afirmou Thomas Connor, do Centro de Astrofísica | Harvard & Smithsonian.
Um novo capítulo na astrofísica
O estudo, liderado por Luca Ighina, surpreendeu até os cientistas envolvidos: “Foi um pouco chocante ver como esse buraco negro crescia tão mais rápido do que a teoria permite”, admitiu.
A descoberta não apenas desafia modelos clássicos, como também oferece novas pistas sobre a evolução das galáxias, já que os buracos negros influenciam diretamente a formação estelar e a dinâmica cósmica.
Os pesquisadores acreditam que, a partir de agora, os modelos sobre crescimento de buracos negros precisarão ser revisados — e que mais descobertas como esta podem estar escondidas nos confins do universo.
RACS J0320-35 é um buraco negro supermassivo que cresce além do limite teórico estabelecido pela física. A descoberta sugere que o universo pode ter formado seus primeiros gigantes cósmicos de maneiras até então inesperadas, trazendo novas pistas sobre a origem das galáxias e o papel desses objetos extremos.
[ Fonte: Infobae ]