Pular para o conteúdo
Ciência

Um dado sobre mães de crianças pequenas chamou a atenção dos pesquisadores

Pesquisadores compararam diferentes indicadores de saúde entre mães, pais e pessoas sem filhos. Em um dos grupos, quase nada mudou. No outro, apareceu uma diferença difícil de ignorar.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

A chegada de um filho transforma horários, prioridades, sono e praticamente toda a organização de uma família. Seria natural imaginar que esse impacto atingisse mães e pais de maneira relativamente semelhante. Uma pesquisa, porém, encontrou outro cenário. Ao analisar milhares de adultos, cientistas observaram que determinados indicadores de saúde permanecem praticamente estáveis entre os homens, enquanto entre as mulheres surgem diferenças relacionadas até mesmo à idade e ao número de filhos.

Para os homens, ter filhos parece mudar surpreendentemente pouco

Um dado sobre mães de crianças pequenas chamou a atenção dos pesquisadores
© Ben White – Unsplash

O estudo foi realizado por pesquisadores ligados ao grupo OPIK, da Universidade do País Basco (EHU). A equipe investigou como maternidade e paternidade se relacionavam com diferentes aspectos da saúde.

Foram considerados bem-estar psicológico, percepção do estado geral de saúde e comportamentos como prática de exercícios, consumo de álcool e tabagismo.

Quando os pesquisadores analisaram os homens, encontraram um padrão bastante estável.

Ser pai ou não ter filhos fazia pouca diferença nos indicadores estudados. Nem mesmo características familiares, como quantidade e idade dos filhos, estavam associadas a grandes mudanças.

Entre as mulheres, entretanto, o cenário era diferente.

Número de filhos e idade das crianças apareciam relacionados a variações em determinados indicadores de saúde e bem-estar. Para os pesquisadores, essa diferença provavelmente envolve uma combinação de fatores biológicos — incluindo gravidez e parto — e sociais, especialmente a distribuição das responsabilidades de cuidado.

Mas um indicador mostrou essa desigualdade de maneira particularmente clara.

Depois dos filhos, a diferença no exercício praticamente dobra

Em geral, as mulheres analisadas já praticavam menos atividade física regular que os homens.

A chegada dos filhos ampliava essa distância.

Entre mulheres sem filhos, aproximadamente 30% praticavam exercícios regularmente. Quando os pesquisadores observaram mães de crianças pequenas, essa proporção caiu para apenas 16%.

É quase metade.

Entre os homens, novamente, a paternidade produzia diferenças muito menores na frequência de atividade física.

Uma das explicações levantadas pelos pesquisadores é bastante cotidiana: tempo.

Crianças pequenas exigem atenção constante. Alimentação, escola, consultas médicas, tarefas domésticas e uma longa lista de responsabilidades competem diretamente com as horas que poderiam ser utilizadas para exercícios, descanso ou outros cuidados pessoais.

Se essas tarefas continuam distribuídas de maneira desigual dentro das famílias, o impacto também tende a ser desigual.

Isso transforma a atividade física em algo maior do que uma simples decisão individual.

Dizer a uma mãe que ela deveria se exercitar mais pode não resolver o problema quando a verdadeira dificuldade é encontrar uma hora livre para fazer isso.

E o exercício não foi a única diferença observada.

A idade dos filhos também parece entrar nessa equação

Um dado sobre mães de crianças pequenas chamou a atenção dos pesquisadores
© Kindel Media – Pexels

A pesquisa encontrou associações interessantes entre a configuração familiar e sintomas depressivos entre as mulheres.

Mães com apenas um filho apresentaram maior prevalência desses sintomas do que mulheres sem filhos ou com dois ou mais descendentes. Os dados analisados apontaram valores próximos de 20% entre mães de um filho, contra aproximadamente 13% nos outros grupos.

A idade também mostrou um padrão curioso.

Os sintomas depressivos tendiam a aumentar conforme crescia a idade do filho mais novo, atingindo valores mais elevados entre mães que conviviam com adolescentes.

Isso não significa, naturalmente, que adolescentes provoquem depressão nas mães.

O próprio desenho da pesquisa exige cautela.

O estudo é transversal: compara grupos de pessoas em determinados momentos, em vez de acompanhar os mesmos indivíduos durante anos antes e depois da chegada dos filhos. Por isso, não permite estabelecer diretamente uma relação de causa e efeito.

Existem inúmeras outras variáveis capazes de influenciar esses resultados, desde condições econômicas e profissionais até relacionamentos, redes de apoio e saúde anterior.

Ainda assim, o padrão geral chamou a atenção dos pesquisadores.

Porque a mesma variação praticamente não apareceu entre os pais.

O problema talvez não esteja simplesmente em “ser mãe”

É tentador resumir o estudo dizendo que a maternidade prejudica a saúde.

Mas essa interpretação seria simplista.

Uma das principais conclusões levantadas pela equipe é justamente que parte das diferenças pode estar ligada à forma como a sociedade organiza o cuidado.

Se mães assumem uma parcela maior das responsabilidades domésticas e familiares, elas também podem terminar com menos tempo disponível para cuidar da própria saúde.

Nesse sentido, dividir tarefas deixa de ser apenas uma discussão sobre organização familiar.

Pode se transformar em uma questão de saúde pública.

Barbuscia defende que políticas destinadas às famílias não deveriam pensar somente em conciliar emprego e filhos. Também seria necessário garantir que as mães tenham tempo disponível para descanso, atividade física e cuidado pessoal.

Uma divisão mais equilibrada das responsabilidades entre mães e pais poderia, portanto, contribuir para reduzir algumas das desigualdades identificadas.

O estudo, publicado no Journal of Family Studies, não demonstra que todas as mães sofrerão consequências negativas nem que todos os pais passarão ilesos pela experiência da criação dos filhos.

Ele revela algo mais sutil.

Duas pessoas podem criar os mesmos filhos, viver na mesma casa e enfrentar teoricamente a mesma transformação familiar — mas o impacto sobre suas rotinas e sua saúde pode ser muito diferente.

E talvez o número mais simples seja também o mais revelador: 30% das mulheres sem filhos praticavam exercícios regularmente, contra apenas 16% das mães de crianças pequenas.

A distância entre esses dois números pode dizer menos sobre maternidade em si e muito mais sobre quem ainda encontra tempo para cuidar de si depois que começa a cuidar de outra pessoa.

[Fonte: NCyT]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados