Como descobrir o que aconteceu no Universo quando ele tinha apenas alguns minutos de existência? Não existem telescópios capazes de observar diretamente aquele momento, mas a matéria guarda pistas surpreendentes sobre suas origens. Ao estudar a composição química de galáxias distantes, astrônomos conseguiram reconstruir parte desse passado remoto com uma precisão extraordinária. O resultado oferece uma nova maneira de testar o que a ciência acredita ter acontecido logo após o Big Bang.
Um elemento químico guarda informações sobre o nascimento do Universo
A descoberta foi realizada por pesquisadores da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, que investigaram a quantidade de hélio produzida durante os primeiros minutos da história cósmica.
Segundo o modelo do Big Bang, o Universo começou em um estado extremamente quente e denso, passando por uma rápida expansão e resfriamento.
Nesse processo, surgiram os primeiros núcleos atômicos, principalmente de hidrogênio e hélio.
A teoria conhecida como nucleossíntese primordial prevê que aproximadamente 25% da massa da matéria comum formada naquele período correspondia ao hélio.
O desafio era medir essa proporção com precisão suficiente para confrontar os cálculos teóricos.
Isso porque as estrelas continuam produzindo hélio ao longo de suas vidas, modificando gradualmente a composição química das galáxias.
Para encontrar sinais mais próximos das condições originais, os cientistas precisaram procurar ambientes que tivessem passado por menos transformações químicas.
Quinze galáxias funcionaram como cápsulas do tempo
A equipe selecionou 15 galáxias pequenas com metalicidade extremamente baixa.
Na astronomia, metalicidade é o termo utilizado para descrever a abundância de elementos mais pesados que o hélio.
Quando essa quantidade é reduzida, significa que o gás foi relativamente pouco enriquecido por gerações anteriores de estrelas.
Esses ambientes são especialmente úteis para investigar a composição química primordial do Universo.
Os pesquisadores utilizaram os espectrógrafos MODS, instrumentos capazes de separar a luz das galáxias em diferentes comprimentos de onda.
Cada elemento químico produz sinais característicos nesse espectro, permitindo estimar sua abundância.
A análise considerou dez linhas espectrais do hélio e quinze do hidrogênio.
Esse conjunto de informações ajudou a corrigir efeitos que poderiam distorcer as medições e melhorar a confiabilidade dos resultados.
O avanço foi expressivo: os cientistas conseguiram determinar a abundância primordial de hélio com uma incerteza de aproximadamente 0,5%.
Essa precisão representa uma oportunidade importante para examinar as previsões sobre o Universo primitivo.
O que realmente aconteceu nos primeiros cinco minutos após o Big Bang?
Nos primeiros instantes de sua existência, o Universo era quente demais para permitir a formação de átomos como os conhecemos atualmente.
À medida que a temperatura diminuía, quarks passaram a se combinar para formar prótons e nêutrons.
Essas partículas constituíram a matéria-prima dos primeiros núcleos atômicos.
Entretanto, havia um obstáculo: inicialmente, a energia presente no ambiente destruía rapidamente os núcleos de deutério, uma forma de hidrogênio.
Somente depois de um resfriamento suficiente o deutério conseguiu sobreviver.
Isso abriu caminho para uma sequência de reações nucleares que produziu principalmente hélio.
A maior parte desse processo ocorreu aproximadamente entre três e cinco minutos após o Big Bang.
Depois disso, a expansão e a queda de temperatura reduziram drasticamente a formação de novos núcleos primordiais.
Os resultados obtidos nas galáxias estudadas são compatíveis com a previsão de que cerca de um quarto da massa da matéria comum primordial era composta por hélio.
A descoberta reforça uma das principais teorias sobre a origem do cosmos
A importância da pesquisa não está em ter observado diretamente os primeiros minutos do Universo.
O que os cientistas conseguiram foi encontrar evidências químicas extremamente precisas das transformações ocorridas naquele período.
A concordância entre as medições e as previsões teóricas fortalece o modelo cosmológico do Big Bang.
Também permite testar com maior rigor os conhecimentos sobre as partículas e as reações nucleares que existiam no Universo primitivo.
Evan Skillman, integrante da equipe, considera o resultado um dos avanços mais importantes de suas quatro décadas de atuação científica.
Embora a cosmologia ainda enfrente perguntas fundamentais, como a natureza da matéria escura e da energia escura, a nova medição oferece uma referência mais precisa para futuras investigações.
A principal descoberta é que a quantidade de hélio preservada em galáxias pouco enriquecidas confirma, com uma incerteza de apenas 0,5%, uma previsão feita para os primeiros minutos do Universo.
Mais de 13 bilhões de anos depois, a composição de algumas galáxias continua preservando informações sobre um dos momentos mais importantes da história cósmica.