Pular para o conteúdo
Ciência

Pessoas que conversam com seus animais de estimação podem ter mais empatia, revela a ciência

Pesquisadores descobriram que conversar com cães e gatos pode revelar aspectos importantes da empatia e do bem-estar emocional. Novo estudo analisou milhares de interações entre humanos e animais.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Você costuma conversar com seu cachorro como se ele entendesse cada palavra? Ou conta ao gato como foi seu dia, mesmo sabendo que ele provavelmente não vai responder? Esse comportamento, muitas vezes considerado engraçado, está despertando o interesse da ciência. Pesquisadores descobriram que a maneira como falamos com nossos animais de estimação pode revelar informações sobre nossos vínculos afetivos, nossa empatia e até nosso bem-estar emocional. E agora existe uma ferramenta capaz de estudar essas conversas.

Cientistas analisaram mais de 5 mil gravações de pessoas com seus animais

Pessoas que conversam com seus animais de estimação podem ter mais empatia, revela a ciência
© Unsplash

Pesquisadores da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, desenvolveram um sistema chamado AURAL-Pet para investigar como as pessoas se comunicam com cães e gatos.

A ferramenta foi apresentada em um estudo publicado na revista científica Frontiers in Psychiatry.

Para testar o método, os cientistas analisaram 5.072 gravações de áudio envolvendo 240 participantes.

Os registros foram obtidos por meio de pequenos dispositivos que captavam fragmentos das conversas durante atividades cotidianas.

A equipe identificou comportamentos comuns, como conversar sobre o dia, comentar o que o animal está fazendo ou utilizar uma voz mais aguda e carinhosa.

O sistema organizou essas interações em 30 variáveis, permitindo avaliar diferentes formas de comunicação e proximidade emocional.

O objetivo não era demonstrar que os animais compreendem todas as palavras, mas descobrir como a comunicação cotidiana pode refletir a qualidade do vínculo entre humanos e seus companheiros.

Por que conversar com um cachorro ou gato pode fazer bem?

Pessoas que conversam com seus animais de estimação podem ter mais empatia, revela a ciência
© Unsplash

Uma das explicações envolve a necessidade humana de estabelecer conexões afetivas.

Ao conversar com um animal, a pessoa pode expressar sentimentos, organizar pensamentos e demonstrar carinho.

Em alguns casos, cães e gatos também funcionam como uma fonte de companhia durante momentos difíceis.

A pesquisadora Dara Jonkoski, principal autora do estudo, relatou que os registros incluíam situações em que pessoas chegavam em casa depois de um dia complicado e conversavam com seus animais sobre como se sentiam.

Essas interações mostram que a comunicação pode desempenhar uma função emocional importante, mesmo sem uma resposta verbal.

A ferramenta AURAL-Pet permitirá investigar quais comportamentos estão associados a melhores indicadores de bem-estar.

Entretanto, o estudo ainda não demonstrou que conversar com animais, isoladamente, melhora a saúde mental.

Falar com animais também pode estar relacionado à empatia

Outro fenômeno investigado pelos psicólogos é o antropomorfismo, que acontece quando atribuímos características humanas a outros seres.

Isso ocorre, por exemplo, quando perguntamos ao cachorro se ele está triste ou imaginamos que nosso gato ficou ofendido porque saímos de casa.

Pesquisas encontraram associações entre essa tendência, o apego aos animais e a empatia.

Uma revisão científica de 20 estudos sobre interação humano-animal identificou uma associação positiva, embora pequena, entre o contato com animais e comportamentos empáticos e pró-sociais.

Mas existe uma diferença importante: sentir empatia pelos animais não significa necessariamente apresentar maior empatia por outras pessoas.

Os cientistas também destacam que interpretar emoções humanas nos pets nem sempre corresponde ao que eles realmente estão sentindo.

O vínculo com animais pode influenciar o estresse e as emoções

A ciência também investiga os efeitos fisiológicos da convivência com animais.

Uma pesquisa publicada na revista iScience, envolvendo 29 gatos e 19 pessoas, encontrou uma relação entre os níveis de oxitocina dos tutores e dos felinos.

Essa substância participa de processos associados ao vínculo social.

Nos gatos, concentrações mais elevadas de oxitocina também foram relacionadas a menores níveis de cortisol, hormônio envolvido na resposta ao estresse.

Outro estudo publicado na Frontiers in Psychology, com 188 tutores de cães e gatos, identificou emoções mais positivas durante interações com os animais, embora não tenha confirmado um efeito geral de proteção contra o estresse.

Esses resultados reforçam a importância de distinguir associações estatísticas de relações diretas de causa e efeito.

Conversar com seu pet é sinal de inteligência emocional?

Não existe evidência suficiente para afirmar que pessoas que conversam com animais sejam automaticamente mais inteligentes ou emocionalmente equilibradas.

Entretanto, o hábito não deve ser interpretado como sinal de imaturidade.

A comunicação com os pets pode representar carinho, atenção e uma forma natural de fortalecer a convivência.

O sistema AURAL-Pet já está sendo utilizado em uma investigação sobre saúde mental de adultos com mais de 60 anos, buscando compreender como essas interações se relacionam com o bem-estar.

A descoberta mais interessante talvez seja justamente essa: pequenas conversas que parecem não ter importância podem revelar muito sobre os vínculos que construímos.

Falar com um animal não substitui as relações humanas, mas pode ser uma maneira significativa de expressar afeto e companhia.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados