O segundo turno presidencial brasileiro, marcado para domingo, 25 de outubro, também concentra atenções na Europa. A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro poderá influenciar uma relação que envolve comércio, proteção ambiental e acesso a matérias-primas estratégicas. Parlamentares ouvidos pela DW defendem a continuidade do diálogo, mas apresentam expectativas diferentes sobre os rumos da cooperação após a eleição.
Uma parceria que ultrapassa os governos

Na avaliação de Hélder Sousa Silva, presidente da delegação do Parlamento Europeu para as relações com o Brasil, o país ocupa uma posição fundamental para os interesses europeus. Entre as prioridades citadas estão a transição energética, a Amazônia e a cooperação multilateral.
O parlamentar português, ligado ao Partido Popular Europeu, considera natural que mudanças de governo alterem prioridades diplomáticas. Ainda assim, defende uma relação suficientemente sólida para atravessar essas diferenças.
Anna Cavazzini, eurodeputada alemã dos Verdes, destaca o peso da democracia e da política climática nessa aproximação. Ela afirma esperar um diálogo construtivo com qualquer vencedor, mas demonstra preocupação com possíveis mudanças de orientação. Essas posições representam avaliações dos parlamentares entrevistados, e não uma manifestação única de toda a União Europeia.
Comércio entra em uma nova etapa
A eleição acontece durante uma transformação importante nas relações econômicas entre os blocos. Segundo o Conselho da União Europeia, o acordo comercial interino com o Mercosul tem aplicação provisória desde 1º de maio de 2026.
Esse instrumento reúne compromissos de comércio e investimento. Ele funciona separadamente do acordo de parceria mais amplo, que também abrange diálogo político e cooperação.
A distinção importa porque os dois textos seguem caminhos diferentes de aprovação. O acordo interino depende da ratificação europeia, enquanto a parceria completa exige também a ratificação dos Estados-membros. Quando esta entrar em vigor, substituirá o instrumento comercial provisório.
Para a Comissão Europeia, a aproximação cria uma zona comercial que reúne cerca de 700 milhões de pessoas. O alcance inclui a União Europeia e os quatro países sul-americanos participantes: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
Assim, as decisões do próximo governo brasileiro terão relevância dentro de uma estrutura regional. A relação comercial envolve compromissos entre blocos e interesses que ultrapassam a disputa presidencial brasileira.
Matérias-primas e alinhamentos ampliam o interesse
A reportagem também identifica atenção alemã aos recursos brasileiros, incluindo terras raras. Parlamentares de diferentes partidos relacionam essa questão à posição do Brasil entre potências ocidentais e economias dos Brics.
Florian Ossner, da conservadora CSU, defende maior pragmatismo alemão diante de relações potencialmente mais orientadas por interesses nacionais e blocos geopolíticos. Já Maren Kaminski, do partido A Esquerda e apoiadora de Lula, manifesta preocupação com uma aproximação entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump.
As declarações mostram que o debate europeu combina interesses econômicos com divergências políticas sobre democracia, clima e alianças internacionais.
Publicidade política também preocupa

O debate inclui a influência das plataformas digitais e de conteúdos produzidos por inteligência artificial. Cavazzini e Sousa Silva defendem maior transparência, enquanto o parlamentar português ressalta que combater desinformação não deve justificar censura.
A Europa já possui uma referência regulatória própria nessa área. Conforme a Comissão Europeia, suas regras exigem identificação clara dos anúncios políticos, informações sobre financiamento e custos e, quando aplicável, indicação do público selecionado.
Essas exigências abrangem publicidade digital e fora da internet no contexto europeu. Elas ajudam a explicar por que transparência eleitoral também integra as preocupações expressas pelos parlamentares ao acompanhar a votação brasileira.