Uma vacina desenvolvida a partir das características do tumor de cada paciente apresentou resultados promissores contra o melanoma de alto risco. Dados divulgados por Merck e Moderna mostram que 82,2% dos participantes tratados com a vacina e uma imunoterapia permaneceram sem recidiva após dois anos. No grupo que recebeu apenas a imunoterapia, esse percentual foi de 70%. O acompanhamento continua para esclarecer os benefícios de longo prazo.
As empresas divulgaram os resultados completos do estudo de fase 3 na quinta-feira, 22 de outubro. A publicação estava prevista para ocorrer junto à apresentação em um congresso de oncologia, mas um aparente vazamento levou à antecipação do anúncio.
Uma vacina feita para reconhecer cada tumor
Batizada de intismeran autogene, a vacina utiliza RNA mensageiro para orientar o sistema imunológico a reconhecer características específicas das células cancerosas.
O tratamento pode apresentar ao organismo até 34 neoantígenos, proteínas diferentes que surgem quando as células tumorais acumulam mutações. Como essas características variam entre pacientes, a formulação é personalizada.
A proposta difere daquela das vacinas preventivas tradicionais. Nesse caso, o objetivo é ajudar a impedir que um câncer já tratado volte a aparecer.
O estudo INTerpath-001 reuniu 1.137 pessoas com melanoma de alto risco, nos estágios IIB a IV. Antes de receber o tratamento experimental, todos passaram por cirurgia para remover os sinais visíveis da doença.
Depois, os pesquisadores distribuíram os participantes aleatoriamente entre dois grupos. Um recebeu Keytruda, nome comercial do pembrolizumabe. O outro recebeu a mesma imunoterapia combinada com até nove doses da vacina, administradas em intervalos de três semanas.
O que os resultados mostram
A combinação reduziu em 42% o risco de recidiva do melanoma ou morte em comparação com o pembrolizumabe isolado. Esse número representa uma redução relativa do risco, diferente da comparação direta entre os percentuais de pacientes sem recidiva.
Em termos absolutos, a diferença foi de 12,2 pontos percentuais: 82,2% no grupo da combinação, contra 70% entre aqueles que receberam apenas a imunoterapia.
O tratamento combinado também reduziu em 38% o risco de metástase distante ou morte. Esse desfecho acompanha o reaparecimento do câncer em regiões afastadas do local original.
As empresas afirmam que existem sinais iniciais de benefício na sobrevida geral. Entretanto, os dados ainda precisam amadurecer para determinar se os pacientes vivem mais.
O estudo não identificou novos sinais de segurança. Isso não significa ausência de riscos: o pembrolizumabe pode causar fadiga, dores musculares e, em situações graves, inflamações em órgãos como fígado e pulmões.
A experiência de quem participou
O Memorial Sloan Kettering Cancer Center, um dos centros envolvidos na pesquisa, apresentou os resultados em uma entrevista coletiva na sexta-feira.
Entre os participantes estava Beth Ryzyk, diagnosticada com melanoma em estágio IIIC em 2023. Ela relatou sentir-se bem e afirmou que, em alguns momentos, consegue esquecer a doença, apesar da preocupação com uma possível volta.
Seu caso exige uma ressalva: tanto Ryzyk quanto seus médicos ainda desconhecem o grupo ao qual ela pertence. O estudo permanece com essa informação ocultada, portanto seu relato não permite atribuir o resultado individual à vacina.
Os próximos passos
Os resultados serão apresentados em um congresso e publicados no New England Journal of Medicine. A aprovação regulatória do tratamento continua sendo uma etapa futura.
Merck e Moderna também investigam a combinação em outros tumores, incluindo câncer de pulmão de não pequenas células. A expectativa dos pesquisadores é avaliar se a estratégia pode beneficiar pacientes além do melanoma.
Enquanto isso, o anúncio provocou uma reação discreta no mercado financeiro. Segundo a CNBC, as ações das empresas inicialmente caíram após a divulgação.
Para a pesquisa oncológica, o principal avanço está na possibilidade de ampliar o uso de vacinas personalizadas. Os resultados mostram uma redução relevante das recidivas, enquanto o acompanhamento deverá esclarecer a duração da proteção e o impacto sobre a sobrevivência.