Em janeiro de 2022, uma erupção vulcânica impressionou o mundo ao lançar uma enorme coluna de cinzas e vapor para a atmosfera. Mas a parte mais extraordinária do fenômeno aconteceu longe das câmeras. Enquanto o céu era tomado pela explosão, centenas de metros abaixo da superfície, outra transformação acontecia em silêncio. Uma gigantesca estrutura do fundo do oceano começou a afundar, deslocando uma quantidade colossal de material e água.
O que aconteceu debaixo do vulcão foi muito maior do que parecia
Em 15 de janeiro de 2022, o Hunga Tonga-Hunga Ha’apai entrou em erupção no Pacífico. A explosão lançou cinzas e vapor a mais de 55 quilômetros de altitude, mas o verdadeiro impacto geológico estava acontecendo no fundo do oceano.
Uma nova pesquisa publicada na Nature Geoscience conseguiu reconstruir esse processo e mostrou que a erupção não foi simplesmente uma explosão vertical. Parte da própria estrutura do vulcão perdeu sustentação e desabou para dentro.
Antes do evento, a caldeira tinha entre 150 e 200 metros de profundidade e aproximadamente 4,5 quilômetros de diâmetro. Depois, o fundo havia descido para cerca de 850 metros, enquanto o diâmetro chegava a aproximadamente 4,8 quilômetros.
A diferença é gigantesca.
Os pesquisadores estimam que cerca de 8,9 quilômetros cúbicos de material foram deslocados durante o processo.
A explicação começa vários quilômetros abaixo da superfície. Uma câmara de magma localizada entre aproximadamente 2 e 10 quilômetros de profundidade começou a perder material durante a erupção. Com a retirada do magma, a estrutura que ficava acima perdeu parte do suporte que ajudava a mantê-la estável.
O resultado foi um colapso rápido da caldeira.
Só que havia algo ainda mais importante acontecendo: toda essa estrutura estava debaixo d’água.
Quando o fundo do oceano se move, a água também responde
A velocidade do colapso foi fundamental para entender por que o episódio produziu ondas tão grandes.
Quando uma enorme porção do fundo oceânico se desloca bruscamente para baixo, a água que está acima dela também precisa se mover. Em determinadas condições, essa transferência de energia pode gerar um tsunami capaz de alcançar regiões costeiras em pouco tempo.
No caso do Hunga Tonga-Hunga Ha’apai, áreas localizadas a menos de 100 quilômetros do vulcão registraram ondas com mais de 40 metros de altura.
A erupção ainda produziu ondas de pressão atmosférica que viajaram pelo planeta e contribuíram para alterações do nível do mar em regiões muito distantes do vulcão.
O episódio teve consequências concretas. Seis pessoas morreram entre Tonga e Peru, enquanto correntes submarinas associadas à erupção danificaram mais de 190 quilômetros de cabos de telecomunicações.
E existe um detalhe que torna o caso ainda mais relevante.
O Hunga não possuía uma caldeira excepcionalmente grande. Em uma base de dados com 177 caldeiras semelhantes, ele está entre os 12% menores.
Isso significa que o tamanho de um vulcão submarino, sozinho, não determina necessariamente o tamanho do perigo. A velocidade e a quantidade de material que podem se deslocar também importam.
O vulcão deixou uma espécie de fotografia do antes e depois
Estudar vulcões submarinos é particularmente difícil porque grande parte de sua atividade acontece centenas de metros abaixo da superfície. Sem observações anteriores detalhadas, pode ser complicado determinar exatamente quanto uma estrutura mudou depois de uma erupção.
Hunga ofereceu uma oportunidade rara.
Antes da explosão, pesquisadores já haviam produzido mapas detalhados do fundo do mar. Depois do evento, novas campanhas permitiram comparar diretamente as duas situações.
A equipe combinou dados de batimetria multifeixe, imagens de satélite e medições do satélite ICESat-2, da NASA. Com essas informações, foi possível reconstruir em três dimensões a nova forma da caldeira e acompanhar como sedimentos e outros materiais haviam sido redistribuídos.
Os cientistas também observaram colunas de fluidos subindo centenas de metros a partir do fundo nos meses seguintes. Isso indicava que o sistema continuava apresentando atividade mesmo depois da grande explosão.
O estudo deixa, portanto, uma questão que vai além do próprio Hunga.
Ainda existem enormes áreas do fundo oceânico sem mapas suficientemente detalhados. Em muitos vulcões submarinos, os pesquisadores sequer possuem uma referência precisa de como era o terreno antes de uma erupção.
Isso dificulta identificar deformações, calcular deslocamentos e melhorar os modelos de risco.
Mapear esses vulcões regularmente poderia ajudar a entender melhor como seus colapsos funcionam e, principalmente, aperfeiçoar sistemas de alerta para tsunamis.
A grande lição de Hunga é justamente essa: uma ameaça capaz de gerar ondas gigantes pode começar em um lugar que ninguém consegue enxergar. O céu pode mostrar apenas a explosão, enquanto a transformação decisiva acontece centenas de metros abaixo da superfície.