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Ciência

Seu cérebro continua ouvindo enquanto você dorme — e cientistas descobriram algo inesperado

Pesquisadores do MIT descobriram que pequenas rajadas sonoras aplicadas durante o sono podem alterar uma atividade cerebral ligada ao descanso e ao movimento do líquido cefalorraquidiano.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando dormimos, o cérebro está longe de desligar. Enquanto o corpo permanece imóvel, ondas elétricas percorrem o cérebro, os vasos sanguíneos mudam de comportamento e o líquido cefalorraquidiano se movimenta em ciclos coordenados. Agora, pesquisadores do MIT testaram uma maneira curiosa de interferir nesse processo: utilizar um som tão breve e discreto que os participantes sequer precisavam acordar para que seus cérebros respondessem.

O som que entrou no sono sem precisar acordar ninguém

O estudo, publicado na Science Translational Medicine, concentrou-se nas chamadas ondas lentas, um dos padrões característicos do sono não REM e especialmente presentes durante as fases mais profundas do descanso.

Pesquisas anteriores já haviam encontrado uma relação entre essas ondas elétricas e alterações no movimento do líquido cefalorraquidiano, que circula ao redor do cérebro e da medula espinhal.

A equipe liderada por Laura Lewis, professora associada de Engenharia Elétrica e Ciência da Computação do MIT, queria descobrir se seria possível influenciar esse processo usando um estímulo sonoro extremamente curto.

Para isso, 14 adultos saudáveis participaram de sessões de sono durante cochilos dentro de um aparelho de ressonância magnética. Ao mesmo tempo, os pesquisadores utilizaram eletroencefalografia para acompanhar a atividade elétrica cerebral e observaram o movimento do líquido cefalorraquidiano pelas imagens produzidas durante o experimento.

O detalhe mais importante estava na forma como o som era apresentado.

Os participantes não ficaram ouvindo ruído rosa continuamente. Um algoritmo monitorava a atividade cerebral e identificava quando uma onda lenta estava se aproximando de seu ponto máximo.

Quando o momento adequado chegava, o sistema emitia uma pequena rajada de ruído rosa com duração de apenas 50 milissegundos.

Era rápido demais para funcionar como uma música de fundo convencional, mas aparentemente suficiente para interagir com o ritmo natural do cérebro durante o sono.

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© Shawn Day – Unsplash

O cérebro respondeu — e o líquido dentro dele também

Os pesquisadores observaram que os estímulos sincronizados aumentaram a amplitude das ondas lentas registradas no cérebro.

Mas esse não foi o único efeito percebido.

As imagens da ressonância magnética também mostraram um aumento na amplitude das ondas do líquido cefalorraquidiano depois das pequenas rajadas sonoras. Os pesquisadores encontraram ainda uma relação entre a atividade elétrica cerebral, alterações no diâmetro dos vasos sanguíneos e o deslocamento desse líquido.

O líquido cefalorraquidiano tem funções essenciais no sistema nervoso central, incluindo proteção e circulação ao redor do cérebro e da medula espinhal. Ele também participa de processos relacionados ao transporte e à remoção de determinados produtos de resíduos.

Por isso, o resultado chama atenção. Ele sugere uma conexão mais dinâmica entre aquilo que acontece eletricamente no cérebro durante o sono e os movimentos do fluido que o envolve.

Mas existe uma diferença importante entre alterar uma onda cerebral e provar que o sono ficou melhor.

O experimento não demonstrou que o ruído rosa aumenta a memória, melhora as capacidades cognitivas ou faz uma pessoa acordar mais descansada. Também não significa que deixar uma faixa de ruído rosa tocando durante toda a noite produza o mesmo resultado.

A intervenção foi muito mais precisa: o som era disparado apenas quando o algoritmo identificava uma fase específica da atividade cerebral.

E outro estudo mostra por que essa diferença importa.

Ruído rosa não significa automaticamente sono melhor

Pesquisadores da Penn Medicine analisaram os efeitos de uma exposição contínua a ruído rosa e a ruído de aviões durante o sono.

Nesse experimento, a exposição a ruído rosa de 50 decibéis esteve associada a uma redução de quase 19 minutos no sono REM em comparação com noites sem exposição sonora. Os participantes também relataram uma percepção pior do próprio descanso após determinadas exposições.

Isso não contradiz necessariamente o experimento do MIT.

Os dois estudos testaram condições muito diferentes. No trabalho do MIT, as pessoas receberam estímulos de apenas 50 milissegundos, sincronizados individualmente com ondas lentas específicas. Na pesquisa da Penn Medicine, o ruído foi apresentado continuamente em uma determinada intensidade.

A diferença é justamente o ponto mais interessante.

Não parece suficiente perguntar se o ruído rosa é “bom” ou “ruim” para dormir. É preciso considerar qual som, em que intensidade, durante quanto tempo e, principalmente, em que momento ele é apresentado.

O estudo do MIT ainda é pequeno e não mostra benefícios clínicos. Será necessário repetir os resultados com grupos maiores e descobrir se essas alterações nas ondas cerebrais e no líquido cefalorraquidiano realmente produzem efeitos sobre memória, saúde cerebral ou qualidade do sono.

Por enquanto, a descoberta mais curiosa é outra: enquanto uma pessoa permanece completamente adormecida, um som que dura apenas uma fração de segundo pode ser suficiente para interferir em um dos ritmos mais importantes do cérebro.

O segredo não parece estar em ouvir mais enquanto dormimos, mas em saber exatamente quando o cérebro está pronto para ouvir.

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