Imagine observar um planeta onde um ano inteiro termina antes que um único dia passe na Terra e onde a superfície pode literalmente derreter sob a radiação de sua estrela. Parece um cenário pouco útil para entender nosso próprio mundo, mas astrônomos encontraram justamente ali uma pista surpreendente. O que acontece nesse ambiente extremo pode oferecer uma janela rara para uma época da Terra que desapareceu há bilhões de anos.
Um laboratório natural localizado a 154 anos-luz
Encontrar planetas fora do Sistema Solar deixou de ser algo excepcional. Mais de 6.300 exoplanetas já haviam sido catalogados quando a pesquisa foi divulgada, mas mundos rochosos com sinais de atmosfera continuam sendo especialmente interessantes para os astrônomos.
É nesse grupo que aparece o HD 3167 b, uma superterra rochosa localizada a aproximadamente 154 anos-luz, na constelação de Peixes. O planeta foi analisado por uma equipe liderada por Brandon Park Coy, cientista da Universidade de Chicago.
A distância, porém, está longe de ser sua característica mais impressionante.
O HD 3167 b circula tão perto de sua estrela que precisa de aproximadamente um dia terrestre para completar uma órbita. Essa proximidade significa uma exposição brutal à radiação estelar e transforma sua superfície em um ambiente muito diferente daquele encontrado atualmente na Terra.
Sua temperatura de equilíbrio chega a aproximadamente 1.786 kelvin, equivalentes a cerca de 1.510 °C. Diretamente sob a estrela, as condições podem ser ainda mais extremas.
A quantidade de energia recebida é suficiente para fundir silicatos na região iluminada do planeta. Por isso, os pesquisadores o colocam em uma categoria que parece saída da ficção científica: os chamados “mundos de lava”.
Mas foi justamente aquilo que aparentemente sobrevive a esse inferno que chamou a atenção dos cientistas.
Há algo envolvendo esse oceano de rocha derretida
Um planeta tão próximo de sua estrela deveria enfrentar enormes dificuldades para conservar gases ao seu redor. A radiação intensa pode contribuir para que uma atmosfera seja gradualmente perdida para o espaço.
No HD 3167 b, entretanto, as observações indicam que a história pode ser mais complicada.
Ao analisar o eclipse do planeta, os pesquisadores encontraram um resultado incompatível com aquilo que seria esperado de uma simples rocha escura, sem atmosfera e submetida ao aquecimento máximo de sua estrela. O planeta parece emitir menos calor do que esse cenário básico prevê.
Uma possível explicação é justamente a existência de uma atmosfera.
Ela poderia redistribuir parte da energia recebida, transportando calor do hemisfério permanentemente iluminado para o lado noturno. Outra possibilidade é a presença de nuvens ou materiais altamente reflexivos capazes de devolver ao espaço uma parcela significativa da radiação estelar.
Ainda não existe uma resposta definitiva sobre sua composição. Os modelos analisados pelos pesquisadores incluem possibilidades como vapor de rocha combinado com substâncias voláteis, entre elas água, oxigênio e dióxido de carbono.
É essa incerteza que torna o planeta ainda mais interessante: entender como uma atmosfera consegue persistir nessas condições pode revelar onde está a fronteira entre planetas de lava completamente expostos e aqueles que conseguem manter uma camada significativa de gases.
A conexão inesperada com uma Terra que ninguém poderia reconhecer
Hoje, oceanos, continentes e uma atmosfera relativamente estável fazem parecer estranho comparar nosso planeta com um mundo onde a rocha derrete na superfície. Mas, se voltássemos bilhões de anos no tempo, a paisagem terrestre seria radicalmente diferente.
Durante sua formação, a Terra passou por períodos em que enormes quantidades de material estavam fundidas. Uma das etapas mais importantes de sua juventude envolveu um verdadeiro oceano de magma.
Nesse ambiente, o interior quente do planeta interagia continuamente com os gases liberados para a superfície. Esses processos ajudaram a determinar como as primeiras atmosferas se formaram, mudaram e, eventualmente, criaram condições para a evolução posterior do planeta.
É praticamente impossível observar diretamente essa fase da história terrestre. O registro geológico foi profundamente transformado ao longo de bilhões de anos por erosão, tectônica, vulcanismo e outros processos.
Planetas como HD 3167 b oferecem uma alternativa: observar, em outro sistema planetário, condições que lembram alguns dos processos que podem ter ocorrido durante a juventude dos mundos rochosos.
Um planeta extremo pode funcionar como uma máquina do tempo
Isso não significa que HD 3167 b seja uma réplica da Terra primitiva. As condições atuais do exoplaneta são extraordinariamente diferentes e muito mais extremas. A importância científica está nos mecanismos físicos que podem ser estudados ali.
Os pesquisadores podem investigar como superfícies de magma trocam materiais com atmosferas, como gases escapam do interior de um planeta e quais condições permitem que eles permaneçam ao redor de um mundo submetido a temperaturas elevadíssimas.
A descoberta também amplia uma questão importante na astronomia: até que ponto um planeta rochoso consegue conservar uma atmosfera quando vive perigosamente perto de sua estrela?
Responder a essa pergunta pode ajudar não apenas a interpretar HD 3167 b, mas também outros mundos extremos encontrados no futuro.
E existe uma ironia fascinante nessa investigação. Para compreender melhor como nosso planeta azul chegou ao estado atual, os astrônomos estão olhando para um lugar que parece representar exatamente o contrário da Terra: um mundo distante, abrasador e possivelmente coberto por rocha derretida.
Talvez seja justamente nesse inferno cósmico que estejam preservadas algumas das pistas sobre como tudo começou por aqui.
[Fonte: cronista]