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Ciência

Cientistas se surpreendem ao descobrir microrganismos “colonizando” lava poucas horas após o resfriamento — e isso muda o que sabemos sobre a vida em ambientes extremos

Um novo estudo mostra que micróbios conseguem se estabelecer quase imediatamente em rochas formadas por erupções vulcânicas, abrindo uma janela inédita para entender como comunidades biológicas surgem do zero — na Terra e possivelmente além dela.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A vida microscópica já provou ser incrivelmente resistente, mas um novo achado levou essa fama a outro patamar. Pesquisadores relataram que microrganismos são capazes de colonizar lava recém-solidificada em questão de horas, mesmo após erupções que esterilizam completamente o ambiente. O resultado, publicado na revista Communications Biology, descreve pela primeira vez a ocupação de um habitat que ainda estava se formando, algo raríssimo de ser observado na natureza.

O trabalho foi conduzido por uma equipe de ecólogos e cientistas planetários que acompanharam erupções ocorridas entre 2021 e 2023. A cada evento, a lava expelida — com temperaturas superiores a 1.100 °C — apagava qualquer vestígio de vida pré-existente, criando o que os pesquisadores chamam de uma “tábula rasa” biológica.

Um laboratório natural criado pelo fogo

“A lava que sai do solo está completamente estéril”, explica Nathan Hadland, autor principal do estudo e doutorando da Universidade do Arizona. “Isso nos dá um laboratório natural para entender como os microrganismos conseguem colonizar um ambiente do zero.”

E o desafio é enorme. Rochas vulcânicas recém-formadas praticamente não contêm água nem nutrientes orgânicos, elementos básicos para a vida como conhecemos. Ainda assim, os pesquisadores descobriram que isso não impede a chegada rápida de micróbios.

Durante o período de estudo, o vulcão entrou em erupção três vezes, liberando grandes volumes de lava, gases e cinzas que cobriram áreas próximas de tundra. Após cada episódio, a equipe coletou amostras de fluxos de lava assim que estavam frios o suficiente, além de água da chuva, aerossóis e rochas do entorno.

DNA em rochas recém-nascidas

Lava MicrobiOS 2
© Christopher Hamilton (University of Arizona)

No laboratório, os cientistas extraíram DNA dessas amostras para verificar se havia sinais de vida — e onde ela estava se instalando. O resultado foi surpreendente: em poucas horas ou dias após o resfriamento, as rochas já abrigavam microrganismos ativos.

“Múltiplas métricas mostraram que os fluxos de lava analisados passaram a hospedar microrganismos rapidamente”, descreve o artigo. Segundo Hadland, repetir esse resultado após três erupções no mesmo local foi o que tornou o estudo especialmente robusto.

A primeira onda de colonizadores foi formada por micróbios extremamente resistentes — descritos informalmente pelos pesquisadores como “durões” — que provavelmente chegaram transportados pela chuva. Mesmo em um ambiente quase sem recursos, esses organismos conseguiram se estabelecer.

Comunidades que se constroem com o tempo

À medida que as condições se tornaram menos extremas, outros microrganismos começaram a se juntar à comunidade inicial, vindos da água da chuva e de áreas vizinhas. O estudo mostra que, embora a população microbiana tenha sofrido quedas durante o inverno, o conjunto permaneceu relativamente estável ao longo dos três eventos eruptivos.

“Não esperávamos isso”, admitiu Solange Duhamel, coautora do estudo e bióloga da Universidade do Arizona. “Esses fluxos de lava estão entre os ambientes com menor biomassa da Terra. Ainda assim, nossos dados mostram que organismos unicelulares conseguem colonizá-los muito rapidamente.”

O achado ajuda a preencher uma lacuna importante na ecologia. Até agora, a maioria dos estudos sobre microrganismos extremos analisava ambientes já ocupados. A chamada sucessão primária — a transição de um ambiente totalmente inabitado para um habitado — raramente havia sido observada em tempo real.

E se isso também acontecer fora da Terra?

As implicações do estudo vão além do nosso planeta. Um dos pontos levantados pelos pesquisadores é a possibilidade de processos semelhantes terem ocorrido em Marte. Embora os vulcões marcianos estejam inativos hoje, há evidências de intensa atividade vulcânica no passado.

Erupções liberam calor e gases voláteis, criando janelas temporárias de habitabilidade. Se microrganismos conseguem se instalar rapidamente em lava recém-solidificada na Terra, não é impossível imaginar algo semelhante em outros mundos — ao menos em teoria.

Os próprios autores reconhecem que essa extrapolação envolve muitas suposições. Ainda assim, o estudo reforça uma ideia poderosa: a vida, mesmo em sua forma mais simples, encontra caminhos para se estabelecer em cenários extremos.

Mais do que revelar micróbios “corajosos”, o trabalho mostra como comunidades biológicas podem surgir praticamente do nada. E isso não apenas redefine os limites da vida na Terra, como também amplia o leque de perguntas sobre onde — e como — ela pode existir no universo.

 

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