As flores estão entre as maiores histórias de sucesso da evolução. Hoje, cerca de 90% das espécies de plantas conhecidas produzem flores, estruturas responsáveis pela reprodução e pela formação de sementes. Mas chegar a esse domínio não foi obra do acaso. Ao longo de aproximadamente 150 milhões de anos, elas desenvolveram uma série de adaptações sofisticadas para convencer insetos e pequenos animais a transportar seu pólen, muitas vezes recorrendo a verdadeiros truques da natureza.
As flores transformaram a evolução da vida na Terra

Segundo especialistas, existem cerca de 350 mil espécies de plantas com flores no planeta.
Antes do surgimento delas, a Terra era dominada por samambaias, musgos e outras plantas primitivas. A chegada das flores mudou completamente esse cenário.
Além de diversificarem a vegetação terrestre, elas impulsionaram a evolução de inúmeros grupos de animais, incluindo abelhas, borboletas e mamíferos herbívoros.
Para os cientistas, muitas espécies atuais — inclusive os seres humanos — provavelmente não existiriam sem essa transformação ecológica.
Grande parte desse sucesso está ligada à polinização cruzada, processo em que o pólen é transportado de uma flor para outra, aumentando a diversidade genética das plantas.
Algumas flores enganam os insetos para garantir a polinização
Nem todas as flores oferecem recompensas honestas aos seus visitantes.
Diversas espécies de orquídeas utilizam estratégias de engano extremamente sofisticadas.
A chamada orquídea-mosca, por exemplo, libera substâncias químicas muito semelhantes aos feromônios produzidos por fêmeas de determinadas vespas.
Atraídos pelo cheiro, os machos tentam acasalar com a flor. Durante essa tentativa, acabam recebendo um pacote de pólen na cabeça, que será transportado para outra flor da mesma espécie.
Na Austrália, a orquídea do gênero Drakaea leva esse truque ainda mais longe.
Ela não apenas imita a aparência e o aroma de uma vespa-fêmea, como também utiliza um mecanismo semelhante a uma alavanca. Quando o inseto tenta copular com a flor, é lançado contra as estruturas reprodutivas da planta, garantindo que o pólen fique preso ao seu corpo.
Algumas flores preferem cheirar a carne podre
Nem todas as plantas apostam em perfumes agradáveis.
A famosa flor-cadáver (Amorphophallus titanum) produz um odor intenso de carne em decomposição para atrair moscas e besouros que normalmente procuram animais mortos.
Esses insetos acabam realizando a polinização enquanto procuram alimento.
A planta pode ultrapassar três metros de altura e floresce apenas uma vez a cada vários anos, permanecendo aberta por apenas um ou dois dias devido ao enorme gasto de energia necessário para produzir sua gigantesca inflorescência.
Flores também produzem calor e até cafeína
Algumas espécies desenvolveram estratégias ainda mais curiosas.
Magnólias e outras plantas conseguem aquecer suas flores por meio de um processo conhecido como termogênese floral.
Em alguns casos, a temperatura interna pode ficar até 30 °C acima da temperatura ambiente.
Além de espalhar melhor os aromas, esse calor oferece abrigo para insetos durante as noites frias, permitindo que eles iniciem a atividade logo nas primeiras horas da manhã.
Outra adaptação surpreendente envolve a cafeína.
Pesquisas mostram que algumas flores adicionam pequenas quantidades dessa substância ao néctar.
A cafeína melhora a memória das abelhas, fazendo com que elas se lembrem mais facilmente da localização das flores e retornem com maior frequência.
Ao mesmo tempo, ela faz os insetos superestimarem a qualidade do néctar disponível, aumentando as chances de novas visitas.
Curiosamente, certas plantas também produzem compostos capazes de reduzir infecções causadas por fungos e parasitas em abelhas, mostrando que a relação entre flores e polinizadores nem sempre é baseada apenas em manipulação.
As flores continuam evoluindo diante das mudanças ambientais

As estratégias das flores continuam mudando.
Com a redução das populações de insetos provocada pelas mudanças climáticas, pelo uso de pesticidas e pela agricultura intensiva, algumas espécies estão alterando sua forma de reprodução.
Pesquisas realizadas na França mostraram que exemplares atuais da espécie Viola arvensis desenvolveram flores menores, menos perfumadas e menos atrativas para polinizadores.
Além disso, suas estruturas reprodutivas ficaram mais próximas, facilitando a autopolinização quando há escassez de insetos.
Para os botânicos, essa capacidade de adaptação explica por que as plantas com flores continuam sendo um dos grupos mais bem-sucedidos da história da evolução.
As flores que existirão daqui a um milhão de anos provavelmente serão muito diferentes das atuais, mas devem continuar utilizando estratégias criativas para convencer outros seres vivos a ajudá-las a se reproduzir.
[ Fonte: BBC ]