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Ciência

Infertilidade masculina ainda é negligenciada, apesar de estar presente em metade dos casos

Especialistas alertam que homens continuam sendo deixados em segundo plano durante o diagnóstico e o tratamento da infertilidade. O atraso na investigação pode dificultar a concepção, aumentar os custos dos tratamentos e afetar profundamente a saúde física e emocional dos casais.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando um casal enfrenta dificuldades para engravidar, a atenção costuma se voltar quase exclusivamente para a mulher. Embora a infertilidade masculina esteja envolvida em cerca de metade dos casos, muitos homens relatam que são tratados apenas como acompanhantes durante consultas, exames e tratamentos. Especialistas afirmam que essa abordagem não apenas atrasa diagnósticos importantes, como também reforça estigmas que ainda cercam a saúde reprodutiva masculina.

A infertilidade masculina continua sendo subestimada

Esperma
© Pixel-Shot via Shutterstock

Luke, morador do Reino Unido, descobriu essa realidade depois de quase dois anos tentando ter filhos com a esposa.

Mesmo após meses de consultas, exames e uma tentativa frustrada de fertilização in vitro (FIV), toda a investigação médica permaneceu concentrada na parceira.

Somente mais de um ano depois os médicos passaram a considerar que poderia existir um fator masculino envolvido.

“Todo o sistema parte do princípio de que o problema está na mulher”, relatou Luke. “Quando finalmente falaram sobre o meu esperma, pensei: por que isso não foi investigado antes?”

Segundo o Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados (NICE), do Reino Unido, casais que não conseguem engravidar após 12 meses de relações sem contracepção devem ser avaliados em conjunto, com exames paralelos para homens e mulheres.

Na prática, porém, especialistas afirmam que essa recomendação ainda nem sempre é seguida.

Metade dos casos envolve fatores masculinos

Estima-se que a infertilidade afete aproximadamente um em cada seis casais.

Em cerca de 50% dos casos, existe algum fator relacionado ao homem, seja como causa principal ou associado à infertilidade feminina.

Mesmo assim, muitos serviços de fertilidade continuam estruturados principalmente em torno da saúde reprodutiva da mulher.

Segundo a professora Bola Grace, da University College London, diversos homens relatam sentir-se excluídos durante todo o processo.

Ela explica que isso cria um ciclo difícil de romper: como os homens são pouco incluídos nas consultas e decisões, acabam participando menos. Em seguida, essa menor participação é interpretada como falta de interesse.

Essa dinâmica aumenta a carga emocional sobre as mulheres, que frequentemente assumem o planejamento dos tratamentos, a tomada de decisões e a gestão do impacto psicológico causado pela infertilidade.

O diagnóstico tardio pode dificultar o tratamento

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© Pexels

O atraso na investigação masculina também pode comprometer as chances de sucesso.

No caso de Luke, um exame revelou posteriormente um varicocele, dilatação das veias do escroto que pode prejudicar a produção de espermatozoides.

Apesar do tratamento, o casal precisou recorrer novamente à fertilização assistida, desta vez utilizando a técnica ICSI, em que um único espermatozoide é injetado diretamente no óvulo.

Outro paciente, James, recebeu o diagnóstico de baixa qualidade espermática apenas após meses de exames realizados quase exclusivamente na parceira.

Mais tarde, descobriu que teria dificuldade para conceber naturalmente.

Ele relata que o impacto psicológico foi devastador.

“Senti que era o responsável pela dor da pessoa que amo”, afirmou.

O estigma ainda impede muitos homens de buscar ajuda

Especialistas afirmam que a infertilidade masculina ainda é frequentemente associada, de forma equivocada, à virilidade e à masculinidade.

Esse estigma faz com que muitos homens evitem conversar sobre o tema ou até mesmo adiem exames importantes, como o espermograma.

Dados apresentados por pesquisadores europeus mostram que muitos especialistas encontram dificuldades para convencer pacientes a realizar a análise do sêmen.

Alguns homens acreditam que, por manterem vida sexual ativa ou já terem tido filhos anteriormente, não podem apresentar infertilidade.

Outros demonstram constrangimento em fornecer a amostra necessária para o exame.

Enquanto isso, grupos de apoio destinados aos homens continuam sendo muito menos numerosos do que aqueles voltados às mulheres.

Mudanças no estilo de vida também podem fazer diferença

Diversos estudos mostram que fatores como tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, má alimentação, privação de sono e uso de esteroides anabolizantes podem reduzir a qualidade do esperma.

No entanto, os especialistas alertam que mudanças pontuais costumam ter pouco efeito.

Segundo o professor Allan Pacey, da Universidade de Manchester, o ciclo completo de produção dos espermatozoides leva aproximadamente três meses.

Por isso, hábitos saudáveis precisam ser mantidos de forma contínua para produzir resultados relevantes.

Além da fertilidade, médicos destacam que alterações no espermograma podem funcionar como um importante sinal de alerta para outros problemas de saúde, incluindo distúrbios hormonais, doenças metabólicas e fatores cardiovasculares.

Por esse motivo, cresce entre especialistas a defesa de que a infertilidade masculina deixe de ser vista apenas como um obstáculo para ter filhos e passe a ser tratada como uma questão relevante de saúde do homem.

À medida que esse debate ganha espaço, profissionais esperam reduzir o estigma, incentivar diagnósticos mais precoces e garantir que homens e mulheres participem de forma igualitária de todo o processo de investigação e tratamento da infertilidade.

 

[ Fonte: BBC ]

 

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