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Ciência

Como os olhos azuis quase desapareceram em Roma durante o Império

Um estudo de DNA antigo mostrou que a presença de olhos claros caiu de 20% para apenas 4% entre os romanos — e revelou como migrações e misturas culturais remodelaram a genética da época.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Uma queda inesperada

Um levantamento genético recente trouxe à tona um dado intrigante: os olhos azuis, relativamente comuns na Roma pré-imperial, quase desapareceram durante o auge do Império. Antes da expansão romana, um em cada cinco habitantes tinha olhos claros. Já no período imperial, esse número despencou para apenas 4%.

O dado surpreende porque se trata de uma característica visível e facilmente identificável, que mudou de forma drástica em poucas gerações. Só na Idade Média a proporção voltaria a subir, aproximando-se novamente dos 21%.

O papel das migrações

A pesquisa, conduzida pelo investigador Davide Piffer com base em mais de 4.000 amostras de DNA antigo, aponta para um fator decisivo: os fluxos migratórios.

Nos primeiros séculos de Roma, a base genética principal era anatólio, mas havia também forte presença dos povos das estepes, como os yamnas, com alta frequência de olhos claros. Com a consolidação do Império, a chegada de migrantes do Oriente e de regiões internas trouxe maior predominância de olhos escuros.

Somente após a queda do Império Romano, com a entrada de povos germânicos como longobardos e ostrogodos, a pigmentação clara voltou a ganhar espaço entre os habitantes da península.

A explicação genética

Genes 1
© Freepik

O colorido dos olhos depende de dois genes no cromossomo 15: o OCA2, que controla a produção de melanina, e o HERC2, que regula essa atividade.

Em indivíduos de olhos escuros, o HERC2 ativa o OCA2 para produzir pigmento. Já em pessoas de olhos azuis ou verdes, uma mutação específica limita essa função, resultando em menor concentração de melanina no íris.

A análise de DNA permite identificar essa “assinatura genética” em restos humanos de milhares de anos, revelando como os traços físicos se distribuíam nas populações antigas.

Limites e controvérsias

Nem todos os especialistas concordam com conclusões tão categóricas. O demógrafo Lyman Stone, por exemplo, alerta que a representatividade das amostras é limitada, o que torna arriscado generalizar.

Segundo ele, a população romana do período imperial era formada por imigrantes de origens diversas, em sua maioria com olhos escuros, mas o registro genético disponível pode não capturar toda a diversidade da época. Por isso, cada nova descoberta permanece sujeita a revisão.

Um fenômeno maior na história europeia

Estudos como esse fazem parte de um debate mais amplo sobre a evolução dos traços fenotípicos na Europa. Pesquisas indicam que até a Idade do Ferro, a maioria dos europeus tinha pele escura, e que a pigmentação clara é um fenômeno mais recente do que se imaginava.

O famoso “Homem de Cheddar”, encontrado no Reino Unido, reforça essa ideia: ele viveu há 10 mil anos e tinha pele escura, mas olhos claros. Isso mostra que a combinação de características físicas variava bastante e só se consolidou em padrões mais homogêneos após séculos de migrações e misturas.

Roma como laboratório de diversidade

No caso específico de Roma, o período imperial serviu como um laboratório genético em escala continental. O colapso da proporção de olhos azuis não foi definitivo: ao longo da história, novos fluxos migratórios reverteram o quadro.

Esse vai e vem mostra que até traços físicos marcantes, como a cor dos olhos, podem desaparecer em determinados contextos históricos e reaparecer depois, dependendo dos encontros culturais e genéticos.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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