Vivemos em uma era de hiperestimulação: notificações, mensagens e múltiplas telas disputam nosso foco o tempo todo. Esse cenário afeta todas as idades, mas torna-se mais evidente com o passar dos anos, quando a concentração tende a diminuir naturalmente. A neurociência, no entanto, demonstra que a atenção pode ser treinada e fortalecida por meio de hábitos saudáveis, garantindo não apenas produtividade, mas também proteção contra o declínio cognitivo.
Como o cérebro muda com o envelhecimento
De acordo com o neurologista Ricardo Allegri, do Fleni, a concentração depende da atenção, responsável por focar a consciência em estímulos relevantes. Com a idade, ocorre uma redução da atenção seletiva, dificultando o acesso rápido a informações ou palavras. Isso não significa perda patológica de memória, mas sim maior esforço para recuperar dados já armazenados.
O especialista Guido Dorman, da Clínica de Memória do INECO, acrescenta que o envelhecimento reduz a eficiência das redes frontais e parietais, responsáveis pelo controle executivo. Isso se traduz em menor velocidade de processamento e maior dispersão da atenção, embora dentro do esperado para um envelhecimento saudável.
A atenção na era digital
Os jovens também enfrentam desafios: a prática constante do multitarefa favorece a atenção dividida, mas reduz a profundidade do processamento. Allegri alerta que “a atenção real só pode se concentrar em um estímulo de cada vez”, e atividades simultâneas, como dirigir e usar o celular, são perigosas.
Segundo Dorman, a cultura da hiperconexão dá a falsa impressão de produtividade. Na prática, ela gera fadiga cognitiva, menor precisão e memória prejudicada. A atenção não desaparece, mas adapta-se a um ambiente que valoriza a velocidade em vez da profundidade.
Exercitar o cérebro é essencial
A neuropsicóloga Martina Grané, também do INECO, explica que treinar a atenção fortalece as redes neurais ligadas à tomada de decisão e ao controle cognitivo, oferecendo proteção contra o envelhecimento cerebral. Não existe uma “ginástica milagrosa”, mas hábitos cientificamente comprovados: aprender um idioma, praticar música, manter vida social ativa e realizar exercícios aeróbicos. Essas práticas aumentam a chamada reserva cognitiva, que ajuda o cérebro a compensar perdas naturais.

Dez hábitos para treinar a concentração
A neurociência recomenda ações práticas para manter a mente focada:
- Dormir bem, entre 7 e 8 horas por noite.
- Reduzir distrações externas, como notificações e ruídos.
- Praticar meditação ou mindfulness.
- Fazer exercícios físicos regulares.
- Controlar o uso do celular, definindo horários para redes sociais.
- Organizar tarefas em blocos de tempo curtos.
- Fazer pausas a cada 25 ou 30 minutos.
- Manter o espaço de trabalho organizado.
- Ler diariamente por 20 a 30 minutos.
- Jogar xadrez, sudoku ou outros desafios mentais.
Um cérebro atento envelhece melhor
A atenção não é perdida com a idade: pode ser estimulada ao longo da vida. A plasticidade cerebral —capacidade de reorganização das conexões— permanece ativa em qualquer fase. Cultivar hábitos saudáveis, limitar estímulos excessivos e manter a curiosidade intelectual é o melhor investimento para preservar um cérebro forte, focado e jovem.