A constelação familiar é uma prática que desperta cada vez mais interesse — e também desconfiança. Utilizada até mesmo em audiências judiciais, ela propõe resolver conflitos emocionais por meio de dramatizações simbólicas. Mas, afinal, essa técnica pode ser considerada terapêutica? É segura? Reconhecida? Conversamos com especialistas para entender onde a constelação pode ser útil, onde ela representa riscos e por que ela deve ser usada com cautela.
O que é constelação familiar e como funciona
Criada pelo alemão Bert Hellinger, a constelação familiar busca tornar visíveis padrões inconscientes nas relações familiares, como exclusões, culpas e lealdades que se perpetuam por gerações. Em sessões — geralmente coletivas — os participantes representam membros da família do cliente, revelando dinâmicas ocultas que podem estar afetando sua vida emocional ou relacional.
Segundo a psicóloga Renata Yamasaki, especialista em neuropsicologia pela Unifesp, o objetivo é promover reconciliações internas e restaurar o “fluxo de amor” familiar. “É uma ferramenta de ampliação de consciência, não uma substituta da psicoterapia”, ressalta. Para ela, a constelação pode ser útil como prática complementar, mas não é adequada para tratar quadros psiquiátricos ou sofrimento psíquico intenso.
A prática é reconhecida pela Psicologia?
Apesar da popularidade crescente no Brasil, a constelação familiar não é reconhecida como abordagem terapêutica válida pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). De acordo com a psicóloga Beatriz Brandão, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, a técnica carece de fundamentação teórica, metodologia sistematizada e comprovação científica. Ela cita a Nota Técnica CFP nº 01/2022, que esclarece os limites éticos e profissionais quanto ao uso da prática por psicólogos.
Brandão também critica posturas problemáticas da abordagem original, como a relativização de abusos e a possível culpabilização de vítimas em nome da “ordem sistêmica”. “Essas ideias são incompatíveis com os princípios da Psicologia e da defesa dos direitos humanos”, afirma.
Quais são os riscos envolvidos?
As especialistas concordam que, se aplicada sem os devidos cuidados, a constelação familiar pode causar efeitos colaterais significativos. Entre eles estão a indução de memórias falsas, a retraumatização e o deslocamento de culpa. “Um participante pode sair convencido de que a mãe é responsável por todos os seus problemas, apenas com base em uma representação simbólica, sem nenhuma análise clínica”, alerta Brandão.
Yamasaki também reconhece os perigos, mas pondera que a técnica pode ser aplicada com segurança se conduzida por um profissional qualificado, com formação em saúde mental e postura neutra. “O papel do facilitador é apoiar o cliente na sua própria leitura interna, e não impor verdades absolutas”, explica.
A constelação pode substituir a psicoterapia?
Definitivamente, não. As duas profissionais ouvidas são unânimes: a constelação familiar não substitui tratamentos estruturados e baseados em evidências. Ela pode, no máximo, funcionar como um complemento simbólico para ampliar a percepção de conflitos, desde que aplicada com consciência de seus limites.
“Sentir-se tocado por uma cena simbólica não significa ter alcançado uma mudança psíquica real e duradoura”, afirma Brandão. Por isso, é essencial buscar apoio profissional sempre que houver sofrimento significativo, em especial com psicólogos ou psiquiatras capacitados.
Antes de participar, questione
Antes de aderir a uma sessão de constelação familiar, é importante investigar a formação e a abordagem da pessoa que conduzirá o processo. Se não houver qualquer base em saúde mental ou compromisso ético claro, é prudente repensar a decisão.
A constelação familiar pode tocar, emocionar e até oferecer insights. Mas não deve ser confundida com psicoterapia — e, mal aplicada, pode fazer mais mal do que bem. Informação, consciência e cuidado continuam sendo os melhores aliados na busca por saúde emocional.
[ Fonte: CNN Brasil ]