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Ciência

Crianças e adolescentes não devem receber o mesmo tratamento contra a obesidade — entenda o alerta da OMS

Com a obesidade infantil avançando no mundo, novos tratamentos despertam expectativas. Mas a Organização Mundial da Saúde estabeleceu limites importantes que podem mudar o atendimento de crianças e adolescentes.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Medicamentos que ganharam popularidade no tratamento da obesidade em adultos começam a fazer parte das discussões sobre a saúde de crianças e adolescentes. A possibilidade de controlar o peso com tratamentos mais modernos parece promissora, mas também levanta dúvidas importantes sobre segurança e desenvolvimento. Diante desse cenário, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou novas recomendações que estabelecem diferenças fundamentais entre as faixas etárias e reforçam a necessidade de acompanhamento médico.

A OMS estabeleceu um limite importante para crianças menores de 10 anos

A principal orientação envolve os tratamentos utilizados para reduzir o peso corporal.

Para crianças com menos de 10 anos, a OMS desaconselha medicamentos agonistas do receptor GLP-1, cirurgias bariátricas e dispositivos destinados ao emagrecimento.

Nessa faixa etária, a prioridade deve ser dada a intervenções estruturadas que envolvam alimentação, atividade física e mudanças comportamentais, sempre adaptadas às necessidades de cada criança.

A preocupação surge em um momento de crescimento expressivo da obesidade infantil.

Em 2024, aproximadamente 170 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos viviam com obesidade em todo o mundo.

Desse total, cerca de 70 milhões tinham entre 5 e 9 anos, enquanto outros 100 milhões pertenciam à faixa dos 10 aos 19 anos.

Segundo a OMS, a prevalência global da obesidade nessas idades quadruplicou desde 1990, passando de aproximadamente 2% para 8%.

O aumento foi especialmente expressivo entre adolescentes.

Para as crianças menores, a organização recomenda programas que envolvam profissionais de saúde e familiares, considerando também aspectos emocionais e sociais.

Ferramentas digitais podem complementar o acompanhamento, desde que utilizadas com a participação e supervisão dos responsáveis.

A intenção é evitar que medicamentos ou procedimentos sejam vistos como soluções automáticas para uma condição que exige cuidados contínuos.

Adolescentes podem receber medicamentos, mas existem condições

A partir dos 10 anos, as recomendações passam a admitir outras possibilidades terapêuticas em situações específicas.

A OMS considera que medicamentos aprovados para determinadas faixas etárias podem ser avaliados quando intervenções abrangentes de alimentação, atividade física e comportamento não apresentam os resultados esperados.

Isso não significa que qualquer adolescente com obesidade deva receber medicamentos.

A decisão precisa considerar a idade, as condições clínicas, a aprovação regulatória do tratamento e o acompanhamento por profissionais qualificados.

A cirurgia bariátrica também pode ser considerada em adolescentes com obesidade grave, especialmente quando existem complicações associadas.

Entretanto, a recomendação é condicional e exige avaliação individualizada.

Um dos principais motivos para tanta cautela é a falta de dados suficientes sobre os efeitos desses tratamentos ao longo de muitos anos.

Crianças e adolescentes ainda estão em desenvolvimento, e uma intervenção considerada eficaz no curto prazo pode apresentar consequências que precisam ser melhor investigadas.

Também existem preocupações relacionadas aos efeitos adversos, à continuidade do tratamento e à dificuldade de manter terapias medicamentosas durante períodos prolongados.

A OMS reconhece que novas pesquisas poderão modificar essas recomendações no futuro.

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© Moisés Delgado – Pexels

Emagrecer não deve ser o único objetivo do tratamento

Outro ponto importante das diretrizes é a maneira como a obesidade infantil deve ser compreendida.

A organização destaca que o sucesso de um tratamento não pode ser medido exclusivamente pela quantidade de peso perdido.

A prioridade deve incluir saúde metabólica, qualidade de vida, bem-estar emocional e prevenção de complicações.

Entre os problemas associados à obesidade estão o diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares, cujos riscos podem acompanhar o indivíduo até a vida adulta.

Mas a responsabilidade não deve recair apenas sobre a criança ou sua família.

A OMS também defende políticas públicas que facilitem o acesso a alimentos saudáveis e criem oportunidades seguras para a prática de atividades físicas.

Ao mesmo tempo, ressalta que medidas preventivas não substituem o atendimento médico de crianças e adolescentes que já vivem com obesidade.

Esses pacientes precisam receber cuidados adequados, sem discriminação, julgamentos ou estigmatização.

O envolvimento da família, da comunidade e dos profissionais de saúde é considerado essencial para construir mudanças sustentáveis.

O que muda com as novas recomendações

As diretrizes foram elaboradas a partir de uma avaliação ampla das evidências disponíveis.

O processo reuniu 35 análises, incluindo 22 revisões sistemáticas e 13 análises narrativas, além de considerar custos, viabilidade de implementação e preferências dos pacientes.

O resultado é uma abordagem que reconhece a obesidade infantil como uma condição complexa, influenciada por fatores biológicos, comportamentais, familiares e sociais.

Medicamentos e cirurgias podem desempenhar um papel no tratamento de determinados adolescentes, mas não representam uma solução universal.

O principal alerta da OMS é que a idade e o desenvolvimento da criança devem orientar as decisões terapêuticas, e não apenas a expectativa de perder peso rapidamente.

Em um cenário no qual novos medicamentos despertam cada vez mais interesse, a organização reforça que tratar a obesidade infantil significa cuidar da saúde presente sem comprometer o futuro.

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