Pular para o conteúdo
Ciência

Depois de 20 anos de trabalho, este enorme radiotelescópio ainda espera para fazer sua primeira grande missão

Um dos maiores projetos científicos da América do Sul está praticamente concluído. Só que, quando faltava pouco para começar a observar o cosmos, um problema bem menos tecnológico entrou em cena.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Há projetos científicos que parecem destinados a transformar a maneira como um país observa o espaço. Este é um deles. Uma gigantesca antena parabólica, construída ao longo de anos e com participação internacional, está muito perto de cumprir sua missão. O problema é que os últimos passos não dependem apenas de engenharia, ciência ou tecnologia. E é justamente aí que a história começa a ficar mais complicada.

Uma antena gigantesca esperando para olhar para o céu

O protagonista dessa história é o Radiotelescópio Chinês-Argentino (CART), instalado no Observatório Astronômico Carlos U. Cesco, em Calingasta, na província argentina de San Juan. O equipamento já atingiu aproximadamente 90% de execução, mas ainda não conseguiu concluir a etapa final de instalação.

Com 40 metros de diâmetro e cerca de 60 metros de altura, a antena foi projetada para observar o Universo de uma maneira muito diferente dos telescópios ópticos. Em vez de captar a luz visível, o CART receberá ondas de rádio extremamente fracas emitidas por estrelas, regiões onde novas estrelas estão nascendo, nuvens interestelares e outros fenômenos cósmicos.

O enorme refletor concentrará essas ondas em receptores especializados, responsáveis por amplificar e processar os sinais. Inicialmente, o equipamento poderá trabalhar nas bandas S, entre 2 e 4 GHz, e K, entre 18 e 26 GHz. O projeto, porém, prevê uma capacidade muito mais ampla, chegando aproximadamente de 1 a 45 GHz.

Essa característica abre uma possibilidade ainda mais interessante: utilizar o CART em técnicas de interferometria de muito longa base, conhecida como VLBI. Nesse método, radiotelescópios separados por milhares de quilômetros trabalham juntos para produzir observações com uma resolução equivalente à de um instrumento gigantesco.

O que pode acontecer quando San Juan e Salta trabalham juntas

O potencial do CART não termina na própria antena. Uma das possibilidades mais interessantes está na cooperação com o LLAMA, outro grande radiotelescópio que está sendo desenvolvido na Puna de Salta, também na Argentina, em parceria com o Brasil.

Os dois equipamentos poderão compartilhar determinadas frequências, especialmente entre 31 e 45 GHz. A distância entre San Juan e Salta, que normalmente seria apenas um detalhe geográfico, pode se transformar em uma enorme vantagem científica ao funcionar como uma linha de base interferométrica.

O CART também poderá integrar redes internacionais de VLBI, contribuindo para ampliar a capacidade de observação do hemisfério sul, que conta com menos grandes radiotelescópios desse tipo.

E seus usos não estarão restritos à astronomia. O instrumento poderá participar de estudos de geodésia, ajudar a determinar com maior precisão a posição e a orientação da Terra, acompanhar pequenas variações na rotação do planeta e contribuir para operações de rastreamento e telemetria de satélites.

Tudo isso ajuda a explicar por que uma estrutura que ainda nem começou a operar desperta tanto interesse. Mas também torna mais frustrante o que está acontecendo agora.

A ciência avançou, mas a burocracia ficou para trás

O principal obstáculo atualmente não está relacionado à capacidade da antena. O problema é institucional.

O acordo firmado em 2015 entre a Academia Chinesa de Ciências, a Universidade Nacional de San Juan, o governo provincial e o CONICET venceu em junho de 2025 e ainda não foi renovado.

A situação chegou ao Senado argentino nesta semana, depois que a Universidade Nacional de San Juan buscou apoio para encontrar uma solução que permita concluir a instalação do equipamento.

Existe ainda outro entrave. Um carregamento enviado da China contendo tintas e componentes metálicos está retido na alfândega há aproximadamente um ano devido a inconsistências na documentação. Sem esses materiais, uma parte da etapa final permanece pendente.

O problema ganhou uma dimensão ainda maior porque o projeto está inserido em uma relação científica com a China justamente em um período de crescente disputa geopolítica envolvendo infraestrutura espacial e tecnológica.

A situação argentina já havia atraído atenção internacional por causa da estação espacial chinesa de Neuquén, associada a missões espaciais. Nos últimos anos, autoridades dos Estados Unidos também demonstraram preocupação com possíveis aplicações de uso duplo em determinadas instalações ligadas à China.

Em 2025, o governo argentino determinou ainda que novas estações terrestres, radares e sistemas semelhantes tenham intervenção prévia do Ministério da Defesa.

Oficialmente, os atrasos do CART são atribuídos a questões administrativas. Para a universidade, porém, existe a preocupação de que interesses externos possam estar influenciando a continuidade da cooperação científica.

Duas décadas depois, falta justamente o último passo

A história do CART começou muito antes de a enorme antena ocupar seu lugar em San Juan. As primeiras iniciativas para instalar o radiotelescópio surgiram em 2004. Cinco anos depois, a China manifestou formalmente interesse em construir um grande radiotelescópio no hemisfério sul.

O projeto foi aprovado em 2014 e formalizado pelo acordo internacional firmado no ano seguinte.

Em julho de 2024, o refletor principal já estava completamente montado. A estrutura faz parte de um conjunto que ultrapassa mil toneladas e representa o resultado de mais de duas décadas de planejamento, cooperação e construção.

Agora, o projeto está próximo dos 90% de execução.

A ironia é que justamente o trecho final se tornou o mais difícil. A tecnologia está praticamente pronta para receber sinais do espaço, mas documentos, acordos institucionais e materiais ainda precisam ser liberados para que a gigantesca antena possa finalmente cumprir sua função.

Se os obstáculos forem resolvidos, San Juan poderá ganhar um novo papel na radioastronomia internacional e passar a fazer parte de uma rede capaz de observar o Universo de uma perspectiva que o olho humano jamais conseguiria alcançar.

Por enquanto, o CART permanece parado no chão, praticamente pronto para ouvir o cosmos — esperando apenas que os problemas aqui na Terra sejam resolvidos.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados