Há projetos científicos que parecem destinados a transformar a maneira como um país observa o espaço. Este é um deles. Uma gigantesca antena parabólica, construída ao longo de anos e com participação internacional, está muito perto de cumprir sua missão. O problema é que os últimos passos não dependem apenas de engenharia, ciência ou tecnologia. E é justamente aí que a história começa a ficar mais complicada.
Uma antena gigantesca esperando para olhar para o céu
O protagonista dessa história é o Radiotelescópio Chinês-Argentino (CART), instalado no Observatório Astronômico Carlos U. Cesco, em Calingasta, na província argentina de San Juan. O equipamento já atingiu aproximadamente 90% de execução, mas ainda não conseguiu concluir a etapa final de instalação.
Com 40 metros de diâmetro e cerca de 60 metros de altura, a antena foi projetada para observar o Universo de uma maneira muito diferente dos telescópios ópticos. Em vez de captar a luz visível, o CART receberá ondas de rádio extremamente fracas emitidas por estrelas, regiões onde novas estrelas estão nascendo, nuvens interestelares e outros fenômenos cósmicos.
O enorme refletor concentrará essas ondas em receptores especializados, responsáveis por amplificar e processar os sinais. Inicialmente, o equipamento poderá trabalhar nas bandas S, entre 2 e 4 GHz, e K, entre 18 e 26 GHz. O projeto, porém, prevê uma capacidade muito mais ampla, chegando aproximadamente de 1 a 45 GHz.
Essa característica abre uma possibilidade ainda mais interessante: utilizar o CART em técnicas de interferometria de muito longa base, conhecida como VLBI. Nesse método, radiotelescópios separados por milhares de quilômetros trabalham juntos para produzir observações com uma resolução equivalente à de um instrumento gigantesco.
O que pode acontecer quando San Juan e Salta trabalham juntas
O potencial do CART não termina na própria antena. Uma das possibilidades mais interessantes está na cooperação com o LLAMA, outro grande radiotelescópio que está sendo desenvolvido na Puna de Salta, também na Argentina, em parceria com o Brasil.
Os dois equipamentos poderão compartilhar determinadas frequências, especialmente entre 31 e 45 GHz. A distância entre San Juan e Salta, que normalmente seria apenas um detalhe geográfico, pode se transformar em uma enorme vantagem científica ao funcionar como uma linha de base interferométrica.
O CART também poderá integrar redes internacionais de VLBI, contribuindo para ampliar a capacidade de observação do hemisfério sul, que conta com menos grandes radiotelescópios desse tipo.
E seus usos não estarão restritos à astronomia. O instrumento poderá participar de estudos de geodésia, ajudar a determinar com maior precisão a posição e a orientação da Terra, acompanhar pequenas variações na rotação do planeta e contribuir para operações de rastreamento e telemetria de satélites.
Tudo isso ajuda a explicar por que uma estrutura que ainda nem começou a operar desperta tanto interesse. Mas também torna mais frustrante o que está acontecendo agora.
A ciência avançou, mas a burocracia ficou para trás
O principal obstáculo atualmente não está relacionado à capacidade da antena. O problema é institucional.
O acordo firmado em 2015 entre a Academia Chinesa de Ciências, a Universidade Nacional de San Juan, o governo provincial e o CONICET venceu em junho de 2025 e ainda não foi renovado.
A situação chegou ao Senado argentino nesta semana, depois que a Universidade Nacional de San Juan buscou apoio para encontrar uma solução que permita concluir a instalação do equipamento.
Existe ainda outro entrave. Um carregamento enviado da China contendo tintas e componentes metálicos está retido na alfândega há aproximadamente um ano devido a inconsistências na documentação. Sem esses materiais, uma parte da etapa final permanece pendente.
O problema ganhou uma dimensão ainda maior porque o projeto está inserido em uma relação científica com a China justamente em um período de crescente disputa geopolítica envolvendo infraestrutura espacial e tecnológica.
A situação argentina já havia atraído atenção internacional por causa da estação espacial chinesa de Neuquén, associada a missões espaciais. Nos últimos anos, autoridades dos Estados Unidos também demonstraram preocupação com possíveis aplicações de uso duplo em determinadas instalações ligadas à China.
Em 2025, o governo argentino determinou ainda que novas estações terrestres, radares e sistemas semelhantes tenham intervenção prévia do Ministério da Defesa.
Oficialmente, os atrasos do CART são atribuídos a questões administrativas. Para a universidade, porém, existe a preocupação de que interesses externos possam estar influenciando a continuidade da cooperação científica.
Duas décadas depois, falta justamente o último passo
A história do CART começou muito antes de a enorme antena ocupar seu lugar em San Juan. As primeiras iniciativas para instalar o radiotelescópio surgiram em 2004. Cinco anos depois, a China manifestou formalmente interesse em construir um grande radiotelescópio no hemisfério sul.
O projeto foi aprovado em 2014 e formalizado pelo acordo internacional firmado no ano seguinte.
Em julho de 2024, o refletor principal já estava completamente montado. A estrutura faz parte de um conjunto que ultrapassa mil toneladas e representa o resultado de mais de duas décadas de planejamento, cooperação e construção.
Agora, o projeto está próximo dos 90% de execução.
A ironia é que justamente o trecho final se tornou o mais difícil. A tecnologia está praticamente pronta para receber sinais do espaço, mas documentos, acordos institucionais e materiais ainda precisam ser liberados para que a gigantesca antena possa finalmente cumprir sua função.
Se os obstáculos forem resolvidos, San Juan poderá ganhar um novo papel na radioastronomia internacional e passar a fazer parte de uma rede capaz de observar o Universo de uma perspectiva que o olho humano jamais conseguiria alcançar.
Por enquanto, o CART permanece parado no chão, praticamente pronto para ouvir o cosmos — esperando apenas que os problemas aqui na Terra sejam resolvidos.