Pular para o conteúdo
Ciência

A tecnologia que transforma o couro cabeludo em uma barreira contra os efeitos da quimioterapia

Uma técnica que combina frio, tecnologia e tratamento contra o câncer está ajudando alguns pacientes a enfrentar uma das consequências mais visíveis da quimioterapia. O problema aparece quando chega a conta.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

A queda de cabelo é um dos efeitos mais conhecidos de alguns tratamentos contra o câncer. Para muitos pacientes, porém, ela representa muito mais do que uma mudança na aparência: pode tornar visível uma doença que eles ainda não estavam preparados para compartilhar. Agora, duas soluções diferentes oferecem novas possibilidades — uma tenta preservar os fios, enquanto a outra procura tornar sua perda menos traumática.

Um capacete gelado para proteger os fios

O princípio parece simples, mas envolve uma tecnologia bastante sofisticada. Sistemas conhecidos como scalp cooling resfriam o couro cabeludo durante determinadas sessões de quimioterapia, mantendo a região em temperaturas que podem ficar entre 2 °C e 5 °C.

O frio provoca uma contração temporária dos pequenos vasos sanguíneos do couro cabeludo. Com isso, menos sangue chega aos folículos e, consequentemente, uma quantidade menor do medicamento pode alcançá-los. O resfriamento também reduz a atividade das células dos folículos, tornando-as potencialmente menos vulneráveis aos efeitos da quimioterapia.

Equipamentos como DigniCap, Paxman e Amma utilizam uma máquina conectada por tubos a uma touca especial colocada na cabeça do paciente. O sistema começa a funcionar antes da quimioterapia e continua por algum tempo depois da aplicação.

Isso significa que cada sessão pode ficar consideravelmente mais longa. Ainda assim, para alguns pacientes, o tempo adicional pode valer a pena.

Os resultados, entretanto, variam conforme o tipo de câncer e os medicamentos utilizados. Em um estudo realizado em Monterrey com 76 pacientes que utilizaram DigniCap entre 2016 e 2020, aproximadamente 74% preservaram cabelo suficiente para não precisar de uma peruca. Em determinados protocolos de quimioterapia, a taxa pode chegar perto de 90%.

Isso não significa que a queda desapareça completamente. Pode ocorrer perda parcial dos fios e algumas regiões do couro cabeludo podem responder melhor que outras.

A história começou antes do que muita gente imagina

O DigniCap começou a ser utilizado no México por volta de 2010, vários anos antes de receber autorização da FDA nos Estados Unidos.

A tecnologia havia sido desenvolvida na Suécia e chegou ao mercado mexicano depois que Susana Valdez, fundadora da Celeritas Trading and Consulting, conheceu o sistema e iniciou o processo para introduzi-lo no país e obter o registro sanitário.

Nos Estados Unidos, a autorização da FDA veio em dezembro de 2015, inicialmente para mulheres com câncer de mama.

Desde então, os equipamentos evoluíram. As versões mais recentes utilizam sistemas de resfriamento mais flexíveis, melhoram o contato com a cabeça e podem trabalhar com temperaturas ainda mais baixas.

Mas existe uma limitação importante: o método não é indicado para todos os pacientes. Em alguns cânceres hematológicos, como determinadas leucemias, o resfriamento do couro cabeludo não faz parte das opções recomendadas.

Quando uma solução médica passa a ser um luxo

É aqui que a tecnologia encontra seu maior obstáculo.

Um equipamento DigniCap pode custar aproximadamente R$ 276 mil (906 mil pesos mexicanos), sem impostos. Para os pacientes, porém, o custo costuma aparecer na forma de sessões. Em alguns centros, cada aplicação chega a cerca de R$ 1.370 (4.500 pesos mexicanos).

Como o equipamento precisa ser utilizado em cada sessão de quimioterapia, o gasto acumulado pode se tornar elevado ao longo do tratamento. Além disso, muitas seguradoras ainda não cobrem o procedimento, tratando-o como uma questão estética.

Quando preservar os fios não é possível, as perucas especializadas se tornam outra alternativa. Os modelos voltados a pacientes oncológicos podem utilizar bases ultraleves, tule, monofilamentos, áreas de silicone e sistemas especiais de ajuste para reduzir irritações e melhorar a estabilidade sobre um couro cabeludo sensível.

Os preços também variam bastante. No México, essas perucas podem custar cerca de R$ 550 (1.800 pesos mexicanos) e chegar a aproximadamente R$ 14 mil (46 mil pesos), dependendo dos materiais, do tipo de cabelo e do nível de personalização.

A tecnologia, portanto, já encontrou maneiras de reduzir a queda dos fios ou tornar sua ausência menos difícil. O desafio agora é outro: fazer com que essas soluções estejam disponíveis não apenas para quem pode pagar por elas.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados