Pular para o conteúdo
Ciência

O plano do Vaticano para transformar o sol em uma fonte de energia em escala inédita

Uma área pouco conhecida fora de Roma está prestes a ganhar um projeto gigantesco que pode mudar a forma como a Santa Sé produz e utiliza sua própria eletricidade.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

O Vaticano é conhecido por sua história, seus museus e pela enorme influência religiosa, mas agora a Santa Sé está construindo uma estratégia em uma direção bem diferente. A poucos quilômetros de Roma, um terreno ligado há décadas às comunicações do Vaticano poderá receber uma estrutura capaz de produzir uma quantidade impressionante de eletricidade. E o detalhe mais curioso é que os painéis não serão os únicos protagonistas dessa transformação.

Um projeto que começa longe das muralhas do Vaticano

A ideia está sendo desenvolvida em Santa Maria di Galeria, uma área localizada a aproximadamente 30 quilômetros do centro de Roma. O local é utilizado há décadas pela Rádio Vaticano e possui um regime extraterritorial ligado à Santa Sé.

É justamente ali que deverá surgir uma gigantesca instalação de geração de energia renovável. O projeto prevê uma área de aproximadamente 200 hectares dedicada à produção de eletricidade, com uma potência estimada entre 80 e 90 megawatts.

A dimensão chama atenção porque o objetivo não é simplesmente construir uma usina solar convencional. A proposta pretende fazer com que a mesma área continue desempenhando funções agrícolas enquanto também produz eletricidade.

Esse modelo é conhecido como agrivoltaico. Em vez de escolher entre agricultura e painéis solares, a ideia é combinar as duas atividades no mesmo espaço.

Os painéis serão instalados de maneira elevada e poderão acompanhar parcialmente a trajetória do Sol. Assim, o terreno permanecerá utilizável para determinadas plantações e outras atividades agrícolas.

A expectativa é que a estrutura esteja operacional em aproximadamente 18 a 24 meses. O investimento estimado gira em torno de 100 milhões de euros.

Mas existe outro detalhe que torna o projeto ainda mais interessante: a sombra criada pelos painéis pode não ser necessariamente um problema para o cultivo. Em determinadas condições, ela pode diminuir a exposição direta ao sol e reduzir a evaporação da água, além de ajudar a proteger algumas plantações de temperaturas extremas.

O sol poderá alimentar muito mais do que uma estação de rádio

A eletricidade produzida em Santa Maria di Galeria deverá atender inicialmente às instalações da Rádio Vaticano, mas os planos são consideravelmente maiores.

Se a produção alcançar os níveis previstos, a energia poderá contribuir para abastecer praticamente todo o consumo elétrico da Cidade do Vaticano. Isso representa uma mudança importante para um Estado que possui território extremamente reduzido, mas mantém uma infraestrutura energética própria e uma série de atividades que exigem eletricidade constantemente.

O projeto também prevê a possibilidade de fornecer energia para propriedades vinculadas à Santa Sé, incluindo o hospital pediátrico Bambino Gesù. Caso exista produção excedente, ela poderá ser direcionada à rede elétrica italiana.

O acordo firmado com a empresa italiana ACEA estabelece ainda que o desenvolvimento deverá considerar aspectos que vão além da geração elétrica. Gestão da água, conservação do solo, proteção dos ecossistemas e continuidade das atividades agrícolas fazem parte da proposta.

Se tudo funcionar conforme planejado, a instalação poderá se tornar uma das maiores iniciativas agrivoltaicas da Itália.

E há uma razão histórica para o Vaticano estar seguindo esse caminho.

Uma ideia iniciada por Francisco que ganhou uma nova etapa

O projeto atual começou a tomar forma em junho de 2024, durante o pontificado do papa Francisco. Naquele momento, Francisco publicou o Motu Proprio Fratello Sole, documento que determinava o desenvolvimento de uma instalação agrivoltaica em Santa Maria di Galeria dentro dos esforços da Santa Sé para reduzir suas emissões.

Em 31 de julho de 2025, Itália e Vaticano estabeleceram um acordo para definir as condições jurídicas relacionadas ao empreendimento e à conexão com a rede elétrica. O acordo foi ratificado pela Itália em abril de 2026 e entrou oficialmente em vigor em 27 de maio.

Pouco depois, o projeto avançou para uma nova etapa. Em 1º de junho, o papa Leão XIV criou a Fundação Fratello Sole, responsável por conduzir a iniciativa.

Dias depois, o Vaticano, a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica, a fundação e a ACEA assinaram um protocolo para avançar no planejamento e na construção da instalação.

A aposta, portanto, não surgiu do nada. Ela representa a ampliação de uma estratégia que a Santa Sé já vinha desenvolvendo há quase duas décadas.

Em 2008, durante o pontificado de Bento XVI, cerca de 2.400 painéis solares foram instalados no teto do Aula Paulo VI, utilizado para audiências papais.

Agora, porém, a escala é completamente diferente. Em vez de utilizar o Sol para ajudar a abastecer um único edifício, o Vaticano pretende aproveitar uma extensa área fora de suas fronteiras físicas para produzir energia suficiente para suas próprias necessidades.

Se os números projetados forem alcançados, o resultado será uma situação bastante peculiar: o menor Estado do mundo poderá usar uma grande área extraterritorial nos arredores de Roma para transformar luz solar em eletricidade destinada a alimentar boa parte de sua própria estrutura.

Mais do que uma simples fazenda solar, o projeto representa uma tentativa de transformar uma área historicamente ligada às comunicações do Vaticano em uma peça central de sua estratégia energética para os próximos anos.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados