O Vaticano é conhecido por sua história, seus museus e pela enorme influência religiosa, mas agora a Santa Sé está construindo uma estratégia em uma direção bem diferente. A poucos quilômetros de Roma, um terreno ligado há décadas às comunicações do Vaticano poderá receber uma estrutura capaz de produzir uma quantidade impressionante de eletricidade. E o detalhe mais curioso é que os painéis não serão os únicos protagonistas dessa transformação.
Um projeto que começa longe das muralhas do Vaticano
A ideia está sendo desenvolvida em Santa Maria di Galeria, uma área localizada a aproximadamente 30 quilômetros do centro de Roma. O local é utilizado há décadas pela Rádio Vaticano e possui um regime extraterritorial ligado à Santa Sé.
É justamente ali que deverá surgir uma gigantesca instalação de geração de energia renovável. O projeto prevê uma área de aproximadamente 200 hectares dedicada à produção de eletricidade, com uma potência estimada entre 80 e 90 megawatts.
A dimensão chama atenção porque o objetivo não é simplesmente construir uma usina solar convencional. A proposta pretende fazer com que a mesma área continue desempenhando funções agrícolas enquanto também produz eletricidade.
Esse modelo é conhecido como agrivoltaico. Em vez de escolher entre agricultura e painéis solares, a ideia é combinar as duas atividades no mesmo espaço.
Os painéis serão instalados de maneira elevada e poderão acompanhar parcialmente a trajetória do Sol. Assim, o terreno permanecerá utilizável para determinadas plantações e outras atividades agrícolas.
A expectativa é que a estrutura esteja operacional em aproximadamente 18 a 24 meses. O investimento estimado gira em torno de 100 milhões de euros.
Mas existe outro detalhe que torna o projeto ainda mais interessante: a sombra criada pelos painéis pode não ser necessariamente um problema para o cultivo. Em determinadas condições, ela pode diminuir a exposição direta ao sol e reduzir a evaporação da água, além de ajudar a proteger algumas plantações de temperaturas extremas.
O sol poderá alimentar muito mais do que uma estação de rádio
A eletricidade produzida em Santa Maria di Galeria deverá atender inicialmente às instalações da Rádio Vaticano, mas os planos são consideravelmente maiores.
Se a produção alcançar os níveis previstos, a energia poderá contribuir para abastecer praticamente todo o consumo elétrico da Cidade do Vaticano. Isso representa uma mudança importante para um Estado que possui território extremamente reduzido, mas mantém uma infraestrutura energética própria e uma série de atividades que exigem eletricidade constantemente.
O projeto também prevê a possibilidade de fornecer energia para propriedades vinculadas à Santa Sé, incluindo o hospital pediátrico Bambino Gesù. Caso exista produção excedente, ela poderá ser direcionada à rede elétrica italiana.
O acordo firmado com a empresa italiana ACEA estabelece ainda que o desenvolvimento deverá considerar aspectos que vão além da geração elétrica. Gestão da água, conservação do solo, proteção dos ecossistemas e continuidade das atividades agrícolas fazem parte da proposta.
Se tudo funcionar conforme planejado, a instalação poderá se tornar uma das maiores iniciativas agrivoltaicas da Itália.
E há uma razão histórica para o Vaticano estar seguindo esse caminho.
Uma ideia iniciada por Francisco que ganhou uma nova etapa
O projeto atual começou a tomar forma em junho de 2024, durante o pontificado do papa Francisco. Naquele momento, Francisco publicou o Motu Proprio Fratello Sole, documento que determinava o desenvolvimento de uma instalação agrivoltaica em Santa Maria di Galeria dentro dos esforços da Santa Sé para reduzir suas emissões.
Em 31 de julho de 2025, Itália e Vaticano estabeleceram um acordo para definir as condições jurídicas relacionadas ao empreendimento e à conexão com a rede elétrica. O acordo foi ratificado pela Itália em abril de 2026 e entrou oficialmente em vigor em 27 de maio.
Pouco depois, o projeto avançou para uma nova etapa. Em 1º de junho, o papa Leão XIV criou a Fundação Fratello Sole, responsável por conduzir a iniciativa.
Dias depois, o Vaticano, a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica, a fundação e a ACEA assinaram um protocolo para avançar no planejamento e na construção da instalação.
A aposta, portanto, não surgiu do nada. Ela representa a ampliação de uma estratégia que a Santa Sé já vinha desenvolvendo há quase duas décadas.
Em 2008, durante o pontificado de Bento XVI, cerca de 2.400 painéis solares foram instalados no teto do Aula Paulo VI, utilizado para audiências papais.
Agora, porém, a escala é completamente diferente. Em vez de utilizar o Sol para ajudar a abastecer um único edifício, o Vaticano pretende aproveitar uma extensa área fora de suas fronteiras físicas para produzir energia suficiente para suas próprias necessidades.
Se os números projetados forem alcançados, o resultado será uma situação bastante peculiar: o menor Estado do mundo poderá usar uma grande área extraterritorial nos arredores de Roma para transformar luz solar em eletricidade destinada a alimentar boa parte de sua própria estrutura.
Mais do que uma simples fazenda solar, o projeto representa uma tentativa de transformar uma área historicamente ligada às comunicações do Vaticano em uma peça central de sua estratégia energética para os próximos anos.