Durante anos, os smartwatches ganharam telas maiores, mais aplicativos e funções cada vez mais próximas das encontradas nos smartphones. Agora, algumas empresas estão apostando justamente no contrário.
A ideia é criar um wearable que você possa praticamente esquecer que está usando.
Esses dispositivos permanecem no pulso durante o dia e a noite, registrando informações de saúde e atividade física. Os dados ficam disponíveis posteriormente no aplicativo do celular, quando o usuário decidir consultá-los.
Entre os exemplos dessa nova categoria estão Garmin Cirqa, Google Fitbit Air, Polar Loop, Amazfit Helio e os dispositivos da Whoop. Segundo a Bloomberg, a Apple também estaria trabalhando em uma solução semelhante.
Wearables estão voltando às origens

De certa forma, essa tendência lembra os primeiros monitores de atividade física.
Modelos antigos da Fitbit, por exemplo, registravam principalmente passos e movimentos. Alguns nem sequer eram usados no pulso. O Fitbit Ultra, lançado em 2011, podia ser preso à roupa.
A diferença para os dispositivos atuais é enorme.
Smartwatches modernos exibem mensagens do WhatsApp, e-mails, chamadas, alertas de movimento e dezenas de outras notificações. Alguns também apresentam relatórios sobre sono e recuperação logo depois que o usuário acorda.
O resultado é que um aparelho criado para monitorar a saúde também pode se transformar em mais uma fonte de distração.
Os wearables sem tela tentam romper justamente com essa lógica.
Menos tela, praticamente os mesmos sensores
A estratégia pode ser definida como uma espécie de “subtração de design”.
Um wearable sem tela continua equipado com vários componentes encontrados em relógios inteligentes: sensor de frequência cardíaca, acelerômetro, Bluetooth, bateria e outros sensores dependendo do modelo.
O elemento retirado é justamente aquele que mais exige atenção: a tela.
A Whoop trabalha com esse conceito desde 2015. Atualmente, seus dispositivos monitoram exercícios, recuperação e sono sem exigir que o usuário consulte constantemente o pulso.
Agora, outras grandes fabricantes começam a explorar a mesma ideia.
A inteligência artificial também explica essa mudança
Curiosamente, a inteligência artificial desempenha um papel importante nessa nova geração de dispositivos.
Sem uma tela, boa parte da experiência passa para o smartphone. É ali que algoritmos podem transformar números e gráficos em explicações mais fáceis de entender.
Em vez de simplesmente mostrar frequência cardíaca, qualidade do sono ou VO₂ máximo, sistemas de IA podem explicar o significado dessas informações e identificar tendências.
Segundo Peter Richardson, vice-presidente e cofundador da Counterpoint Research, o uso da IA para acompanhar e orientar aspectos relacionados à saúde e ao bem-estar ainda está em estágio inicial.
A expectativa é que essa tecnologia avance conforme os próprios sistemas de inteligência artificial evoluírem.
Existe também um interesse comercial. Algumas fabricantes oferecem análises mais avançadas por meio de assinaturas, criando uma nova fonte de receita mesmo em dispositivos fisicamente mais simples.
O problema do estresse tecnológico

Existe outra explicação para o crescimento desses wearables: muitas pessoas estão simplesmente cansadas de tantas notificações.
Elizabeth Marsh, pesquisadora da Universidade de Nottingham, estuda os efeitos negativos da tecnologia digital no ambiente profissional.
Segundo suas pesquisas, ferramentas digitais podem contribuir para fenômenos como tecnoestresse, excesso de informações, interrupções constantes e dificuldade para separar trabalho e vida pessoal.
As notificações são parte importante desse problema.
Mensagens chegam ao computador, aparecem no celular e, segundos depois, também vibram no relógio.
Desativá-las parece uma solução simples, mas existe um paradoxo. Algumas pessoas passam a sentir ansiedade justamente porque temem perder uma informação importante.
Um wearable sem tela oferece uma terceira possibilidade.
Monitorar a saúde sem olhar o pulso o tempo todo
A proposta não é abandonar os dados.
O usuário continua registrando passos, sono, frequência cardíaca e exercícios. A diferença é que essas informações deixam de aparecer constantemente durante o dia.
Em alguns aparelhos, até atividades físicas podem ser detectadas automaticamente. Depois, o usuário consulta mapas, estatísticas e outros dados diretamente no smartphone.
Isso também pode ajudar a reduzir a necessidade de interação constante com o dispositivo e, dependendo do modelo, diminuir a frequência de recargas.
Uma tentativa de recuperar o controle da tecnologia
Marsh defende uma abordagem chamada de “mindfulness digital”, ou atenção plena digital.
O conceito envolve três elementos: intenção, atenção e atitude.
Primeiro, entender por que você está usando determinado dispositivo em vez de simplesmente pegá-lo por reflexo. Depois, manter o foco na atividade escolhida e evitar distrações. Por último, desenvolver uma relação menos punitiva com os próprios hábitos digitais.
Comprar uma pulseira sem tela não resolve automaticamente o problema da dependência tecnológica.
Mas existe uma diferença importante entre um dispositivo que registra silenciosamente informações no pulso e outro que vibra dezenas de vezes durante o dia.
Talvez seja justamente esse o próximo passo dos wearables: continuar sabendo cada vez mais sobre nosso corpo enquanto exigem cada vez menos da nossa atenção.
[ Fonte: Wired ]