Durante anos, os centros de dados foram apresentados como uma das grandes fontes de novos empregos criados pela expansão da inteligência artificial. Afinal, quanto mais servidores e infraestrutura são necessários, maior parece ser a demanda por pessoas capazes de instalar, reparar e manter tudo funcionando. Mas essa lógica pode estar começando a mudar. Dentro das instalações da Meta, máquinas já estão aprendendo a executar algumas dessas tarefas.
De apertar botões a trocar cabos
A Meta não está simplesmente colocando robôs humanoides para andar pelos corredores dos seus centros de dados. A estratégia é bem mais específica — e talvez justamente por isso seja mais interessante.
A empresa vem testando diferentes máquinas capazes de executar tarefas que atualmente dependem de técnicos humanos. Entre elas estão reiniciar servidores, trocar cabos de rede, inspecionar equipamentos e reposicionar componentes.
Um dos equipamentos avaliados é o Kinova Gen3, um braço robótico utilizado para realizar o chamado power cycling: interromper temporariamente a alimentação elétrica de um servidor e ligá-lo novamente.
Também existem robôs da Watney Robotics equipados com dois braços para experimentar operações envolvendo cabeamento. No campus Prometheus, em New Albany, Ohio, a Meta testa ainda veículos de quatro rodas desenvolvidos pela ABB. Eles possuem uma plataforma elevatória e um braço robótico de seis eixos capaz de manipular componentes.
Há até uma solução que parece saída de uma experiência muito mais simples: um mecanismo semelhante a um dedo que consegue pressionar fisicamente o botão de ligar de determinados equipamentos quando recebe uma ordem remotamente.
O objetivo é claro: transformar em automáticas tarefas repetitivas que hoje exigem a presença constante de uma pessoa.
O número que está deixando alguns técnicos preocupados
É justamente aqui que surge a maior preocupação entre os funcionários.
Segundo uma investigação da WIRED, um trabalhador estima que um dos robôs usados em tarefas de cabeamento poderia assumir até 80% de determinadas atividades caso consiga atingir o nível de funcionamento esperado.
Esse número não representa uma previsão oficial da Meta. É a avaliação de um funcionário, mas revela o tamanho da inquietação existente entre parte dos profissionais.
Em Altoona, Iowa, onde fica o maior complexo de data centers da Meta, trabalhadores relatam discussões sobre o que acontecerá com essas funções à medida que robôs e ferramentas de inteligência artificial se tornarem mais capazes.
O receio não está apenas na possibilidade de alguns empregos desaparecerem. Existe também a preocupação de que sistemas automatizados permitam que funcionários com menos experiência realizem tarefas que anteriormente exigiam conhecimento técnico mais avançado.
Nesse cenário, a tecnologia não precisaria necessariamente eliminar todos os trabalhadores. Bastaria reduzir a quantidade de especialistas necessários para manter uma instalação funcionando.
Os robôs ainda estão longe de substituir todo mundo
Apesar do avanço, transformar esses experimentos em uma operação totalmente automatizada ainda parece ser um desafio considerável.
Os robôs enfrentam problemas bastante básicos. Um dos sistemas utilizados para inspecionar equipamentos, por exemplo, trabalha com uma câmera que identifica imagens em escala de cinza e tem dificuldades para diferenciar as luzes verdes e vermelhas usadas para indicar o estado de determinadas máquinas.
Outras máquinas encontram dificuldades para atravessar conjuntos de cabos, fazer curvas ou se deslocar entre diferentes edifícios sem intervenção humana.
Os robôs da Watney usados nos testes de cabeamento também continuam sob supervisão e ainda não conseguem trabalhar na mesma velocidade de um técnico.
Isso significa que, pelo menos por enquanto, os funcionários continuam sendo indispensáveis.
E a própria Meta apresenta uma visão que parece contraditória com o temor dos trabalhadores.
A companhia afirma que a expansão da infraestrutura necessária para inteligência artificial está criando uma demanda enorme por profissionais especializados. Em 2026, a empresa lançou a America’s Workforce Academy, programa gratuito voltado à formação de trabalhadores em áreas como eletricidade, mecânica e instalação.
A primeira turma já se formou, e o programa busca conectar os participantes a oportunidades de trabalho.
A aparente contradição revela uma questão maior: a inteligência artificial pode criar uma enorme quantidade de infraestrutura e, ao mesmo tempo, começar a automatizar justamente os trabalhos necessários para mantê-la funcionando.
Os experimentos da Meta mostram que a transformação não está acontecendo apenas diante das telas. Ela também pode chegar aos corredores dos data centers — justamente onde muitos acreditavam que os empregos físicos estariam mais protegidos.