A retatrutida, medicamento experimental da Eli Lilly que tem chamado atenção pelos resultados na perda de peso, também pode ajudar no tratamento da apneia obstrutiva do sono. Dois estudos recentes identificaram uma redução dos episódios respiratórios entre participantes que receberam a substância, em comparação com um placebo. Os resultados ampliam o interesse por uma possível aplicação do medicamento, embora ele ainda dependa de avaliação regulatória e não substitua automaticamente os tratamentos existentes.
Uma ação que envolve três hormônios
A retatrutida pertence a uma nova geração de medicamentos desenvolvidos para tratar obesidade e diabetes. Sua ação imita três hormônios: GLP-1, GIP e glucagon, envolvidos na regulação do apetite e do metabolismo.
Estudos anteriores apontaram um potencial expressivo de redução de peso. Como a obesidade aumenta o risco de apneia obstrutiva do sono, os pesquisadores investigaram se o tratamento também poderia melhorar a respiração durante a noite.
A possibilidade de aprovação, porém, não deve ser tratada como uma certeza. Agências reguladoras precisam avaliar os dados de eficácia e segurança antes de autorizar a comercialização e definir suas indicações.
Dois estudos acompanharam cerca de 700 participantes
As pesquisas fizeram parte de ensaios clínicos de fase 3 mais amplos sobre a retatrutida. Um estudo incluiu pessoas com obesidade, diabetes tipo 2 e apneia obstrutiva do sono. O outro reuniu participantes com obesidade e apneia, mas sem diabetes.
Ao todo, aproximadamente 700 pessoas participaram das duas investigações. Os pesquisadores compararam diferentes doses do medicamento com um placebo.
Nos dois estudos, quem recebeu retatrutida apresentou, em média, menos episódios de apneia, quando a respiração é interrompida, e de hipopneia, quando o fluxo respiratório diminui.
Os resultados foram publicados no New England Journal of Medicine e reforçam a possibilidade de que tratamentos eficazes contra a obesidade também ajudem a controlar distúrbios respiratórios relacionados ao excesso de peso.
O que acontece durante a apneia obstrutiva
Na apneia obstrutiva do sono, o relaxamento dos músculos da garganta favorece o estreitamento ou bloqueio das vias aéreas. Isso prejudica a passagem do ar enquanto a pessoa dorme.
Os episódios podem se repetir diversas vezes por hora, interrompendo o descanso. Segundo a Mayo Clinic, que descreve os sintomas e fatores de risco da condição, o ronco é um sinal frequente, mas sua presença, isoladamente, não confirma o diagnóstico.
O excesso de peso é um fator importante, embora não seja a única causa. Por isso, reduzir a gordura corporal pode melhorar o quadro em algumas pessoas sem necessariamente resolver todos os casos.
Parte dos pacientes teve remissão ou melhora importante
Em um dos estudos, mais da metade dos participantes tratados com retatrutida apresentou remissão da apneia ou passou a ter uma forma leve da condição.
Os pesquisadores observaram que muitos participantes deixaram de preencher os critérios que justificavam o uso de aparelhos de pressão positiva nas vias aéreas. Esses dispositivos, como o CPAP, ajudam a manter a passagem de ar aberta durante o sono.
Esse resultado não significa que alguém deva abandonar o aparelho após emagrecer. A necessidade de continuar o tratamento depende de uma reavaliação clínica e dos exames utilizados para acompanhar a apneia.
Entre os participantes com diabetes tipo 2, os benefícios respiratórios foram menores, mas ainda significativos. A diferença mostra que a resposta pode variar conforme as características de cada grupo.
O tratamento da obesidade ganha novas possibilidades
A relação entre medicamentos para emagrecimento e apneia já tem um precedente. No fim de 2024, a tirzepatida, também da Eli Lilly, recebeu autorização da FDA para tratar apneia obstrutiva moderada a grave em adultos com obesidade.
A retatrutida poderá ampliar essas opções caso seus benefícios e riscos sustentem uma aprovação futura. Ainda assim, os estudos apresentados não demonstram o mesmo efeito em pessoas com apneia que não têm obesidade.
O avanço mais relevante é a possibilidade de tratar, de forma integrada, condições que frequentemente aparecem juntas. Para alguns pacientes, perder peso pode representar também menos interrupções da respiração e uma melhora importante na qualidade do sono.