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Ciência

DNA de múmias incas confirma origem da varíola e reforça que o vírus chegou às Américas com os europeus

Análises genéticas de duas múmias encontradas no deserto do Atacama revelaram o genoma mais antigo da varíola já identificado nas Américas. O estudo confirma que o vírus não era nativo do continente e foi introduzido durante a colonização europeia.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, historiadores e cientistas debateram qual foi o principal fator responsável pelo colapso populacional que atingiu as populações indígenas das Américas após a chegada dos europeus. Embora guerras e conquistas tenham desempenhado um papel importante, as epidemias sempre foram apontadas como a principal causa da devastação.

Agora, um estudo publicado na revista Science oferece uma das evidências mais robustas já obtidas sobre essa história. A análise do DNA de duas múmias incas encontradas no norte do Chile identificou o genoma mais antigo da varíola já registrado no continente americano, confirmando que o vírus teve origem no Velho Mundo e chegou às Américas durante a colonização.

Múmias preservadas por 500 anos guardavam uma pista decisiva

Mumias
© Emma Paolin

A descoberta começou na enseada de Camarones, no norte do Chile, em um sítio arqueológico conhecido como Camarones 9.

Escavado entre as décadas de 1960 e 1980, o local revelou diversos corpos mumificados em posição fetal, cuidadosamente envolvidos por tecidos.

As condições extremas do deserto do Atacama — marcado por clima extremamente seco, ausência de chuvas e alta salinidade — preservaram de forma excepcional materiais orgânicos por cerca de cinco séculos.

Foi justamente essa preservação que permitiu aos pesquisadores recuperar material genético suficiente para realizar análises detalhadas.

A varíola apareceu por acaso

Curiosamente, os cientistas não estavam procurando sinais da varíola.

O objetivo inicial da pesquisa era investigar a presença de bactérias antigas, como as responsáveis pela tuberculose, cuja circulação nas Américas antes da colonização já havia sido documentada em outros estudos.

No entanto, durante a análise dos restos mortais de uma mulher de aproximadamente 30 anos e de um jovem com cerca de 20 anos, os pesquisadores identificaram DNA do Variola virus, agente causador da varíola.

Combinando datação por carbono-14 e análises do chamado relógio molecular do vírus, a equipe concluiu que as amostras pertencem ao período entre 1492 e 1631.

O DNA revelou a origem do vírus

Cientistas extraem DNA de adolescentes que viveram há quase 10 mil anos
© Unsplash

Um dos principais debates da história da medicina era se alguma variante da varíola poderia já existir nas Américas antes do contato com os europeus.

Segundo o novo estudo, essa hipótese praticamente deixa de ser sustentável.

Os pesquisadores sequenciaram completamente o genoma do vírus encontrado nas múmias e identificaram um novo ramo evolutivo, denominado linhagem CAM9.

Ao comparar esse DNA com amostras históricas de diferentes épocas, os cientistas reconstruíram a árvore evolutiva da varíola.

Os resultados mostram que a linhagem CAM9 ocupa uma posição intermediária entre cepas que circulavam na Europa durante a Era Viking, por volta do ano 1000, e variantes responsáveis por surtos registrados no século XVII, como os observados na atual Lituânia.

Evidência reforça relatos históricos

Se a varíola tivesse evoluído de forma independente nas Américas, seu DNA apresentaria uma separação genética muito mais antiga em relação às variantes da Eurásia.

Em vez disso, a posição da linhagem CAM9 confirma que ela pertence ao mesmo ramo evolutivo das cepas europeias.

Essa evidência genética reforça os registros históricos que apontam que a doença chegou ao continente com os colonizadores europeus.

Os documentos da época registram um dos primeiros grandes surtos na ilha de Hispaniola, em 1518, de onde a doença se espalhou rapidamente pelo continente, contribuindo para a devastação de diversos povos indígenas.

O vírus já estava totalmente adaptado aos seres humanos

O estudo também revelou detalhes importantes sobre a evolução da varíola.

À medida que vírus originalmente transmitidos por animais passam a infectar exclusivamente seres humanos, eles costumam perder genes que deixam de ser necessários para sua sobrevivência.

As antigas cepas europeias da Era Viking já haviam eliminado parte de seu material genético.

A linhagem encontrada em Camarones apresentava 49 genes inativados — exatamente o mesmo número observado nas variantes modernas da varíola que circularam até o século XX antes da erradicação mundial da doença graças às campanhas de vacinação.

Segundo os pesquisadores, isso indica que, quando chegou às Américas, o vírus já havia alcançado um elevado grau de adaptação ao organismo humano.

Em outras palavras, a varíola não precisou evoluir para infectar as populações indígenas. Ela já possuía todas as características necessárias para se espalhar rapidamente, tornando-se uma das doenças mais devastadoras da história do continente.

 

[ Fonte: Xataka ]

 

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