Doar um rim pode salvar uma vida, mas para alguns homens o gesto traz uma complicação física inusitada. Um estudo realizado no Canadá analisou quase duas décadas de dados e descobriu que cerca de um em cada oito doadores vivos do sexo masculino precisou de cirurgia para tratar o inchaço escrotal. Embora o problema não represente risco à vida, os médicos defendem maior conscientização e acompanhamento para prevenir desconfortos futuros.
O preço pouco falado da generosidade
Os pesquisadores revisaram os registros médicos de homens que doaram um rim entre 2002 e 2023 na província de Ontário. A descoberta surpreendeu: cerca de 14% dos doadores precisaram de cirurgia escrotal em até 20 anos após a operação, contra apenas 0,2% entre homens que nunca doaram.
A maioria dos procedimentos visava tratar o hidrocele, uma condição em que o líquido se acumula ao redor do testículo, geralmente do mesmo lado onde o rim foi removido. Embora o problema seja benigno, pode causar dor, inchaço visível e desconforto — e frequentemente requer intervenção cirúrgica para drenagem.
Por que isso acontece?
A doação de rim é feita, na maioria dos casos, por meio de nefrectomia laparoscópica, uma técnica minimamente invasiva com pequenas incisões no abdômen. Apesar de segura, essa abordagem pode afetar vasos linfáticos e causar acúmulo de líquido no escroto.
Nos adultos, o hidrocele raramente desaparece sozinho. “Os doadores precisam saber que essa complicação existe e entender quais sintomas observar após a cirurgia”, alertam os autores do estudo publicado na Annals of Internal Medicine.
O impacto a longo prazo
Os dados canadenses mostraram que quase um terço dos homens doadores precisou de ultrassonografia escrotal para acompanhamento. Em média, o inchaço se manifesta meses ou anos após a cirurgia, e a frequência dos casos aumenta com o tempo.
Apesar disso, os pesquisadores ressaltam que o risco é baixo diante dos benefícios da doação. O procedimento continua sendo considerado seguro e não afeta a expectativa de vida dos doadores.
Doar continua valendo a pena
Quase metade dos doadores vivos de rim são homens, e os especialistas enfatizam que o estudo não deve desencorajar novas doações.
“O importante é informar e proteger o doador”, explicam. Isso inclui oferecer cobertura médica total caso o problema apareça e investigar formas de reduzir o risco cirúrgico, talvez ajustando as técnicas utilizadas.
O escroto inchado pode ser uma consequência incômoda, mas não diminui o valor de um gesto que salva vidas. E como lembram os autores, a informação é a melhor forma de cuidado — tanto para quem recebe um órgão quanto para quem tem coragem de oferecê-lo.
Fonte: Gizmodo ES