Durante décadas, o dólar americano foi a moeda mais influente do planeta. Mas mudanças recentes no cenário econômico e político global estão colocando essa hegemonia em xeque. O euro, criado para unificar economicamente a Europa, começa a ser visto com outros olhos por bancos centrais e investidores. E isso pode alterar profundamente o equilíbrio financeiro do mundo.
O que faz uma moeda se tornar referência global?
Uma moeda de reserva mundial é aquela mantida em grande escala pelos bancos centrais por sua estabilidade, liquidez e aceitação internacional. Desde os Acordos de Bretton Woods, em 1944, esse papel pertence ao dólar. De acordo com o FMI, até o final de 2024, ele ainda representava 54% das reservas globais. O euro, por sua vez, detinha apenas 19%. Mas esse cenário pode estar mudando.
Ao contrário do que muitos pensam, o valor de uma moeda depende mais da confiança que ela inspira do que de lastros físicos como ouro. E nos últimos anos, decisões políticas nos Estados Unidos — como medidas protecionistas e riscos de calote da dívida — começaram a minar essa confiança.
O privilégio (e o peso) de ser a moeda dominante
Ser a principal moeda global traz benefícios como empréstimos mais baratos e maior atração para investimentos. Mas também gera distorções: as exportações ficam mais caras e o país emissor assume uma responsabilidade global que pode se tornar um fardo.
O economista francês Valéry Giscard d’Estaing chamou isso de “privilégio exorbitante” dos EUA. Agora, esse privilégio está sendo questionado. Crises internas, instabilidade política e uma dívida pública crescente acenderam o alerta sobre a capacidade do dólar de continuar nesse papel por muito mais tempo.

O euro pode assumir o posto?
Já houve trocas de moeda dominante antes — a libra esterlina, por exemplo, reinou até meados do século XX. O euro tem potencial, mas também enfrenta desafios: falta de uma união fiscal entre os países-membros, conflitos políticos internos e menor volume de circulação internacional.
Mesmo assim, sua estabilidade institucional, o crescimento econômico da União Europeia e uma política externa menos volátil têm reforçado sua posição. A discussão sobre sua ascensão deixou de ser teórica e já influencia decisões de bancos centrais pelo mundo.
Um novo capítulo no sistema monetário global?
A mudança pode não acontecer da noite para o dia. Mas a combinação entre a perda de credibilidade do dólar e o fortalecimento do euro indica que o sistema monetário global pode estar prestes a entrar em uma nova fase. E o Brasil — como parceiro comercial de ambos os blocos — deve observar atentamente esse possível reposicionamento de forças.