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Dólar perde espaço: países buscam refúgio no yuan e no franco suíço

A hegemonia do dólar como moeda global de financiamento começa a ser contestada. Com os juros altos nos Estados Unidos, governos de países emergentes e endividados estão correndo para alternativas mais baratas, como o yuan da China e o franco suíço. A mudança não significa o fim do dólar, mas mostra como o cenário financeiro global está se ajustando às novas realidades.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A política do Federal Reserve (Fed) mantém a taxa básica entre 4,25% e 4,50%, tornando o crédito em dólar mais caro. Isso afeta diretamente países que dependem de endividamento externo. Armando Armenta, economista da AllianceBernstein, resume: mesmo com risco relativamente baixo, a curva de rendimentos dos Treasuries encarece o dólar. Para emergentes, buscar outras moedas virou quase uma questão de sobrevivência.

Yuan cresce com apoio da China

Dólar perde espaço: países buscam refúgio no yuan e no franco suíço
© Pexels

O yuan ganha força especialmente entre países que já participam da Iniciativa do Cinturão e Rota, programa chinês de infraestrutura avaliado em US$ 1,3 trilhão. O Quênia, por exemplo, negocia converter para yuan parte da dívida de um projeto ferroviário de US$ 5 bilhões. No Sri Lanka, o governo quer concluir uma rodovia estratégica com novos empréstimos chineses após o calote de 2022.

A grande vantagem está na taxa de juros: enquanto os EUA trabalham na faixa de 4% a 5%, a taxa de recompra reversa de 7 dias na China está em apenas 1,40%. Essa diferença torna o financiamento em yuan muito mais atraente.

Franco suíço ressurge como opção barata

O franco suíço, por sua vez, voltou ao radar. Com taxa básica zerada desde junho, a moeda passou a ser fonte de crédito acessível. O Panamá captou quase US$ 2,4 bilhões em julho, economizando cerca de US$ 200 milhões em comparação ao dólar. A Colômbia também sinaliza intenção de diversificar e já estuda operações com bancos suíços.

Segundo Andres Pardo, da XP Investments, o país poderia captar a 1,5% em franco suíço para substituir dívidas em dólar que hoje pagam entre 7% e 8%. Para governos em aperto fiscal, essa diferença é gigantesca.

O dilema do risco cambial

A troca de moeda reduz os custos imediatos, mas traz riscos. Muitos países arrecadam em dólar ou em moeda local e, ao se endividarem em yuan ou francos suíços, precisam contratar hedge para evitar perdas com flutuações cambiais. Esse seguro pode corroer parte da economia obtida com juros mais baixos.

Além disso, especialistas lembram que o yuan ainda não tem liquidez suficiente para competir de frente com o dólar. Yufan Huang, pesquisador da Johns Hopkins, afirma que o uso da moeda chinesa segue limitado a acordos específicos, caso a caso.

O dólar segue como centro financeiro

Apesar da busca por alternativas, o mercado de títulos em dólar continua sendo o mais robusto do mundo. Investidores destacam que o acesso a esse mercado segue essencial para o financiamento de longo prazo. Muitos empréstimos ligados ao Cinturão e Rota, feitos na década de 2010, foram firmados em dólar justamente porque, naquela época, os juros americanos eram baixos.

Empresas também entram no jogo

Não são só os governos que buscam alternativas. Empresas de emergentes aumentaram emissões em euros, alcançando US$ 239 bilhões até julho — um recorde. Ainda assim, o estoque de títulos corporativos em dólar continua dominante, somando cerca de US$ 2,5 trilhões. Isso reforça a resiliência da moeda americana, mesmo em tempos de juros altos.

O futuro da diversificação monetária

Enquanto os juros nos EUA permanecerem elevados, o apelo de moedas alternativas como o yuan e o franco suíço deve continuar. Mas as limitações de liquidez e os riscos cambiais impedem que essa migração seja definitiva.

O que vemos agora é menos uma substituição do dólar e mais uma estratégia de sobrevivência financeira. No fim das contas, a moeda americana segue no centro do sistema global — mas, cada vez mais, precisa dividir espaço.

[Fonte: Click Petroleo e Gas]

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