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Ciência

E se a matéria escura estiver ligada a uma dimensão que nossos instrumentos não detectam?

Uma nova proposta sugere que o comportamento da matéria escura pode depender de uma estrutura escondida do universo. A ideia é tão estranha quanto testável.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Sabemos que a matéria escura está por aí porque sua gravidade denuncia sua presença, mas ainda não sabemos do que ela é feita. Agora, pesquisadores propõem uma possibilidade que parece saída de uma ficção científica: parte da física desse componente invisível poderia estar ligada a uma dimensão espacial que não conseguimos perceber. E a geometria dessa dimensão pode esconder uma pista importante.

A dimensão que ninguém consegue enxergar

Imagine que o universo tenha mais direções espaciais do que aquelas que percebemos no cotidiano. Isso não significa necessariamente um lugar paralelo para onde seria possível viajar. Uma dimensão extra poderia ser extremamente pequena, compactada sobre si mesma e praticamente inacessível aos nossos sentidos.

É justamente essa possibilidade que um novo modelo teórico explora. Pesquisadores associados à Universidade de Sheffield propuseram um cenário no qual a matéria escura e uma partícula hipotética chamada fóton escuro compartilham uma dimensão adicional.

O fóton escuro seria diferente do fóton comum. Enquanto o fóton conhecido está relacionado ao eletromagnetismo, essa partícula pertenceria ao chamado setor escuro e poderia funcionar como mediadora de uma força entre partículas de matéria escura.

A ideia fica especialmente interessante por causa da geometria utilizada no modelo. Os pesquisadores recorrem a uma estrutura matemática chamada orbifold, relacionada a uma dimensão circular submetida a determinadas simetrias.

Para nós, essa dimensão permaneceria escondida. Mas, dentro da matemática do modelo, ela teria consequências observáveis: os campos poderiam aparecer em diferentes estados, associados a diferentes massas.

E é aí que surge a parte mais curiosa da proposta.

Uma coincidência que talvez não seja coincidência

Um dos problemas enfrentados por alguns modelos de matéria escura é a necessidade de ajustar com enorme precisão as massas das partículas envolvidas.

Essa precisão é importante porque determinadas interações podem ficar muito mais intensas quando ocorre uma ressonância. É algo que, em termos simplificados, lembra empurrar um balanço no momento exato: a energia acumulada cresce porque tudo está sincronizado.

No caso da matéria escura, uma relação específica entre as massas poderia aumentar significativamente determinadas interações mediadas pelo fóton escuro.

O problema é explicar por que a natureza escolheria exatamente aqueles valores.

A proposta estudada por Taegyu Lee e Yu-Dai Tsai oferece uma resposta diferente. Em vez de simplesmente colocar os números necessários nas equações, os pesquisadores sugerem que a própria geometria da dimensão adicional poderia produzir naturalmente essa relação.

Ou seja, o ajuste aparentemente artificial poderia ser consequência da estrutura do espaço.

O resultado seria uma espécie de mecanismo geométrico capaz de colocar partículas diferentes próximas das condições necessárias para uma ressonância.

Isso não prova que a dimensão exista. Mas transforma uma coincidência difícil de explicar em uma característica que, pelo menos matematicamente, emerge do próprio modelo.

Universo7
© Tony Rowell – Getty Images

O universo jovem pode ter contado uma história diferente

Essa hipótese também tenta resolver outro problema importante: explicar por que existe tanta matéria escura no universo atual.

Logo após o Big Bang, o cosmos era extremamente quente, denso e energético. As partículas estavam muito mais próximas umas das outras e as condições físicas eram completamente diferentes das encontradas atualmente.

Nesse cenário primordial, a ressonância prevista pelo modelo poderia ter aumentado a frequência com que partículas de matéria escura interagiam ou se aniquilavam.

Isso cria uma possibilidade interessante. A matéria escura poderia ter sido muito mais ativa no universo jovem e, posteriormente, ter se tornado praticamente invisível à medida que o cosmos esfriou e se expandiu.

A diferença estaria nas condições físicas.

Uma ressonância desse tipo depende da energia e da velocidade das partículas. Portanto, um mecanismo que funcionasse com força durante os primeiros momentos do universo poderia ser muito menos eficiente bilhões de anos depois.

Isso ajudaria a conciliar duas características aparentemente contraditórias: uma matéria escura capaz de interagir de maneira significativa no passado e, ao mesmo tempo, extremamente difícil de detectar hoje.

A ideia ainda precisa sobreviver aos experimentos

É importante não confundir uma explicação matemática elegante com uma descoberta.

O estudo não demonstrou a existência de uma quinta dimensão. Também não encontrou o fóton escuro nem identificou definitivamente a partícula responsável pela matéria escura.

O que os pesquisadores fizeram foi construir um modelo que conecta essas três possibilidades e, principalmente, produz previsões que podem ser confrontadas com experimentos.

Detectores subterrâneos procuram sinais extremamente pequenos de colisões entre matéria escura e matéria comum. Aceleradores de partículas, por outro lado, podem procurar evidências indiretas de novas partículas ou de energia que desaparece do balanço conhecido de uma colisão.

Se o cenário estiver correto, esses experimentos poderão ajudar a restringir ou eliminar determinadas regiões do modelo.

Por enquanto, a quinta dimensão continua sendo uma hipótese. Mas ela oferece algo particularmente valioso para a ciência: uma explicação que não apenas tenta encaixar os dados existentes, mas também aponta para possíveis sinais que poderão ser procurados.

Talvez a matéria escura não esteja simplesmente escondida em algum lugar do universo. Talvez parte da explicação para seu comportamento esteja em uma estrutura do próprio espaço que nossos instrumentos ainda não conseguem enxergar.

E essa é justamente a parte que torna a hipótese tão intrigante: o mistério pode não estar apenas no que existe no universo, mas também em quantas dimensões são necessárias para descrevê-lo.

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