Comportamentos alimentares extremos muitas vezes surgem na juventude, mas suas raízes podem estar mais profundas — e mais antigas — do que imaginamos. Cientistas europeus investigaram quase mil adolescentes ao longo de nove anos e descobriram padrões cerebrais e genéticos que indicam maior propensão a desenvolver distúrbios alimentares. Este avanço pode mudar a forma como prevenimos e tratamos esses transtornos.
Entre o cérebro, a genética e os hábitos
Publicado na revista Nature Mental Health, o estudo acompanhou jovens de 14 a 23 anos em diversos países europeus. Foram analisados seus hábitos alimentares, históricos familiares, estado emocional e, sobretudo, o desenvolvimento do cérebro por meio de ressonâncias magnéticas e testes genéticos.
Os pesquisadores identificaram três perfis alimentares: saudáveis, restritivos (que evitam comer por questões estéticas) e emocionais (que comem em resposta ao estresse). Os jovens que apresentavam ansiedade, depressão ou dificuldade de concentração aos 14 anos mostraram mais chances de desenvolver distúrbios alimentares anos depois.
Além disso, esses mesmos adolescentes apresentaram maior predisposição genética à obesidade e um índice de massa corporal mais elevado, independentemente do ambiente familiar ou escolar.

O que o cérebro revela antes dos sintomas
O dado mais revelador do estudo foi a maturidade do cérebro. Jovens com desenvolvimento mais lento no córtex pré-frontal e no cerebelo — regiões ligadas ao controle do apetite e dos impulsos — demonstraram mais tendência a hábitos alimentares prejudiciais na vida adulta.
De acordo com os pesquisadores do King’s College de Londres, essas alterações cerebrais aparecem antes mesmo dos primeiros sintomas. Isso poderia permitir a criação de estratégias de prevenção personalizadas, com base no perfil neurobiológico de cada adolescente.
Um caminho para a prevenção precoce
A equipe científica pretende agora estender o estudo para além dos 20 anos, buscando confirmar os padrões observados e refinar métodos de intervenção. A ideia é desenvolver ferramentas de rastreio precoce que ajudem pais, médicos e educadores a identificar riscos de forma eficaz.
Como destaca a autora principal, Sylvane Desrivières, compreender o cérebro pode ser um passo essencial para proteger também a saúde mental e alimentar dos jovens — antes que os sinais se tornem crises.