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Ciência

El Niño ganha força e já afeta o clima e a produção de alimentos pelo mundo

O fenômeno avança no Pacífico e começa a provocar secas, enchentes e perdas agrícolas. Sua força, combinada ao aquecimento global, pode tornar seus efeitos ainda mais imprevisíveis.
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Tempo de leitura: 4 minutos

As águas próximas à costa do Peru abrigam uma das áreas pesqueiras mais produtivas do planeta. Todos os anos, milhões de toneladas de anchoveta são retiradas da região, principalmente para a produção de fertilizantes e ração animal. Desta vez, porém, o cenário mudou rapidamente.

No fim de agosto, o governo peruano encerrou antecipadamente a temporada de pesca. O motivo está ligado ao fortalecimento do El Niño no Pacífico tropical. Com o mar mais quente, a disponibilidade de alimento mudou e os peixes adultos migraram para águas mais profundas e frias. Como consequência, a captura ficou muito abaixo do esperado.

O caso do Peru pode ser apenas uma amostra do que está por vir. O atual episódio de El Niño caminha para uma intensidade excepcional, e cientistas alertam que seus efeitos podem se estender até 2027.

Um El Niño diferente dos anteriores

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© Pexels

O El Niño ocorre quando as temperaturas da superfície do Pacífico tropical ficam muito acima da média. Esse aquecimento altera a atmosfera sobre o oceano e provoca mudanças nos ventos, nas chuvas e nas temperaturas em várias partes do planeta.

No entanto, nenhum episódio é exatamente igual ao outro. Em alguns casos, as águas mais quentes ficam concentradas no Pacífico central. Em outros, o aquecimento é mais intenso no leste. Além disso, quanto mais forte o fenômeno, maiores tendem a ser seus impactos.

Como explica Jérôme Vialard, pesquisador do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento da França, o El Niño pode apresentar diferentes características.

O episódio atual chama atenção porque é o primeiro El Niño forte dominado pelo aquecimento do Pacífico oriental desde o fim da década de 1990. Por isso, há pouca experiência recente para prever seu comportamento em um planeta que hoje está significativamente mais quente.

Outro fator incomum é a velocidade de sua intensificação. O aquecimento ganhou força mais cedo do que em grandes episódios anteriores, como os registrados em 1997 e 2015. Alguns modelos indicam que ele pode se tornar um dos El Niños mais intensos dos últimos séculos.

Secas e enchentes atingem diferentes continentes

Até agora, vários impactos lembram os observados em episódios anteriores. Na América Central, a falta de chuva já prejudica o Canal do Panamá, cujas eclusas dependem de grandes volumes de água doce. Pequenos produtores da Guatemala, Honduras e El Salvador também registram perdas agrícolas.

No Caribe, uma seca histórica foi agravada pelo aquecimento global. Porto Rico adotou restrições no uso da água, enquanto plantações na Jamaica enfrentam condições cada vez mais secas.

O padrão quente também aparece em outras regiões próximas ao Equador. A Indonésia registrou um início de temporada de incêndios florestais mais intenso. Já a Índia teve chuvas de monção abaixo da média, embora algumas áreas tenham enfrentado enchentes.

Na África Austral e Oriental, o tempo seco se combina aos preços elevados de combustíveis e fertilizantes. O cenário aumenta a preocupação com a segurança alimentar. Segundo estimativas do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, dezenas de milhões de pessoas podem enfrentar insegurança alimentar aguda.

Enquanto algumas regiões sofrem com a seca, outras recebem chuva demais. Precipitações intensas e neve no Chile e no Peru já provocaram enchentes, afetaram a mineração e levaram ao fechamento temporário de Machu Picchu. No Chifre da África, também existe preocupação com possíveis inundações.

Aquecimento global adiciona uma nova variável

Aquecimento
© Javier Miranda – Unsplash

Os impactos podem ficar mais fortes à medida que o El Niño se aproxima de seu pico. Normalmente, quanto maior sua intensidade, maiores são as alterações climáticas associadas. Desta vez, porém, existe uma variável adicional: o aquecimento global.

Temperaturas elevadas e mudanças nas chuvas provocadas pelo El Niño podem se somar ao aumento da temperatura média do planeta. Essa combinação tem potencial para intensificar eventos extremos, embora os cientistas ainda tentem determinar até que ponto os dois fenômenos podem se reforçar.

Há ainda outra questão importante. O aquecimento global pode estar alterando as chamadas “teleconexões” do El Niño — os mecanismos pelos quais mudanças no Pacífico afetam o clima a milhares de quilômetros de distância.

Pesquisas recentes identificaram alterações nessas relações nas últimas décadas. Algumas regiões que historicamente ficavam mais quentes durante o El Niño agora apresentam respostas diferentes. Em outras áreas, aconteceu o contrário.

Se essas conexões continuarem mudando, prever os efeitos dos próximos episódios ficará ainda mais difícil. Para países que dependem de previsões climáticas para se preparar contra secas, enchentes, incêndios e perdas agrícolas, essa incerteza pode se transformar em um desafio cada vez maior.

 

[ Fonte: Meteored ]

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