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Ele bancou o próprio filme longe de Hollywood — e acabou mudando o cinema americano

Antes de ser celebrado nos festivais, ele passou anos longe das salas de aula e dos estúdios. O caminho improvável que escolheu ajuda a explicar por que sua obra soa tão diferente.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Existe uma narrativa confortável sobre como se chega a Hollywood: boas escolas, contatos certos e uma carreira cuidadosamente planejada. Mas algumas trajetórias desmontam esse mito peça por peça. A de Richard Linklater é uma delas. Antes de ser reconhecido como um dos autores mais singulares do cinema americano, ele trabalhou longe dos holofotes, acumulou turnos cansativos e apostou tudo em uma ideia simples: aprender cinema fazendo.

Um desvio inesperado antes do cinema

Linklater não começou com o objetivo claro de dirigir filmes. Seu primeiro plano era outro. Ele entrou na universidade graças a uma bolsa esportiva como jogador de beisebol e escolheu estudar escrita e dramaturgia. O roteiro parecia definido, até que um problema cardíaco interrompeu a carreira esportiva e, pouco depois, também sua permanência na universidade.

Sem diploma e sem uma estrutura acadêmica que o motivasse, ele se afastou do caminho tradicional. A rigidez do ambiente universitário não combinava com sua curiosidade criativa. Em vez de insistir, decidiu trabalhar onde fosse possível enquanto tentava entender o que realmente queria fazer. Esse período de incerteza foi menos um fracasso e mais um laboratório silencioso.

Turnos longos, filmes curtos e uma formação autodidata

Durante anos, Linklater trabalhou em uma estação petrolífera no Golfo do México. O trabalho era repetitivo, distante de qualquer glamour. Mas foi justamente ali que ele começou a se formar como cineasta. Nos intervalos e dias livres, ia ao cinema sempre que podia — às vezes mais de uma vez por dia. Em vez de livros técnicos, absorvia referências na tela.

Já instalado em Austin, passou a buscar obsessivamente clássicos e filmes europeus que chegavam esporadicamente à cidade. Para garantir que esse tipo de cinema tivesse espaço, ajudou a fundar a Austin Film Society, ao lado de antigos professores e outros entusiastas. O projeto não só criou uma comunidade cinéfila no Texas como também funcionou como uma escola informal para o futuro diretor.

A lógica era direta: não aprender cinema falando sobre ele, mas assistindo, discutindo e, principalmente, filmando.

Filmando com o que havia à mão

Com economias próprias, Linklater decidiu rodar seu primeiro longa: It’s Impossible to Learn to Plow by Reading Books. Gravado em Super 8, estrelado pelo próprio diretor e feito com cerca de 3 mil dólares, o projeto não teve distribuição comercial relevante. Ainda assim, serviu como terreno de testes para um estilo observacional e livre, que se tornaria sua marca.

O verdadeiro ponto de virada veio com Slacker. Orçado em aproximadamente 23 mil dólares, o filme foi financiado com economias pessoais, empréstimos de amigos e familiares e até crédito acumulado em uma gasolinera para alimentar a equipe. O equipamento de filmagem em 16 mm foi emprestado por uma emissora local. Nada ali seguia o manual de Hollywood.

O resultado também não. Exibido inicialmente em sessões organizadas pela Austin Film Society, o filme ganhou reputação no circuito independente até ser adquirido para distribuição nacional. A arrecadação não foi gigantesca, mas suficiente para provar que havia ali uma voz autoral distinta.

Quando a insistência vira assinatura

A partir desse momento, a carreira de Linklater ganhou escala. Vieram filmes ambientados no tempo, na conversa e na observação íntima dos personagens, como Antes do amanhecer e seus desdobramentos. Hoje, ele é visto como um dos grandes nomes do cinema americano contemporâneo.

Sua história não vende atalhos nem fórmulas mágicas. Mostra apenas que existem outros caminhos. Às vezes, eles passam por trabalhos improváveis, salas de cinema quase vazias e projetos feitos com o mínimo de recursos. Quando existe uma voz autêntica por trás da câmera, o resto encontra seu tempo.

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