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Eleição no Chile começa com extrema direita favorita nas pesquisas

O Chile vai às urnas neste domingo em uma eleição marcada por medo, polarização e memória histórica. De um lado, o candidato mais à direita desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet. Do outro, uma comunista moderada que tenta preservar avanços sociais. As pesquisas indicam um favorito claro — e o cenário reacende debates profundos sobre segurança, economia e o rumo do país.
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Cerca de 16 milhões de eleitores começaram a votar às 8h (horário local), em um pleito que pode redefinir o equilíbrio político chileno. As urnas fecham às 18h, mas o clima de tensão já domina ruas, filas e discursos desde cedo.

Quem é o favorito na eleição chilena

José Antonio Kast, advogado de 59 anos, católico conservador e pai de nove filhos, aparece como favorito nas pesquisas. Fundador do Partido Republicano, ele disputa a presidência pela terceira vez e promete uma guinada dura na política chilena, especialmente nas áreas de segurança pública e imigração.

Entre suas principais propostas está a deportação de cerca de 340 mil imigrantes em situação irregular, a maioria venezuelanos, além do endurecimento no combate ao crime organizado. Para seus eleitores, Kast representa ordem e controle em um país que, segundo eles, “perdeu o rumo”.

“O comunismo nunca funcionou em lugar nenhum”, disse à AFP José González, caminhoneiro de 74 anos, enquanto aguardava para votar em Santiago. A fala resume o sentimento de parte do eleitorado que vê a eleição como uma escolha entre segurança e instabilidade.

O discurso do medo e a pauta da segurança

Kast costuma repetir que “o país está caindo aos pedaços”. Em seus discursos, muitas vezes feitos atrás de vidros blindados, ele descreve o Chile como refém do tráfico de drogas e da violência, apesar de o país ainda figurar entre os mais seguros da América Latina.

Pesquisas do Ipsos indicam que 63% dos chilenos apontam crime e violência como sua maior preocupação, seguidos pelo baixo crescimento econômico. Especialistas, no entanto, alertam que a percepção de insegurança cresce mais rápido do que os dados reais.

Os homicídios dobraram na última década, mas estão em queda há dois anos. Mesmo assim, crimes violentos como sequestros e extorsões aumentaram, em parte associados à atuação de gangues estrangeiras, como o Tren de Aragua, da Venezuela.

A candidata da esquerda e o legado de Boric

Do outro lado está Jeannette Jara, advogada de 51 anos, ex-ministra do Trabalho e de origem humilde. Descrita como comunista moderada, ela defende aumento do salário mínimo, proteção às aposentadorias e manutenção de políticas sociais.

Jara tenta se descolar do desgaste do atual governo de Gabriel Boric, que chegou ao poder após os protestos de 2019, mas não conseguiu reformar a Constituição herdada da era Pinochet. Segundo analistas, esse fracasso corroeu a base de apoio da esquerda.

Para eleitores como a aposentada Cecilia Mora, de 71 anos, votar em Jara é uma forma de evitar retrocessos. Ela define Kast como “um Pinochet sem uniforme” e diz temer a repetição de um passado marcado por repressão e violência de Estado.

Pinochet ainda pesa no debate político

A sombra da ditadura militar segue presente. Kast já declarou que, se Pinochet estivesse vivo, votaria nele. Ao longo da campanha, porém, evitou tocar no tema e também deixou em segundo plano posições polêmicas, como a oposição total ao aborto.

Reportagens revelaram que seu pai, alemão, foi membro do Partido Nazista. Kast afirma que ele foi recrutado à força pelo exército alemão e nega qualquer simpatia ao nazismo. Ainda assim, o tema volta ao debate sempre que a eleição esquenta.

O que esperar do resultado

No primeiro turno, há um mês, Kast e Jara ficaram próximos, com cerca de um quarto dos votos cada. No entanto, a soma dos votos da direita chegou a 70%, o que reforça o favoritismo do candidato conservador.

Analistas avaliam que Kast deve vencer com boa margem, mas sem um “cheque em branco”. Muitos eleitores votam nele mais por rejeição à esquerda do que por apoio explícito ao seu passado ou discurso.

O Chile alterna direita e esquerda no poder desde 2010. O resultado desta eleição mostrará até que ponto o medo, a economia e a memória da ditadura continuam moldando o futuro político do país.

[Fonte: Correio Braziliense]

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