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Ciência

Eles estão desaparecendo das florestas latino-americanas, mas três projetos tentam mudar seu destino antes que seja tarde

Tráfico ilegal, destruição das florestas e mineração colocam primatas latino-americanos sob pressão. Na Bolívia, Colômbia e Peru, projetos mostram três maneiras diferentes de tentar salvá-los.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Eles dispersam sementes, ajudam na regeneração das florestas e ocupam um lugar essencial em alguns dos ecossistemas mais ricos do planeta. Mesmo assim, muitos primatas da América Latina estão desaparecendo silenciosamente. O problema não tem uma única causa: começa com árvores derrubadas, passa pelo comércio ilegal de animais e chega até atividades como mineração. Em três países, conservacionistas estão tentando interromper esse processo antes que determinadas populações não consigam mais se recuperar.

A América Latina tem 217 espécies e algumas estão perigosamente perto do limite

Eles estão desaparecendo das florestas latino-americanas, mas três projetos tentam mudar seu destino antes que seja tarde
© Unsplash

O Dia Internacional dos Primatas, celebrado em 1º de setembro, chama atenção para uma situação que se tornou particularmente delicada na América Latina.

A região abriga 217 espécies de primatas, mas muitas enfrentam níveis preocupantes de ameaça.

Entre elas estão diferentes espécies de macacos-aranha, saguis, bugios e macacos-prego. A lista inclui animais encontrados em territórios que vão da América Central à Amazônia e à Mata Atlântica.

O problema é que as ameaças frequentemente se acumulam.

Uma floresta pode primeiro ser fragmentada pela abertura de estradas ou pela expansão agrícola. Depois chegam caça e tráfico. Populações pequenas ficam isoladas, encontram mais dificuldades para se reproduzir e tornam-se ainda mais vulneráveis a novas perturbações.

Animais retirados da natureza para serem vendidos como mascotes acrescentam outra dimensão ao problema.

Primatas são extremamente sociais. Filhotes precisam aprender comportamentos com integrantes de seu grupo, enquanto muitas espécies necessitam percorrer grandes áreas de floresta para encontrar alimento e manter suas relações sociais.

Uma casa ou uma gaiola dificilmente consegue reproduzir essas condições.

Na Bolívia, um projeto conhece de perto as consequências desse comércio.

Na Bolívia, um refúgio recebe animais que já perderam a liberdade

Eles estão desaparecendo das florestas latino-americanas, mas três projetos tentam mudar seu destino antes que seja tarde
© Unsplash

O Senda Verde, localizado em Yolosa, nos Yungas bolivianos, funciona como refúgio para animais silvestres resgatados principalmente do tráfico ilegal.

Entre seus moradores estão primatas que dificilmente poderiam simplesmente ser devolvidos à floresta.

Muitos passaram anos em cativeiro ou chegaram com sequelas físicas e comportamentais. Alguns perderam habilidades necessárias para sobreviver de maneira independente.

O trabalho, portanto, não consiste apenas em abrir uma jaula.

Os responsáveis precisam oferecer alimentação, cuidados veterinários, espaços adequados e oportunidades de socialização. Dependendo das condições de cada indivíduo, a reintrodução pode ser impossível.

Ao mesmo tempo, outra ameaça cresce ao redor das áreas naturais bolivianas: a mineração ilegal.

Além da remoção de vegetação, essa atividade pode contaminar rios e modificar ecossistemas inteiros, afetando espécies muito além da região diretamente explorada.

Salvar animais já resgatados é necessário, mas os conservacionistas sabem que isso resolve apenas uma parte da equação.

Para que existam primatas livres no futuro, ainda é preciso garantir que reste floresta onde eles possam viver.

Na Colômbia, o desafio é reconectar florestas que ficaram separadas

Na Colômbia, a perda de habitat aparece como uma das maiores ameaças.

O biólogo Andrés Link, da Fundación Proyecto Primates, destaca que proteger aquilo que ainda permanece em pé é a primeira prioridade.

A situação é especialmente crítica em ecossistemas como as florestas secas, das quais restam pequenas parcelas de sua extensão original em diversas regiões.

Mas interromper a derrubada não basta onde a floresta já foi fragmentada.

É aí que entram os corredores ecológicos.

Essas faixas de vegetação conectam fragmentos isolados e permitem que animais circulem entre eles. Para primatas, essa conexão pode significar acesso a alimento, parceiros reprodutivos e áreas maiores para viver.

Sem corredores, grupos podem permanecer presos em pequenas ilhas verdes cercadas por plantações, estradas ou cidades.

A conservação passa, então, por restaurar áreas degradadas e enriquecer florestas que perderam parte de sua diversidade.

No Peru, entretanto, existe outro problema que exige atenção especial.

No Peru, a batalha também acontece em estradas, mercados e redes sociais

O tráfico de animais silvestres continua sendo uma ameaça importante para os primatas peruanos.

A primatóloga Fanny Cornejo, da organização Yunkawasi, ressalta que retirar um único adulto da natureza pode produzir consequências para todo o grupo.

Isso acontece porque as relações sociais entre primatas são complexas. Um indivíduo não representa apenas mais um animal em determinada população: pode desempenhar funções importantes dentro da estrutura daquele grupo.

Combater o tráfico exige agir em vários pontos ao mesmo tempo.

A fiscalização precisa alcançar os locais de captura, mas também estradas, terminais rodoviários, portos e aeroportos utilizados para transportar animais.

Mercados e redes sociais, onde espécies silvestres podem ser oferecidas ilegalmente, também fazem parte dessa cadeia.

O Peru possui uma Estratégia Nacional para Reduzir o Tráfico Ilegal de Fauna Silvestre 2017-2027, que considera justamente as diferentes etapas do problema, da captura até a demanda.

Organizações como a Yunkawasi acrescentam outro elemento: educação e conscientização das comunidades.

Salvar os primatas significa proteger muito mais que os próprios animais

Os três casos mostram por que não existe uma solução única.

Na Bolívia, é necessário cuidar dos animais que já foram vítimas do tráfico enquanto se enfrentam novas pressões sobre seus habitats. Na Colômbia, proteger e reconectar florestas pode impedir o isolamento das populações. No Peru, combater toda a cadeia do comércio ilegal é fundamental.

Há ainda uma consequência que ultrapassa os próprios primatas.

Muitas espécies comem frutos e transportam sementes por grandes distâncias. Ao fazer isso, participam da regeneração das florestas.

Quando desaparecem, essas interações ecológicas também podem desaparecer.

É por isso que proteger um macaco não significa simplesmente impedir a extinção de um animal carismático.

Significa preservar parte de uma rede muito maior.

E talvez seja esse o alerta mais importante neste Dia Internacional dos Primatas: quando uma floresta fica silenciosa porque seus macacos desapareceram, não foi apenas uma espécie que deixou de ocupar aquelas árvores. Uma parte do próprio funcionamento daquele ecossistema foi embora junto com ela.

[Fonte: El Comercio]

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