A energia solar parece não ser suficiente para os planos de Elon Musk. Com o rápido crescimento da inteligência artificial e a necessidade de construir centros de dados cada vez maiores, o empresário quer recorrer também ao gás natural — e pretende fabricar parte da tecnologia necessária por conta própria.
A SpaceX planeja produzir componentes de turbinas a gás para gerar eletricidade destinada à infraestrutura de IA. A estratégia permitiria reduzir a dependência de um mercado altamente concentrado, no qual a demanda já é tão grande que novos equipamentos podem enfrentar anos de espera.
Mas produzir essas peças está longe de ser simples.
SpaceX quer fabricar componentes de turbinas no Texas

O próprio Musk confirmou que a SpaceX pretende fabricar internamente pás e outros componentes necessários para turbinas movidas a gás natural.
A informação surgiu após uma reportagem do The Information revelar planos para uma instalação em Bastrop, no Texas. A SpaceX já mantém operações da Starlink na região.
Segundo Musk, existe um motivo bastante prático para entrar nesse negócio: o mercado global de turbinas estaria praticamente saturado até 2030.
Em vez de esperar que os fabricantes tradicionais aumentem sua capacidade, a SpaceX quer assumir parte da produção.
A ideia também complementa os ambiciosos projetos de Musk relacionados à energia solar. Embora o empresário continue apostando fortemente nessa fonte, ele reconhece que ela provavelmente não será suficiente para acompanhar sozinha o crescimento da demanda energética provocada pela IA.
Três gigantes dominam o mercado mundial
A fabricação de grandes turbinas a gás está concentrada principalmente nas mãos de três empresas: GE Vernova, Siemens Energy e Mitsubishi Power.
Com a explosão dos investimentos em centros de dados, a procura por seus equipamentos aumentou rapidamente. Isso criou um gargalo justamente no momento em que empresas de tecnologia precisam colocar novas instalações em funcionamento o mais rápido possível.
Musk acredita que fabricar e fundir determinados componentes internamente poderia reduzir em até 18 meses o tempo necessário para colocar novas turbinas em operação.
Essa economia de tempo seria especialmente importante para seus planos.
O empresário já indicou a investidores que pretende alcançar 10 GW ou mais de capacidade em centros de dados terrestres até o fim de 2027. Uma infraestrutura desse tamanho exigirá quantidades enormes de eletricidade.
Fabricar uma turbina a gás é extremamente difícil
O maior problema é que entrar nesse mercado não depende apenas de construir uma fábrica.
Segundo especialistas citados pelo The Wall Street Journal, existe uma razão para tão poucas empresas dominarem o setor: fabricar componentes de turbinas de alta potência exige um nível extremo de precisão e conhecimento técnico.
As pás precisam funcionar sob condições que destruiriam rapidamente materiais convencionais.
Dentro de uma turbina, determinados componentes podem enfrentar temperaturas entre aproximadamente 1.649 °C e 1.982 °C, além de enormes forças mecânicas provocadas pela rotação em altíssima velocidade.
Qualquer pequena imperfeição pode comprometer a peça.
Um pequeno defeito pode inutilizar todo o componente
O processo de fabricação também é particularmente complexo.
Algumas dessas peças são produzidas por técnicas avançadas de fundição que utilizam moldes de cera criados especificamente para cada componente.
A precisão precisa ser praticamente perfeita.
Um pequeno defeito na superfície pode ser suficiente para que a peça seja descartada, já que qualquer falha estrutural poderia se tornar perigosa quando submetida às temperaturas e velocidades encontradas dentro de uma turbina.
Esse nível de dificuldade ajuda a explicar por que o setor possui barreiras de entrada tão altas.
A SpaceX tem experiência com materiais avançados, motores e processos industriais complexos graças ao desenvolvimento de foguetes. Mesmo assim, transferir esse conhecimento para turbinas de geração elétrica representa um novo desafio.
A corrida da IA está aumentando o consumo de gás natural
A estratégia da SpaceX também reforça uma tendência que preocupa defensores da transição energética.
O crescimento acelerado dos centros de dados está aumentando a procura por fontes capazes de fornecer eletricidade continuamente. E o gás natural voltou a ganhar espaço justamente por oferecer geração de energia constante, algo importante para instalações que funcionam 24 horas por dia.
Outras gigantes de tecnologia também estão recorrendo ou apoiando projetos ligados a esse tipo de geração para atender à crescente demanda energética da inteligência artificial.
Isso ocorre enquanto empresas continuam investindo simultaneamente em fontes renováveis e outras alternativas de geração.
Centros de dados podem aumentar as emissões

O impacto ambiental dessa expansão pode ser significativo.
Estimativas citadas pela Bloomberg indicam que, caso as usinas a gás atualmente planejadas para atender centros de dados sejam efetivamente construídas, as emissões de dióxido de carbono do setor elétrico dos Estados Unidos poderiam aumentar de maneira considerável.
O cenário coloca a indústria tecnológica diante de um paradoxo.
A inteligência artificial exige cada vez mais eletricidade justamente em um momento em que governos e empresas tentam reduzir a dependência de combustíveis fósseis.
Musk acredita que energia solar e outras tecnologias terão um papel fundamental no futuro. Mas seus planos para fabricar componentes de turbinas mostram que, pelo menos no curto prazo, o gás natural também deverá fazer parte da equação.
E o maior desafio da SpaceX talvez não seja conseguir combustível para alimentar seus centros de dados, mas dominar rapidamente uma indústria que levou décadas para desenvolver o conhecimento necessário para fabricar essas máquinas.
[ Fonte: Xataka ]