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Ciência

Felicidade não é apenas se sentir bem: estudo encontra outro fator essencial para uma vida satisfatória

Sentir-se bem é o mesmo que viver bem? Um estudo com mais de 1.200 pessoas sugere que não. Além do prazer e das emoções positivas, a sensação de poder escolher o próprio caminho parece ter um papel especial na satisfação com a vida.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O que realmente torna uma vida boa? A pergunta acompanha filósofos há séculos e continua sendo investigada pela ciência. Uma resposta bastante intuitiva é que felicidade significa acumular experiências agradáveis e evitar as ruins. Outra defende que precisamos de propósito, boas relações e crescimento pessoal.

Uma nova pesquisa não descarta nenhuma dessas ideias. Mas sugere que existe outro ingrediente importante: a autonomia.

Em outras palavras, sentir que somos nós que decidimos como viver e agir pode aumentar nossa satisfação com a vida mesmo quando as circunstâncias não são particularmente agradáveis.

Mais de 1.200 pessoas participaram do estudo

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© Unsplash

A pesquisa, publicada no The Journal of Positive Psychology, foi conduzida por Jason Payne, pesquisador de pós-doutorado do Departamento de Psicologia da Simon Fraser University, e Ulrich Schimmack.

Os cientistas queriam responder a uma pergunta aparentemente simples: quando alguém avalia se sua vida está indo bem, o que realmente leva em consideração?

Para descobrir, eles analisaram mais de 1.200 adultos do Canadá e do Reino Unido.

Os participantes responderam perguntas sobre emoções positivas e negativas e sobre sua satisfação geral com a vida. Também foram avaliadas três necessidades psicológicas relacionadas à teoria da autodeterminação: conexão social, competência e autonomia.

A conexão representa o sentimento de proximidade com outras pessoas. A competência está relacionada à percepção de conseguir realizar tarefas e alcançar objetivos. Já a autonomia corresponde à sensação de agir por escolha própria, em vez de simplesmente seguir algo imposto por outras pessoas ou circunstâncias.

Autonomia apareceu como um fator diferente

Os resultados inicialmente confirmaram algo esperado: sentir emoções positivas ou negativas estava fortemente relacionado à satisfação com a vida.

Conexão social e competência também apresentaram relação com o bem-estar. Porém, grande parte dessa associação parecia acontecer porque esses dois fatores ajudavam as pessoas a se sentirem melhor emocionalmente.

Com a autonomia, o resultado foi diferente.

Mesmo depois de os pesquisadores considerarem estatisticamente o quanto cada participante se sentia bem ou mal, aqueles que apresentavam maior sensação de autonomia continuavam relatando maior satisfação com a própria vida.

Segundo Payne, entre as necessidades psicológicas analisadas, a autonomia foi a única que pareceu acrescentar algo que as emoções, sozinhas, não conseguiam explicar.

É possível estar cansado e ainda considerar a vida boa

Essa diferença ajuda a entender uma situação aparentemente contraditória: como alguém pode atravessar um período difícil e, ainda assim, considerar sua vida satisfatória?

Um exemplo apresentado pelo pesquisador são os pais de primeira viagem.

Ter um bebê pode significar noites mal dormidas, cansaço, estresse e uma rotina muito mais exigente. Do ponto de vista puramente hedônico, portanto, determinados momentos dessa fase podem estar longe de ser agradáveis.

Mesmo assim, muitos pais podem avaliar positivamente suas vidas.

Uma possível explicação é justamente a autonomia. As dificuldades fazem parte de uma decisão que reconhecem como própria e de um caminho que escolheram seguir.

Assim, uma experiência não precisa necessariamente ser agradável para contribuir para a percepção de que a vida está indo bem.

Felicidade pode envolver prazer, propósito e liberdade

Felicidade (2)
© Alex P

Os pesquisadores ressaltam que isso não significa que sentir prazer deixou de ser importante.

As emoções continuam explicando uma parcela considerável da maneira como avaliamos nossas vidas. O estudo também não descarta a importância de propósito, relações sociais ou desenvolvimento pessoal.

A descoberta sugere algo mais complexo.

Uma vida considerada boa provavelmente reúne diferentes elementos. Podemos valorizar experiências agradáveis, relações importantes e objetivos significativos, mas também queremos sentir que temos liberdade para decidir como viver.

Foi justamente essa independência da autonomia em relação às emoções que surpreendeu os pesquisadores.

A descoberta pode influenciar até políticas públicas

Os resultados também levantam uma questão que vai além das decisões individuais.

Segundo Payne, políticas públicas podem alcançar resultados considerados positivos e, ao mesmo tempo, reduzir a percepção de autonomia das pessoas. Nesse caso, parte dos benefícios poderia ser compensada pela sensação de perda de liberdade de escolha.

O pesquisador cita como exemplo a obrigatoriedade do uso de máscaras durante a pandemia de Covid-19. Embora a medida tivesse como objetivo proteger a saúde coletiva, seu caráter obrigatório também poderia gerar resistência por entrar em conflito com a necessidade psicológica de autonomia.

A mesma lógica pode aparecer em relações familiares, profissionais ou amorosas.

Em vez de pensar apenas em como fazer alguém se sentir melhor, permitir que essa pessoa participe das decisões e tenha espaço para escolher pode ser igualmente importante para seu bem-estar.

Ainda há uma limitação importante

Os próprios pesquisadores reconhecem que os resultados precisam ser interpretados com cautela.

O estudo envolveu apenas participantes do Canadá e do Reino Unido, dois países ocidentais e de língua inglesa. Portanto, ainda não está claro se a autonomia terá exatamente o mesmo peso em culturas que valorizam de maneira diferente a independência individual e as decisões coletivas.

Novos estudos serão necessários para descobrir se o padrão se repete em outras partes do mundo.

Ainda assim, a pesquisa acrescenta uma peça interessante ao quebra-cabeça da felicidade.

Talvez uma vida boa não dependa apenas de quanto prazer sentimos ou de quanto propósito encontramos. Também pode importar profundamente a sensação de que somos nós que estamos escolhendo o caminho que seguimos.

 

[ Fonte: DW ]

 

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