Pular para o conteúdo
Notícias

Enquanto o Brasil debate mudanças, este país vizinho já colocou a redução da jornada em prática

Enquanto o debate sobre trabalhar menos avança no Brasil, uma experiência recente na América do Sul está chamando atenção por combinar menos horas de trabalho, salários maiores e um mercado resiliente.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

A discussão sobre a redução da jornada de trabalho voltou ao centro das atenções em vários países. No Brasil, propostas para diminuir a carga semanal e revisar modelos tradicionais de escala dividem opiniões entre trabalhadores, empresas e especialistas. Mas enquanto o debate ainda está em andamento, um vizinho sul-americano já percorreu boa parte desse caminho. E os resultados observados até agora estão despertando interesse muito além de suas fronteiras.

A mudança que reduziu seis horas da jornada semanal

A partir de julho de 2026, os trabalhadores assalariados da Colômbia passam a ter uma jornada máxima de 42 horas semanais. A medida marca a etapa final de uma transformação iniciada em 2021, quando foi aprovada uma lei que previa a redução gradual da carga horária ao longo de cinco anos.

Enquanto o Brasil debate mudanças, este país vizinho já colocou a redução da jornada em prática
© Michael Barón – Unsplash

Antes da mudança, a jornada legal era de 48 horas por semana. A redução foi implementada de forma progressiva, permitindo que empresas e trabalhadores se adaptassem ao novo cenário sem uma ruptura abrupta.

Mas a diminuição das horas trabalhadas não foi a única alteração relevante. Nos últimos anos, o país também promoveu mudanças trabalhistas que ampliaram os rendimentos dos empregados. Entre elas, destacam-se os reajustes do salário mínimo e a ampliação do período considerado para pagamento do adicional noturno.

O resultado foi um aumento significativo dos custos trabalhistas para as empresas. Ainda assim, o cenário observado no mercado de trabalho não correspondeu às previsões mais pessimistas feitas por parte do setor empresarial.

Segundo especialistas que acompanham o mercado colombiano, o emprego formal privado continuou crescendo durante o período de implementação das medidas. Ao mesmo tempo, a taxa de desemprego permaneceu próxima de níveis historicamente baixos.

Essa combinação chamou atenção porque desafia uma preocupação frequente em debates sobre redução de jornada: a ideia de que trabalhar menos necessariamente resultaria em menos empregos.

O que aconteceu com as empresas após a redução das horas

Apesar da resiliência do mercado de trabalho, as mudanças não ocorreram sem custos ou adaptações.

Empresários colombianos relatam que o aumento das despesas com mão de obra exigiu ajustes importantes em diversos setores. Muitas empresas passaram a rever horários de funcionamento, reorganizar escalas e acelerar investimentos em automação.

Um levantamento realizado pela Federação Nacional de Comerciantes e Empresários da Colômbia mostrou que mais da metade das empresas entrevistadas reduziu operações noturnas ou passou a encerrar atividades mais cedo.

Além disso, parte dos empresários afirmou ter aumentado preços para compensar os custos adicionais. Outros aceleraram processos de digitalização e automação para manter a produtividade.

Os setores mais impactados foram justamente aqueles que dependem de horários estendidos de funcionamento, como comércio, bares, restaurantes, hotelaria e serviços de vigilância.

Ao mesmo tempo, análises econômicas indicam que a redução da jornada também gerou novas contratações. Uma estimativa da Corficolombiana aponta que centenas de milhares de trabalhadores foram incorporados ao mercado entre 2022 e 2025 para compensar a diminuição das horas trabalhadas por funcionário.

Por outro lado, os analistas observam que essa expansão do emprego veio acompanhada de uma queda na produtividade média, já que o mesmo volume de trabalho passou a ser distribuído entre mais pessoas.

A diferença que pode explicar os resultados colombianos

Especialistas destacam que uma das razões para o impacto moderado da reforma foi a flexibilidade adotada durante sua implementação.

Ao contrário do que está sendo discutido em alguns projetos brasileiros, a legislação colombiana não estabeleceu a obrigatoriedade de dois dias consecutivos de descanso por semana.

Enquanto o Brasil debate mudanças, este país vizinho já colocou a redução da jornada em prática
© YouTube

As empresas também ganharam liberdade para negociar diferentes distribuições da carga horária ao longo da semana. Isso permitiu jornadas mais longas em determinados dias e menores em outros, conforme as necessidades de cada atividade econômica.

Outra mudança importante foi a flexibilização da escolha do dia de descanso semanal. Em vez de concentrar as folgas principalmente nos finais de semana, as empresas passaram a ter mais autonomia para definir quando os funcionários descansariam.

Segundo economistas, essa flexibilidade ajudou especialmente os setores de comércio e serviços, reduzindo parte da pressão provocada pela diminuição da jornada.

A gradualidade também é apontada como um fator decisivo. O processo de adaptação durou cinco anos, dando tempo para ajustes operacionais e planejamento empresarial.

O exemplo do Chile e a tendência que avança pelo mundo

A Colômbia não é o único país da região a seguir esse caminho. O Chile também iniciou uma transição para reduzir sua jornada semanal de 45 para 40 horas.

Além disso, os chilenos já haviam passado por uma experiência semelhante nos anos 2000, quando reduziram a jornada máxima de 48 para 45 horas.

Pesquisas realizadas posteriormente indicaram que os impactos sobre o emprego foram pequenos. Em geral, as empresas conseguiram absorver o aumento do custo por hora trabalhada sem promover grandes cortes de pessoal.

Especialistas atribuem esse resultado ao período de adaptação, que permitiu reorganizar processos produtivos e redistribuir tarefas gradualmente.

Os exemplos observados na América Latina acompanham uma tendência que já vem sendo debatida em diversas economias desenvolvidas, especialmente na Europa. Em alguns países, jornadas inferiores a 40 horas semanais já fazem parte da realidade de determinados setores.

Ainda existe debate sobre os efeitos de longo prazo dessas mudanças. No entanto, uma conclusão parece ganhar força entre pesquisadores: a redução da jornada de trabalho deixou de ser uma discussão isolada e passou a integrar um movimento global que busca equilibrar produtividade, qualidade de vida e competitividade econômica.

[Fonte: BBC]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados