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Enquanto o mundo teme o petróleo, a China aposta em outra corrida estratégica: o urânio

Enquanto as tensões globais pressionam o mercado de petróleo, a China acelera uma estratégia para garantir o combustível do futuro. O objetivo é assegurar autonomia energética nas próximas décadas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Em momentos de crise global, a segurança energética volta ao centro das decisões estratégicas dos países. A guerra no Oriente Médio, que ameaça rotas comerciais e o fluxo de petróleo, reacendeu temores sobre a estabilidade do abastecimento mundial. Mas enquanto muitas economias tentam lidar com essa incerteza, a China parece seguir um caminho diferente. Pequim aposta em uma estratégia de longo prazo que vai muito além do petróleo e pode redefinir o equilíbrio energético global nas próximas décadas.

A obsessão estratégica de Pequim

Enquanto o mundo teme o petróleo, a China aposta em outra corrida estratégica: o urânio
© https://x.com/JoseMaGarciaSua/

Em 2022, ao garantir seu terceiro mandato, o presidente chinês Xi Jinping alertou seus principais líderes sobre a necessidade de se preparar para cenários turbulentos.

Ele descreveu esses riscos como “rinocerontes cinzentos”: ameaças evidentes que muitas vezes são ignoradas até se tornarem inevitáveis.

A guerra no Oriente Médio, que ameaça rotas comerciais vitais, parece confirmar essas preocupações.

Para a China, que depende fortemente de importações de energia, qualquer interrupção no fluxo global de combustíveis representa um risco estratégico.

Por isso, o governo tem reforçado suas reservas de recursos energéticos.

O Ministério das Finanças chinês reservou cerca de 110,6 bilhões de yuans — aproximadamente 16 bilhões de dólares — para o armazenamento estratégico de recursos em 2026.

Durante décadas, economistas ocidentais criticaram esse tipo de política, considerada cara e ineficiente.

No entanto, diante das recentes crises geopolíticas, a estratégia de Pequim passou a ser vista como uma forma de proteção contra choques externos.

O crescimento acelerado da energia nuclear

Enquanto o mundo teme o petróleo, a China aposta em outra corrida estratégica: o urânio
© https://x.com/BrianAlber15395

Embora o petróleo continue sendo essencial, a China tem direcionado parte de sua estratégia energética para outra fonte: a energia nuclear.

O país vem expandindo seu programa nuclear em ritmo acelerado.

No final de 2024, a China possuía 58 reatores nucleares em operação comercial e outros 27 em construção.

O governo também aprova regularmente novos projetos, com cerca de dez ou onze reatores autorizados a cada ano.

A meta é ambiciosa: duplicar a capacidade nuclear até 2040.

Esse crescimento exige uma quantidade cada vez maior de combustível nuclear.

E é justamente aí que surge o principal desafio para Pequim.

A dependência crítica do urânio

Apesar da expansão de seu programa nuclear, a China produz muito pouco urânio em seu território.

Em 2023, a produção doméstica foi de cerca de 1.700 toneladas — apenas 4% da produção global.

Para manter seus reatores funcionando, o país precisa importar grandes volumes desse combustível.

Estima-se que a China tenha importado cerca de 22 mil toneladas de urânio em 2024.

Isso significa que mais de 70% da demanda interna depende de fornecedores estrangeiros.

Essa dependência representa uma vulnerabilidade estratégica semelhante à que o país enfrenta no mercado de petróleo.

Para reduzir esse risco, Pequim iniciou uma ofensiva global para garantir novas fontes de urânio.

O plano chinês para garantir o combustível do futuro

A estratégia chinesa envolve uma combinação de investimentos financeiros, inovação tecnológica e alianças internacionais.

Uma das medidas mais recentes foi o fortalecimento da China National Uranium Co., a única empresa autorizada a explorar urânio no país.

Em dezembro de 2025, a companhia abriu capital na bolsa de Shenzhen e levantou cerca de 570 milhões de dólares.

Os recursos serão usados para ampliar projetos de mineração dentro e fora da China.

Outro elemento central da estratégia pode estar escondido sob as areias do deserto.

Pesquisas indicam a existência de um enorme depósito de urânio no deserto de Ordos, na Mongólia Interior.

O local poderia conter cerca de 30 milhões de toneladas do mineral.

Além disso, cientistas chineses desenvolveram tecnologias de extração conhecidas como lixiviação in situ, que permitem retirar o urânio diretamente do solo de forma mais eficiente.

A China também explora caminhos ainda mais inovadores.

Pesquisadores conseguiram extrair pequenas quantidades de urânio diretamente da água do mar, um avanço considerado promissor para o futuro.

Embora a tecnologia ainda esteja em desenvolvimento, os oceanos contêm reservas gigantescas desse elemento.

Parcerias e alternativas para o futuro nuclear

Para reduzir riscos logísticos, Pequim também busca parcerias com países vizinhos ricos em minerais estratégicos.

A Mongólia, por exemplo, possui importantes depósitos de urânio e pode se tornar um fornecedor importante para a China.

A proximidade geográfica e as conexões ferroviárias tornam essa parceria especialmente atrativa.

Mas o plano chinês vai além do urânio tradicional.

O país também investe em tecnologias nucleares baseadas em tório, um elemento mais abundante que o urânio.

Um exemplo é o reator experimental TMSR-LF1, inaugurado na província de Gansu.

Esse tipo de tecnologia pode representar uma alternativa estratégica caso o mercado de urânio enfrente escassez no futuro.

A energia nuclear também começa a ser usada em novos setores.

Em 2026, a China iniciou o projeto Xuwei, que utiliza reatores nucleares para produzir vapor industrial de alta temperatura.

A iniciativa pode substituir milhões de toneladas de carvão utilizadas na indústria petroquímica.

A corrida energética do século XXI

A instabilidade no Oriente Médio reforçou a importância da segurança energética para grandes potências.

Enquanto muitos países ainda discutem a reconstrução de suas indústrias nucleares, a China parece avançar com uma estratégia mais agressiva.

De minas em desertos a experimentos no oceano, Pequim investe em múltiplas frentes para garantir o combustível necessário para seu futuro energético.

O objetivo não é apenas resistir a crises globais.

A ambição chinesa é assegurar uma posição dominante no sistema energético do século XXI.

[Fonte: Xataka]

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