Em momentos de crise global, a segurança energética volta ao centro das decisões estratégicas dos países. A guerra no Oriente Médio, que ameaça rotas comerciais e o fluxo de petróleo, reacendeu temores sobre a estabilidade do abastecimento mundial. Mas enquanto muitas economias tentam lidar com essa incerteza, a China parece seguir um caminho diferente. Pequim aposta em uma estratégia de longo prazo que vai muito além do petróleo e pode redefinir o equilíbrio energético global nas próximas décadas.
A obsessão estratégica de Pequim

Em 2022, ao garantir seu terceiro mandato, o presidente chinês Xi Jinping alertou seus principais líderes sobre a necessidade de se preparar para cenários turbulentos.
Ele descreveu esses riscos como “rinocerontes cinzentos”: ameaças evidentes que muitas vezes são ignoradas até se tornarem inevitáveis.
A guerra no Oriente Médio, que ameaça rotas comerciais vitais, parece confirmar essas preocupações.
Para a China, que depende fortemente de importações de energia, qualquer interrupção no fluxo global de combustíveis representa um risco estratégico.
Por isso, o governo tem reforçado suas reservas de recursos energéticos.
O Ministério das Finanças chinês reservou cerca de 110,6 bilhões de yuans — aproximadamente 16 bilhões de dólares — para o armazenamento estratégico de recursos em 2026.
Durante décadas, economistas ocidentais criticaram esse tipo de política, considerada cara e ineficiente.
No entanto, diante das recentes crises geopolíticas, a estratégia de Pequim passou a ser vista como uma forma de proteção contra choques externos.
O crescimento acelerado da energia nuclear

Embora o petróleo continue sendo essencial, a China tem direcionado parte de sua estratégia energética para outra fonte: a energia nuclear.
O país vem expandindo seu programa nuclear em ritmo acelerado.
No final de 2024, a China possuía 58 reatores nucleares em operação comercial e outros 27 em construção.
O governo também aprova regularmente novos projetos, com cerca de dez ou onze reatores autorizados a cada ano.
A meta é ambiciosa: duplicar a capacidade nuclear até 2040.
Esse crescimento exige uma quantidade cada vez maior de combustível nuclear.
E é justamente aí que surge o principal desafio para Pequim.
A dependência crítica do urânio
Apesar da expansão de seu programa nuclear, a China produz muito pouco urânio em seu território.
Em 2023, a produção doméstica foi de cerca de 1.700 toneladas — apenas 4% da produção global.
Para manter seus reatores funcionando, o país precisa importar grandes volumes desse combustível.
Estima-se que a China tenha importado cerca de 22 mil toneladas de urânio em 2024.
Isso significa que mais de 70% da demanda interna depende de fornecedores estrangeiros.
Essa dependência representa uma vulnerabilidade estratégica semelhante à que o país enfrenta no mercado de petróleo.
Para reduzir esse risco, Pequim iniciou uma ofensiva global para garantir novas fontes de urânio.
O plano chinês para garantir o combustível do futuro
A estratégia chinesa envolve uma combinação de investimentos financeiros, inovação tecnológica e alianças internacionais.
Uma das medidas mais recentes foi o fortalecimento da China National Uranium Co., a única empresa autorizada a explorar urânio no país.
Em dezembro de 2025, a companhia abriu capital na bolsa de Shenzhen e levantou cerca de 570 milhões de dólares.
Os recursos serão usados para ampliar projetos de mineração dentro e fora da China.
Outro elemento central da estratégia pode estar escondido sob as areias do deserto.
Pesquisas indicam a existência de um enorme depósito de urânio no deserto de Ordos, na Mongólia Interior.
O local poderia conter cerca de 30 milhões de toneladas do mineral.
Além disso, cientistas chineses desenvolveram tecnologias de extração conhecidas como lixiviação in situ, que permitem retirar o urânio diretamente do solo de forma mais eficiente.
A China também explora caminhos ainda mais inovadores.
Pesquisadores conseguiram extrair pequenas quantidades de urânio diretamente da água do mar, um avanço considerado promissor para o futuro.
Embora a tecnologia ainda esteja em desenvolvimento, os oceanos contêm reservas gigantescas desse elemento.
Parcerias e alternativas para o futuro nuclear
Para reduzir riscos logísticos, Pequim também busca parcerias com países vizinhos ricos em minerais estratégicos.
A Mongólia, por exemplo, possui importantes depósitos de urânio e pode se tornar um fornecedor importante para a China.
A proximidade geográfica e as conexões ferroviárias tornam essa parceria especialmente atrativa.
Mas o plano chinês vai além do urânio tradicional.
O país também investe em tecnologias nucleares baseadas em tório, um elemento mais abundante que o urânio.
Um exemplo é o reator experimental TMSR-LF1, inaugurado na província de Gansu.
Esse tipo de tecnologia pode representar uma alternativa estratégica caso o mercado de urânio enfrente escassez no futuro.
A energia nuclear também começa a ser usada em novos setores.
Em 2026, a China iniciou o projeto Xuwei, que utiliza reatores nucleares para produzir vapor industrial de alta temperatura.
A iniciativa pode substituir milhões de toneladas de carvão utilizadas na indústria petroquímica.
A corrida energética do século XXI
A instabilidade no Oriente Médio reforçou a importância da segurança energética para grandes potências.
Enquanto muitos países ainda discutem a reconstrução de suas indústrias nucleares, a China parece avançar com uma estratégia mais agressiva.
De minas em desertos a experimentos no oceano, Pequim investe em múltiplas frentes para garantir o combustível necessário para seu futuro energético.
O objetivo não é apenas resistir a crises globais.
A ambição chinesa é assegurar uma posição dominante no sistema energético do século XXI.
[Fonte: Xataka]