A próxima grande revolução tecnológica pode acontecer em uma escala tão pequena que seus efeitos são praticamente invisíveis. Enquanto a inteligência artificial domina as manchetes, governos estão intensificando investimentos em computação e comunicação quânticas. Agora, os Estados Unidos anunciaram um novo esforço de cooperação com a Coreia do Sul e outros parceiros internacionais. O objetivo não é apenas acelerar descobertas científicas, mas também estabelecer as regras de uma indústria que poderá transformar a economia mundial.
Estados Unidos querem acelerar a revolução quântica
O governo dos Estados Unidos destacou a importância da cooperação internacional em tecnologias quânticas durante a sexta reunião do Quantum Development Group (QDG), realizada na Coreia do Sul.
O encontro reuniu representantes de países interessados em desenvolver aplicações comerciais e científicas dessa tecnologia, além de estabelecer padrões internacionais de segurança.
A delegação americana foi liderada por Adam Cassady, embaixador para Ciberespaço e Política Digital, e Brad Blakestad, representante do Escritório de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca.
Segundo o Departamento de Estado americano, a colaboração envolve três prioridades: pesquisas conjuntas, proteção das cadeias de fornecimento e desenvolvimento de normas internacionais.
A mensagem foi divulgada pelo governo americano em 19 de outubro de 2026 e repercutida pela agência sul-coreana Yonhap.
Washington considera que a tecnologia quântica poderá desempenhar um papel fundamental na segurança das comunicações, na descoberta de medicamentos e no crescimento econômico.
O governo também destacou que participar da definição das regras internacionais será tão importante quanto desenvolver os próprios equipamentos.
Uma aliança internacional reúne 13 países
O Quantum Development Group foi criado em julho de 2024, sob liderança dos Estados Unidos, para promover o desenvolvimento seguro e responsável das tecnologias quânticas.
Atualmente, o grupo reúne 13 países, incluindo Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão e Reino Unido.
A iniciativa busca aproximar governos, universidades, laboratórios e empresas privadas.
Um dos principais objetivos é evitar que o avanço da indústria dependa de cadeias produtivas excessivamente concentradas ou vulneráveis a interrupções.
Isso envolve componentes especializados, equipamentos científicos, materiais de alta pureza e sistemas utilizados na construção de computadores quânticos.
Outro ponto importante é a proteção das pesquisas.
Como essas tecnologias possuem aplicações comerciais e militares, os governos procuram estabelecer mecanismos de cooperação que também considerem riscos relacionados à segurança e à propriedade intelectual.
A Coreia do Sul ocupa uma posição relevante nesse cenário por sua experiência na fabricação de semicondutores, equipamentos eletrônicos e componentes avançados.
Entretanto, a colaboração não significa que os países já tenham desenvolvido computadores quânticos capazes de substituir os sistemas convencionais.
A maior parte das aplicações ainda enfrenta desafios científicos e de engenharia.
Por que a computação quântica desperta tanto interesse?

Os computadores tradicionais utilizam bits, unidades de informação que representam valores de zero ou um.
Os computadores quânticos trabalham com qubits, sistemas físicos que podem explorar propriedades como superposição e emaranhamento quântico.
Essas características permitem realizar determinados tipos de processamento de maneira diferente dos computadores convencionais.
Em aplicações específicas, máquinas quânticas suficientemente avançadas poderão resolver problemas que exigiriam recursos enormes dos sistemas atuais.
Uma das possibilidades mais estudadas envolve a simulação de moléculas e materiais.
Isso poderia ajudar pesquisadores a compreender reações químicas complexas e desenvolver novos medicamentos, baterias e componentes industriais.
Outra área importante é a otimização de processos, embora ainda seja necessário demonstrar vantagens práticas consistentes em muitos desses problemas.
A computação quântica também representa um desafio para a segurança digital.
No futuro, computadores quânticos suficientemente poderosos poderão comprometer alguns métodos de criptografia amplamente utilizados atualmente.
Por isso, governos e empresas estão desenvolvendo sistemas criptográficos resistentes a ataques quânticos, conhecidos como criptografia pós-quântica.
Coreia do Sul se tornou uma parceira estratégica
A cooperação entre Washington e Seul não começou com o encontro de outubro.
Em 2023, os dois países já haviam anunciado uma declaração conjunta para ampliar pesquisas em ciência e tecnologia da informação quântica.
Posteriormente, em outubro de 2025, firmaram um acordo de cooperação tecnológica que incluiu inteligência artificial, telecomunicações 6G, biotecnologia e inovação quântica.
O documento divulgado pela Casa Branca prevê a aproximação entre instituições científicas e o desenvolvimento de padrões tecnológicos compatíveis, além de medidas para fortalecer as cadeias de fornecimento.
A parceria também envolve questões econômicas.
Os Estados Unidos procuram ampliar sua capacidade de inovação e fortalecer a indústria nacional, enquanto a Coreia do Sul busca consolidar sua posição em tecnologias estratégicas.
Para ambos, o desenvolvimento quântico representa uma oportunidade de criar novos mercados e reduzir dependências tecnológicas.
A cooperação com Japão e outros parceiros amplia esse esforço e facilita o intercâmbio de conhecimento científico.
A disputa agora envolve quem definirá as regras
O interesse americano vai além da construção de computadores mais rápidos.
As tecnologias quânticas também incluem sensores de altíssima precisão, sistemas de comunicação e instrumentos científicos capazes de realizar medições difíceis com equipamentos convencionais.
Essas aplicações podem beneficiar áreas como medicina, navegação, pesquisa de materiais e monitoramento ambiental.
Entretanto, transformar descobertas laboratoriais em produtos comerciais exige investimentos elevados, profissionais especializados e padrões técnicos compartilhados.
É justamente nesse ponto que alianças internacionais se tornam importantes.
Quando diferentes países adotam normas compatíveis, empresas e pesquisadores conseguem desenvolver equipamentos que funcionam em conjunto e podem alcançar mercados maiores.
Ao mesmo tempo, essas decisões influenciam quais tecnologias serão utilizadas e quais fornecedores terão acesso a determinados setores.
O encontro na Coreia do Sul demonstra que a corrida quântica deixou de ser apenas uma competição entre laboratórios.
Ela também passou a envolver diplomacia, segurança econômica e decisões sobre a infraestrutura tecnológica das próximas décadas.
Ainda não é possível prever quando os computadores quânticos terão aplicações comerciais em larga escala.
Mas uma coisa já está clara: os países estão tentando estabelecer agora as bases de uma indústria cujos efeitos poderão ser sentidos muito além dos centros de pesquisa.