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Depois de décadas, a Coreia do Sul está virando a página — e quase meio milhão de animais estão no centro da mudança

Uma tradição alimentar que atravessou gerações está desaparecendo rapidamente. Mas, enquanto o costume chega ao fim, milhares de animais e centenas de criadores ficaram no centro de um desafio inesperado.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, alguns dos dias mais quentes do verão sul-coreano eram associados a uma comida que hoje parece pertencer a outra época. O hábito já vinha perdendo força entre os mais jovens, mas uma decisão histórica acelerou seu desaparecimento. Agora, o país entra em uma fase muito mais complicada: encerrar uma indústria inteira significa descobrir o que fazer com tudo o que ela deixou para trás.

Uma tradição que estava desaparecendo antes da lei

Na Coreia do Sul, o bosintang, uma sopa preparada com carne de cachorro, esteve historicamente ligado aos chamados boknal, os três períodos considerados os dias mais quentes do verão. A crença tradicional dizia que o prato ajudava a recuperar energia e resistência durante o calor.

Mas, em 2026, a cena já era muito diferente daquela de décadas atrás. Alguns restaurantes especializados receberam seus últimos clientes enquanto uma tradição alimentar perdia espaço rapidamente. Muitos dos consumidores que ainda procuravam o prato pertenciam às gerações mais velhas, enquanto entre os jovens o cachorro havia adquirido outro significado: o de animal de companhia.

O declínio pode ser medido pelos números. Uma pesquisa governamental mostrou que a parcela de sul-coreanos que havia consumido carne de cachorro no ano anterior caiu de 27% em 2015 para apenas 8% em 2024. Mais de 90% afirmaram que não pretendiam consumir esse tipo de carne no futuro.

A transformação também apareceu nos antigos centros comerciais. No Moran Market, por exemplo, estabelecimentos que antes trabalhavam com carne de cachorro passaram a oferecer alternativas, como ensopados de cabra-preta.

Ou seja, a tradição não estava simplesmente sendo eliminada por uma decisão política. Ela já havia perdido grande parte de seu público.

Coreia Do Sul5
© Humane Society International Korea

A lei resolveu uma parte do problema — e criou outra

Em 2024, o Parlamento sul-coreano aprovou por unanimidade uma lei destinada a acabar com a indústria de carne de cachorro. A legislação proíbe criar, abater, distribuir e vender cães destinados ao consumo humano.

A aplicação completa começa em fevereiro de 2027. As penalidades podem chegar a três anos de prisão ou multas de até 30 milhões de wones.

Mas existe uma diferença importante: a lei não simplesmente transforma o consumidor em criminoso por comer o prato. O objetivo é desmontar toda a cadeia necessária para que ele chegue ao restaurante.

E é justamente aí que começa a parte mais complicada.

Quando a transição foi planejada, o governo contabilizava 1.537 fazendas registradas e aproximadamente meio milhão de cães ligados à atividade. O programa de encerramento prevê compensações financeiras, incentivos e esforços de adoção.

Só que transferir esses animais para novos lares está longe de ser uma tarefa simples. Muitos foram criados especificamente para essa indústria e apresentam características muito diferentes das procuradas normalmente por famílias que querem um animal de estimação.

O destino dos cães pode ser o verdadeiro teste

Durante gerações, os criadores selecionaram cães maiores porque o peso representava mais carne. Para uma família que vive em um apartamento, porém, um animal grande pode ser muito menos atraente do que um cachorro pequeno.

Há ainda outros obstáculos. Alguns cães são da raça Tosa ou cruzamentos sujeitos a restrições específicas, enquanto os abrigos disponíveis no país não possuem capacidade para receber centenas de milhares de animais de uma só vez.

Isso transforma o fim da indústria em um problema logístico, e não apenas cultural ou jurídico.

A Coreia do Sul conseguiu aprovar uma proibição apoiada por ampla maioria da população e praticamente sem oposição no Parlamento. O consumo, por sua vez, já vinha despencando antes mesmo da legislação.

O último verão legal, portanto, não representa simplesmente o desaparecimento de um prato tradicional. Ele marca o início de uma transição muito maior.

A tradição pode estar chegando ao fim, mas as fazendas ainda precisam ser fechadas, os criadores precisam encontrar alternativas e uma enorme quantidade de animais precisa de um novo destino. É essa etapa, muito menos visível que a aprovação da lei, que pode determinar como terminará essa história.

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