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Ciência

Este pequeno lagarto pode ajudar cientistas a desvendar um dos maiores mistérios do câncer

Uma mutação que dá a um lagarto uma aparência incomum também provoca tumores agressivos. Agora, cientistas acreditam que esse animal pode abrir novos caminhos para a pesquisa contra o câncer.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A natureza frequentemente guarda respostas inesperadas para alguns dos maiores desafios da medicina. Desta vez, um pequeno réptil chamou a atenção de pesquisadores por desenvolver espontaneamente um tipo de câncer raro ao longo da vida. Ao investigar seu DNA, cientistas descobriram alterações genéticas semelhantes às observadas em tumores humanos, o que pode transformar esse animal em um importante modelo para futuras pesquisas oncológicas.

Uma mutação rara transforma este lagarto em um modelo natural para estudar o câncer

Este pequeno lagarto pode ajudar cientistas a desvendar um dos maiores mistérios do câncer
© Unsplash

O gecko-leopardo possui uma variedade genética conhecida como lemon frost, facilmente reconhecida por sua coloração branca e amarelada. Mas essa característica tão marcante vem acompanhada de uma consequência grave.

Cerca de 80% desses animais desenvolvem tumores de pele durante a vida, um índice extremamente elevado quando comparado ao observado em outras espécies de répteis.

A descoberta despertou o interesse de pesquisadores da Universidade de Nottingham, Universidade de Birmingham, Universidade Marquette, Universidade da Flórida e Universidade de Trieste, que decidiram investigar o que tornava essa variedade tão vulnerável ao câncer.

Os resultados foram publicados na revista científica BMC Biology.

Diferentemente do que ocorre em modelos tradicionais de laboratório, como os camundongos, os tumores do gecko lemon frost surgem naturalmente, sem necessidade de manipulação genética ou indução química.

Além disso, essas lesões apresentam comportamento agressivo e frequentemente voltam a crescer mesmo após serem removidas por cirurgia.

Essa combinação faz do animal um modelo bastante interessante para compreender como determinados tipos de câncer surgem e evoluem espontaneamente.

O DNA revelou alterações semelhantes às encontradas em tumores humanos

Para entender o que acontece dentro do organismo desses répteis, os pesquisadores compararam o DNA dos tumores com o de tecidos saudáveis dos mesmos animais.

O objetivo era identificar quais alterações genéticas apareciam exclusivamente nas células cancerígenas.

Foram analisadas mutações, fusões entre genes e mudanças na quantidade de material genético presente nas células.

A equipe utilizou técnicas modernas de sequenciamento completo do genoma, permitindo examinar detalhadamente as diferenças entre tecidos normais e tumorais.

Os resultados mostraram que os tumores continham entre 30% e 36% de células afetadas, além de uma quantidade de mutações semelhante à observada em diversos cânceres humanos.

Entre as alterações identificadas estavam mutações no gene TBP, fusões envolvendo os genes IARS1 e RNF213 e perdas ou duplicações em genes já associados ao desenvolvimento de câncer.

Outro achado importante envolveu alterações nos chamados filamentos de actina, estruturas responsáveis por manter a forma das células e permitir seus movimentos.

Segundo os pesquisadores, a desorganização dessas estruturas pode explicar a facilidade com que os tumores do gecko se espalham pelo organismo.

O lagarto pode complementar os modelos tradicionais usados na pesquisa

Os cientistas acreditam que o gecko lemon frost poderá se tornar um aliado importante na chamada oncologia comparada, área que investiga como diferentes espécies desenvolvem ou resistem ao câncer.

Brandon Hastings, um dos autores do estudo, afirmou que analisar organismos de diferentes ramos da árvore da vida pode revelar mecanismos capazes de ampliar o conhecimento sobre doenças que afetam diretamente os seres humanos.

A pesquisa também recebeu comentários do pesquisador argentino Matías Blaustein, da Universidade de Buenos Aires e do CONICET.

Segundo ele, o gecko não deve substituir os camundongos utilizados atualmente nos laboratórios, mas pode preencher lacunas importantes deixadas pelos modelos tradicionais.

Enquanto muitos tumores em roedores precisam ser induzidos artificialmente, os geckos lemon frost desenvolvem câncer espontaneamente, reproduzindo características mais próximas das observadas em pacientes humanos, especialmente no que diz respeito à propagação das metástases.

Os próprios autores reconhecem que o estudo apresenta limitações, como o pequeno número de animais analisados e a baixa quantidade de células tumorais em algumas amostras.

Por isso, os próximos trabalhos deverão incluir um número maior de exemplares e utilizar técnicas de sequenciamento de célula única, capazes de revelar ainda mais detalhes sobre o comportamento dos tumores.

Se essas pesquisas confirmarem os resultados iniciais, esse pequeno lagarto poderá se transformar em uma ferramenta valiosa para compreender como o câncer se desenvolve, se espalha pelo organismo e, futuramente, contribuir para a criação de tratamentos mais eficazes contra uma das doenças que mais desafiam a medicina.

[Fonte: Infobae]

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