Mais de uma década após a histórica passagem da sonda New Horizons por Plutão, a missão da NASA continua revelando novos segredos sobre o planeta anão. Ao revisar imagens registradas durante o sobrevoo de 2015, cientistas identificaram evidências dos primeiros grandes deslizamentos já observados em sua superfície, indicando que processos geológicos continuam moldando esse mundo gelado.
A descoberta foi publicada na revista científica Icarus e descreve seis enormes deslizamentos localizados no interior de três crateras de impacto. O fenômeno é comum na Terra e já havia sido observado em outros corpos do Sistema Solar, mas nunca havia sido confirmado em Plutão.
Imagens antigas revelaram um novo fenômeno
Quando a New Horizons sobrevoou Plutão, em julho de 2015, a missão proporcionou a visão mais detalhada já obtida do planeta anão.
As imagens mostraram montanhas de gelo, extensas planícies congeladas, vales profundos e paisagens muito diferentes das encontradas em outros mundos do Sistema Solar.
Agora, utilizando esses mesmos registros, pesquisadores analisaram novamente os dados capturados pela câmera Long-Range Reconnaissance Imager (LORRI), combinando fotografias de alta resolução com mapas topográficos produzidos durante o sobrevoo.
Essa nova análise revelou estruturas que apresentam todas as características típicas de grandes deslizamentos.
Seis enormes deslizamentos foram identificados
Os cientistas localizaram seis áreas compatíveis com movimentos de massa ao longo das paredes internas de três crateras de impacto.
O maior deslizamento ocupa cerca de 130 quilômetros quadrados, enquanto os demais apresentam escarpas com alturas entre 1.200 e 1.500 metros.
As formações aparecem como estruturas em formato de meia-lua próximas às encostas das crateras.
Na base dessas paredes, os pesquisadores identificaram grandes blocos de gelo e detritos acumulados, exatamente como seria esperado após um deslizamento de grandes proporções.
Como ocorrem os deslizamentos em Plutão
Na Terra, deslizamentos costumam ser provocados por chuvas intensas, terremotos, atividade vulcânica ou pelo derretimento da neve.
Em Plutão, o mecanismo é completamente diferente.
Como o planeta anão possui temperaturas extremamente baixas, sua superfície é composta principalmente por diferentes tipos de gelo. Mesmo assim, a gravidade continua atuando sobre esse material, fazendo com que enormes blocos deslizem pelas encostas das crateras ao longo do tempo.
Esse processo, conhecido como movimento gravitacional de massa, também já foi observado em Marte, no planeta anão Ceres e no asteroide Vesta.
Os pesquisadores já suspeitavam que algo semelhante pudesse ocorrer em Plutão devido ao seu relevo acidentado e às grandes crateras de impacto, mas faltavam evidências diretas para confirmar a hipótese.
A descoberta ajuda a entender a evolução dos mundos gelados
Segundo os autores do estudo, a identificação desses deslizamentos oferece novas pistas sobre os processos geológicos que continuam modificando a superfície de Plutão.
Os pesquisadores afirmam que as observações demonstram que a gravidade desempenha um papel importante na remodelação do relevo do planeta anão e ajudam a compreender como outros corpos gelados do Sistema Solar podem evoluir ao longo de milhões de anos.
Além disso, a maior lua de Plutão, Caronte, já apresentava sinais de deslizamentos semelhantes, sugerindo que esse tipo de fenômeno pode ser relativamente comum em mundos ricos em gelo.
Ainda podem existir muitos outros deslizamentos escondidos
Os cientistas acreditam que os seis deslizamentos identificados representam apenas uma pequena parte dos eventos que ocorreram em Plutão.
Isso acontece porque a New Horizons conseguiu fotografar apenas parte da superfície durante sua rápida passagem pelo sistema plutoniano.
Áreas que não foram registradas em alta resolução podem esconder outras formações semelhantes.
Por isso, futuras missões ao planeta anão poderão produzir imagens mais detalhadas e mapas topográficos muito mais precisos, permitindo identificar novos deslizamentos e compreender melhor a história geológica desse mundo distante.
Mesmo 11 anos após o histórico encontro da New Horizons com Plutão, os dados da missão continuam produzindo descobertas importantes. Cada nova análise mostra que ainda há muito a aprender sobre um dos objetos mais fascinantes e enigmáticos do Sistema Solar.