Trata-se de uma técnica comprovada de controle biológico, usada para eliminar as larvas da mosca do gusano barrenador del ganado — um parasita tropical cujo nome científico, Cochliomyia hominivorax, significa literalmente “comedora de homens”. Essas moscas atacam animais de sangue quente e depositam ovos perto de feridas abertas ou mucosas. As larvas que nascem penetram no tecido vivo, alimentando-se da carne e provocando feridas extremamente dolorosas, podendo levar o hospedeiro à morte. Caso esse parasita se espalhe nos Estados Unidos, poderá causar perdas devastadoras à pecuária, à fauna silvestre e representar riscos sérios à saúde pública.
“Um boi de 500 quilos pode morrer em duas semanas”, afirmou à Associated Press Michael Bailey, presidente eleito da Associação Americana de Medicina Veterinária.
A estratégia contra a praga
Para deter a proliferação, cientistas do USDA estão criando machos adultos dessa mosca, esterilizando-os com radiação e liberando-os de aviões. Ao se acasalarem com fêmeas selvagens, os ovos resultantes não são viáveis, reduzindo progressivamente a população de larvas até a extinção do parasita. Essa abordagem é mais ecológica do que o uso de pesticidas, e apesar de parecer estranha, já provou sua eficácia anteriormente.
“Os EUA já haviam erradicado esse parasita antes, e vamos fazer isso de novo”, garantiu Brooke Rollins, secretária do USDA. Entre 1962 e 1974, EUA e México liberaram mais de 94 bilhões de moscas estéreis, conforme dados do próprio USDA. Até o ano 2000, a praga foi contida ao sul do Panamá, graças a instalações locais especializadas. Pequenos surtos ainda ocorreram ocasionalmente, como nos Cayos da Flórida, em 2017.
“É uma tecnologia excepcional”, disse à Associated Press Edwin Burgess, professor adjunto da Universidade da Flórida e estudioso de parasitas do gado. “É um exemplo brilhante de como a ciência pode resolver problemas críticos.”
Expansão recente e resposta emergencial
Nos últimos anos, as populações dessas moscas começaram a migrar para o norte. De acordo com a Agência Agrícola dos EUA, foram detectadas presenças preocupantes no México, inclusive nos estados de Oaxaca e Veracruz, a cerca de 1.127 km da fronteira americana. Diante disso, em 11 de maio, os EUA suspenderam as importações de gado, cavalos e bisões.
No dia 18 de junho, Rollins anunciou a construção de uma nova instalação para liberação de moscas estéreis na Base Aérea de Moore, no sul do Texas. A estrutura, prevista para ser concluída até o fim do ano, permitirá a produção de até 300 milhões de moscas estéreis por semana. Essa produção reforçará as instalações já existentes no Panamá e no México.
Além disso, o USDA destinou US$ 21 milhões para modernizar a fábrica de Metapa, no México, que acrescentará entre 60 a 100 milhões de moscas estéreis semanais à operação. Com o suporte do Panamá, a expectativa é de liberar pelo menos 160 milhões de moscas por semana para conter o avanço da praga.
Primeiros resultados e futuro da campanha
Os primeiros sinais da nova estratégia já são animadores. Desde a suspensão das importações em maio, o USDA lançou mais de 100 milhões de moscas estéreis no México. Segundo comunicado divulgado em 30 de junho, não houve aumento significativo de infecções causadas pela larva no território mexicano, nem avanço da praga rumo ao norte nas últimas oito semanas. Com base nesses resultados, o governo anunciou a reabertura gradual da entrada de gado pelo sul a partir de 7 de julho.
Embora os resultados iniciais sejam positivos, os especialistas alertam que o aquecimento global poderá facilitar a migração de parasitas tropicais para áreas mais ao norte, ampliando os riscos para a agricultura, biodiversidade e saúde pública nos Estados Unidos. Por isso, programas de esterilização e liberação de moscas devem se tornar ainda mais essenciais no futuro.
Burgess defende que as fábricas de moscas continuem ativas mesmo após o controle da ameaça atual. “Acreditamos que vencemos e temos tudo sob controle, mas esse tipo de ameaça sempre pode voltar”, concluiu.