A União Europeia deu mais um passo importante para transformar o euro digital em realidade. Nesta quinta-feira, o Parlamento Europeu aprovou sua posição sobre o projeto e abriu caminho para as negociações finais com o Conselho da União Europeia. Se o cronograma for mantido, o marco legal ficará pronto até o fim de 2026, permitindo que o Banco Central Europeu (BCE) lance a versão digital do euro em 2029. A iniciativa faz parte da estratégia europeia para fortalecer sua autonomia financeira e reduzir a dependência de empresas americanas que dominam os pagamentos eletrônicos.
Parlamento Europeu acelera a criação do euro digital
A proposta recebeu amplo apoio dos parlamentares. O texto foi aprovado por 416 votos favoráveis, 169 contrários e 22 abstenções. A oposição ficou concentrada principalmente entre partidos da direita mais radical do Parlamento Europeu.
Com essa votação, o Parlamento inicia a etapa decisiva das negociações com o Conselho da União Europeia. Os dois órgãos precisarão chegar a um texto comum antes que o BCE possa seguir com os preparativos para emitir oficialmente o euro digital.
O caminho até aqui, no entanto, esteve longe de ser simples. Quando a Comissão Europeia apresentou o projeto, há cerca de três anos, havia divergências importantes entre os grupos políticos e também entre as instituições europeias.
O eurodeputado espanhol Fernando Navarrete, responsável pelo relatório no Parlamento, defendia inicialmente que o euro digital fosse lançado apenas em uma versão offline para pagamentos cotidianos. O modo online seria ativado apenas caso o setor privado não oferecesse alternativas competitivas às bandeiras americanas de cartões, como Visa, Mastercard e American Express. Após meses de negociações, sua posição acabou se aproximando da dos demais grupos políticos.
Mudança geopolítica fortaleceu o projeto

O retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos acabou alterando o debate dentro da Europa. As tensões geopolíticas reforçaram a percepção de que o bloco depende excessivamente de empresas americanas para processar pagamentos eletrônicos.
Embora soluções europeias como Bizum, na Espanha, e Wero, presente em países como Bélgica e França, existam há anos, elas ainda não conseguiram competir em escala com os gigantes internacionais do setor.
As recentes disputas comerciais entre Estados Unidos e União Europeia, além de episódios como as declarações de Trump sobre a Groenlândia, deram novos argumentos aos defensores do euro digital. Para muitos líderes europeus, criar uma infraestrutura própria de pagamentos tornou-se uma questão de soberania econômica.
Bancos continuam demonstrando preocupação

O setor bancário europeu, porém, continua demonstrando resistência ao projeto.
As instituições financeiras argumentam que uma moeda digital emitida diretamente pelo Banco Central pode afetar a estabilidade financeira e reduzir parte dos depósitos atualmente mantidos nos bancos comerciais. Além disso, o setor afirma que a dependência tecnológica continuaria existindo, já que os smartphones utilizados pelos consumidores são fabricados principalmente por empresas dos Estados Unidos, China e Coreia do Sul.
Apesar dessas críticas, a proposta segue avançando dentro das instituições europeias.
Quanto dinheiro poderá ficar no euro digital?
Uma das principais dúvidas ainda não será resolvida durante a negociação da legislação: qual será o limite de recursos que cada cidadão poderá manter em euro digital.
Essa decisão caberá posteriormente ao Eurogrupo, que reúne os ministros das Finanças dos países da zona do euro, juntamente com o Banco Central Europeu.
Outro tema sensível envolve as possíveis tarifas cobradas pelos bancos comerciais. Embora o BCE seja o responsável pela infraestrutura da moeda digital e pela carteira eletrônica dos usuários, a expectativa é que o relacionamento com os cidadãos continue sendo realizado por meio das instituições financeiras tradicionais.
Nos próximos meses, esse será um dos pontos centrais das negociações, já que os bancos defendem limites mais baixos para preservar seu modelo de negócios, enquanto as autoridades europeias buscam criar um sistema de pagamentos mais independente, seguro e preparado para os desafios da economia digital.
[ Fonte: El País ]