O narcotráfico atravessa uma das maiores transformações das últimas décadas. Enquanto governos reforçam o combate às drogas tradicionais, organizações criminosas adotam novas estratégias, exploram tecnologias, desenvolvem substâncias sintéticas e ampliam sua presença em mercados antes considerados secundários. Um relatório recém-divulgado pela Organização das Nações Unidas revela que essa mudança acontece em ritmo acelerado e já produz impactos significativos na saúde pública, na segurança e na economia de diversos países.
ONU aponta expansão global do narcotráfico e surgimento de centenas de novas drogas

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) divulgou um relatório que traça um panorama preocupante sobre a evolução do mercado mundial de drogas. Segundo o documento, o crime organizado vem aproveitando avanços tecnológicos, instabilidade política e mudanças nas rotas internacionais para expandir suas atividades e diversificar cada vez mais os produtos comercializados.
De acordo com a agência, traficantes têm investido na criação de novas substâncias psicoativas, na adaptação constante de seus métodos de transporte e na abertura de mercados ainda pouco explorados. A combinação desses fatores tornou o combate ao narcotráfico mais complexo do que em anos anteriores.
A diretora executiva do UNODC, Monica Juma, afirmou que o mundo enfrenta um crescimento sem precedentes na oferta de novas drogas, muitas delas mais potentes e perigosas do que as conhecidas anteriormente. Segundo ela, essa evolução tem provocado consequências severas, como mortes prematuras, aumento da violência, fortalecimento das organizações criminosas e impactos negativos sobre economias locais e comunidades inteiras.
O relatório também reforça a necessidade de ampliar a cooperação internacional para enfrentar o problema. Entre as medidas apontadas estão o compartilhamento de informações de inteligência, operações conjuntas entre países, fortalecimento das ações de prevenção e ampliação do acesso ao tratamento para pessoas com dependência química.
Os números mostram a dimensão desse cenário. Em 2024, cerca de 331 milhões de pessoas consumiram algum tipo de droga no mundo, o equivalente a 6,2% da população entre 15 e 64 anos. Dez anos antes, esse percentual era de 5,2%.
A cannabis continua sendo a droga ilícita mais consumida, com aproximadamente 256 milhões de usuários. Em seguida aparecem os opioides, utilizados por cerca de 63 milhões de pessoas, além de anfetaminas, cocaína e ecstasy.
Drogas sintéticas e novas rotas desafiam autoridades em vários continentes

O relatório destaca que os fabricantes continuam inovando para escapar da fiscalização. Em 2024, as apreensões registraram uma variedade de drogas cinco vezes maior do que aquela existente antes dos anos 2000.
Ao todo, foram identificadas 755 novas substâncias psicoativas em circulação nos mercados ilegais, das quais 118 apareceram pela primeira vez apenas no último ano. Esse crescimento demonstra a rapidez com que laboratórios clandestinos conseguem modificar fórmulas químicas para escapar das listas de substâncias proibidas.
No mercado de opioides, o documento aponta uma mudança importante. A forte redução da produção de ópio no Afeganistão após a proibição imposta em 2022 diminuiu significativamente a oferta mundial de heroína. Embora Myanmar, Laos e México tenham ampliado sua produção, os volumes ainda não compensam a queda registrada no território afegão.
Ao mesmo tempo, cresce a presença de opioides sintéticos, como o fentanil, seus análogos, os nitazenos e as orfinas. Segundo a ONU, esse movimento pode representar uma transformação permanente no mercado global, com organizações criminosas substituindo gradualmente drogas de origem vegetal por compostos produzidos em laboratório.
A metanfetamina também segue em expansão. Novas rotas de tráfico impulsionaram a chegada da droga ao Oriente Médio, partes da África e regiões da Europa. As apreensões aumentaram, em média, 13% ao ano, principalmente devido ao crescimento da produção no Leste e Sudeste Asiático.
Produção de cocaína bate recordes e consumo continua crescendo
Outro ponto de destaque do relatório é a evolução da cocaína. Segundo o UNODC, a produção mundial continuou aumentando em 2024 e hoje supera quatro vezes os níveis registrados há dez anos, ultrapassando a marca estimada de 4 mil toneladas de cocaína pura.
As organizações criminosas vêm direcionando volumes cada vez maiores para mercados tradicionais, como Europa Ocidental, América do Norte e Oceania, mas também investem fortemente em novos destinos para ampliar o número de consumidores e aumentar os lucros.
No caso da cannabis, a ONU identifica mudanças importantes relacionadas à legalização e à descriminalização adotadas por diferentes países, principalmente na América do Norte. Essas transformações alteraram padrões de produção, circulação e consumo da droga.
O número de usuários cresceu cerca de 40% na última década, enquanto a proporção da população consumidora passou de 3,8% para 4,8% entre 2014 e 2024. Paralelamente, as apreensões de cannabis atingiram níveis históricos no último ano.
O relatório também destaca que os impactos do consumo de drogas vão além da saúde. A dependência pode estar associada ao aumento de crimes patrimoniais, episódios de violência doméstica e maior vulnerabilidade das pessoas que fazem uso dessas substâncias. No entanto, a ONU ressalta que fatores como pobreza, falta de moradia, problemas de saúde mental e acesso limitado a serviços públicos também influenciam diretamente esses desfechos.
Diante desse cenário, a organização conclui que o enfrentamento ao narcotráfico exige uma estratégia integrada, capaz de combinar repressão ao crime organizado, prevenção, tratamento e políticas sociais para reduzir a vulnerabilidade das populações mais afetadas.
[Fonte: Diarioelzonda]