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Ciência

Existe uma misteriosa “mancha fria” no Atlântico que desafia o aquecimento global — e cientistas acreditam que ela pode revelar um dos maiores riscos para o clima da Terra

Enquanto os oceanos do planeta registram temperaturas cada vez mais altas, uma região ao sul da Groenlândia segue o caminho oposto. O fenômeno intriga pesquisadores há décadas e novas evidências sugerem que ele pode ser um dos sinais mais claros de uma mudança profunda nas correntes oceânicas que regulam o clima global.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O aquecimento global vem elevando a temperatura dos oceanos em praticamente todo o planeta. No entanto, existe uma exceção que desafia essa tendência. Localizada entre a Groenlândia e a Islândia, uma área do Atlântico Norte vem apresentando um resfriamento persistente desde o século XIX. Conhecida como “mancha fria” — ou warming hole, em inglês — essa região voltou ao centro das atenções após novos estudos indicarem que ela pode estar ligada ao enfraquecimento de uma das mais importantes correntes oceânicas da Terra.

Uma anomalia que desafia o aquecimento global

Cientistas Descobriram Que O Derretimento Da Groenlândia Pode Liberar Enormes Reservas De Metano Presas Sob O Oceano
© Tina Rolf- Unsplash

Embora a temperatura média dos oceanos continue aumentando devido às mudanças climáticas, essa região específica registrou uma queda de aproximadamente 1 °C desde o século XIX.

Durante anos, cientistas discutiram se esse comportamento incomum era provocado por alterações na atmosfera ou por mudanças nas correntes marinhas. Hoje, as evidências apontam para a segunda hipótese.

Segundo pesquisadores, o resfriamento não acontece apenas na superfície do mar. As alterações ocorrem principalmente nas camadas mais profundas do oceano, indicando que a origem do fenômeno está ligada à circulação das águas do Atlântico.

O papel da AMOC no equilíbrio climático

No centro dessa investigação está a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês), um enorme sistema de correntes oceânicas que funciona como uma esteira transportadora de calor.

Esse mecanismo leva águas quentes dos trópicos em direção ao Atlântico Norte. À medida que essas águas esfriam, tornam-se mais densas e afundam, retornando para o sul em grandes profundidades. Esse ciclo ajuda a distribuir calor pelo planeta e desempenha um papel essencial na regulação do clima.

Quando a AMOC perde força, menos calor chega às regiões próximas da Groenlândia, favorecendo o surgimento da chamada mancha fria.

Novos estudos reforçam a ligação entre os dois fenômenos

Pesquisadores liderados pelo climatologista Stefan Rahmstorf analisaram registros históricos de temperatura e dados de satélites coletados desde 1870 para compreender a origem dessa anomalia.

Os resultados, publicados na revista Geophysical Research Letters, mostram que a quantidade de calor armazenada nas águas superficiais e nos primeiros mil metros de profundidade diminuiu significativamente nas últimas cinco décadas.

Além disso, os cientistas observaram que o oceano também passou a liberar menos calor para a atmosfera, fortalecendo a hipótese de que o enfraquecimento da AMOC seja o principal responsável pelo fenômeno.

Segundo os autores, a mancha fria representa uma das evidências mais claras de que o sistema de circulação oceânica do Atlântico está mudando.

Um possível ponto de não retorno preocupa especialistas

O enfraquecimento da AMOC é considerado uma das maiores preocupações atuais da climatologia.

De acordo com o estudo, existe a possibilidade de que esse sistema se aproxime de um ponto crítico, conhecido como “ponto de não retorno”. A partir desse limite, pequenas mudanças adicionais poderiam provocar alterações rápidas ou até um colapso da circulação oceânica.

Rahmstorf afirma que, nos últimos anos, passou a considerar esse cenário muito mais plausível do que imaginava anteriormente.

As projeções indicam que a intensidade da AMOC pode diminuir entre 43% e 59% até o fim do século, valores significativamente superiores aos estimados por modelos climáticos anteriores.

O que pode acontecer se a circulação oceânica enfraquecer

Oceano Índico
© John Cameron – Unsplash

As consequências de um enfraquecimento severo da AMOC vão muito além da região do Atlântico Norte.

Uma redução significativa do transporte de calor pode alterar profundamente o clima europeu, aumentando a frequência de eventos extremos e afetando a agricultura em diversas regiões.

Alguns modelos climáticos indicam que, em um cenário de colapso completo da circulação, determinadas áreas do Hemisfério Norte poderiam registrar quedas de temperatura de até 15 °C.

Os impactos também alcançariam a costa leste da América do Norte, onde o aumento do nível do mar poderá ser intensificado devido às mudanças na dinâmica das correntes oceânicas.

Embora ainda não exista consenso sobre quando essas transformações poderiam ocorrer, a comunidade científica considera cada vez mais importante monitorar a evolução da mancha fria. Para muitos pesquisadores, ela funciona como um alerta de que um dos principais reguladores do clima terrestre pode estar passando por mudanças mais rápidas do que se imaginava.

 

[ Fonte: La Nación ]

 

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