Uma das ideias mais importantes da cosmologia moderna voltou ao centro das discussões. Um novo estudo sugere que a aparente aceleração da expansão do Universo pode ter sido influenciada pelo movimento em grande escala das galáxias próximas de nós.
A pesquisa, publicada na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, questiona se parte do sinal interpretado como aceleração cósmica poderia surgir da posição e do movimento do nosso ambiente no Universo.
Caso a hipótese seja confirmada, as consequências seriam importantes para a cosmologia. Isso porque a expansão acelerada é uma das principais evidências usadas para sustentar a existência da energia escura, componente ainda misterioso que representaria grande parte do conteúdo energético do Universo.
Supernovas mudaram nossa visão do Universo

No final da década de 1990, observações de supernovas do tipo Ia levaram astrônomos a uma conclusão surpreendente: em vez de desacelerar devido à gravidade, a expansão do Universo parecia estar acelerando.
Essas explosões estelares são particularmente importantes porque apresentam propriedades de luminosidade que permitem aos cientistas estimar suas distâncias.
Ao comparar a distância de uma supernova com a velocidade de afastamento de sua galáxia, os astrônomos conseguem reconstruir diferentes etapas da história da expansão cósmica.
Foi justamente esse método que forneceu algumas das principais evidências da aceleração do Universo.
Para explicar o fenômeno, os cosmólogos introduziram a energia escura, uma forma desconhecida de energia capaz de produzir um efeito equivalente a uma pressão negativa em escalas cosmológicas.
O novo estudo coloca outra possibilidade sobre a mesa.
Nosso movimento pelo cosmos pode interferir nas medições
Os pesquisadores analisaram como a distribuição e o movimento das galáxias próximas poderiam afetar as observações das supernovas.
A ideia central é que a Terra, o Sistema Solar e a Via Láctea não estão simplesmente parados enquanto observam o restante do Universo.
Nossa galáxia participa de movimentos coletivos provocados pela distribuição de matéria ao redor dela. Em escalas ainda maiores, conjuntos inteiros de galáxias também podem apresentar movimentos coordenados, conhecidos como fluxos cósmicos.
Se estivermos dentro de uma dessas grandes correntes, as medições realizadas em diferentes direções do céu poderiam apresentar pequenas diferenças.
Essas variações, segundo os pesquisadores, podem acabar influenciando a interpretação da expansão cósmica.
A aceleração do Universo poderia ser uma ilusão?

Subir Sarkar, cosmólogo e um dos autores do estudo, defende que a aceleração deduzida a partir das supernovas do tipo Ia pode ter sido parcialmente interpretada de maneira equivocada.
Se o efeito estiver realmente relacionado ao nosso movimento local, ele deveria apresentar uma direção preferencial alinhada com esse fluxo cósmico.
Além disso, o sinal deveria diminuir conforme os astrônomos observassem objetos suficientemente distantes.
Essa seria uma diferença fundamental em relação à energia escura.
Em um Universo dominado por energia escura, a aceleração seria uma propriedade global do cosmos. Ela não deveria depender significativamente da direção em que observamos o céu.
Encontrar uma forte dependência direcional poderia indicar que parte do fenômeno tem uma origem mais local.
Isso significa que a energia escura não existe?
Ainda não.
O novo estudo não demonstra que décadas de cosmologia estejam erradas nem elimina a energia escura. Ele apresenta uma interpretação alternativa para determinadas observações e reacende um debate que já existe entre cosmólogos.
A expansão acelerada também é estudada utilizando outras fontes de informação além das supernovas.
Observações da radiação cósmica de fundo, da distribuição das galáxias e das oscilações acústicas bariônicas ajudam a construir o atual modelo cosmológico.
Por isso, qualquer alternativa precisa explicar simultaneamente diferentes conjuntos de dados.
Além disso, resultados extraordinários precisam ser reproduzidos e confrontados com análises independentes antes de provocar uma mudança profunda no modelo cosmológico.
Um debate que pode mudar nossa compreensão do cosmos
A questão é particularmente relevante porque a natureza da energia escura continua sendo um dos maiores mistérios da física.
No modelo cosmológico padrão, aproximadamente 70% do conteúdo energético do Universo está associado a esse componente desconhecido.
Apesar disso, ninguém sabe exatamente o que ele é.
Uma possibilidade é que esteja relacionado à constante cosmológica prevista pelas equações de Albert Einstein. Outra hipótese envolve campos ou fenômenos físicos ainda desconhecidos.
Também existe a possibilidade de que nossa compreensão da gravidade precise ser modificada em escalas cosmológicas.
Agora, o movimento da nossa própria região do Universo volta a entrar nessa discussão.
Se futuras observações mostrarem que a aparente aceleração possui uma orientação relacionada ao fluxo cósmico local, os cientistas poderão precisar revisar parte da interpretação das supernovas.
Por enquanto, porém, a expansão acelerada continua sendo uma das bases da cosmologia moderna.
O novo trabalho não encerra essa história. Pelo contrário: mostra que, mesmo depois de décadas de observações, algumas das perguntas mais fundamentais sobre o Universo permanecem abertas.
[ Fonte: Marca ]