Pular para o conteúdo
Ciência

Florestas definharam durante um antigo aquecimento global — e a história pode se repetir

Há cerca de 56 milhões de anos, um rápido aumento das temperaturas transformou profundamente as florestas da Terra. Agora, cientistas alertam que as mudanças climáticas atuais avançam em um ritmo até dez vezes mais rápido.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Muito antes de seres humanos começarem a queimar combustíveis fósseis, a Terra passou por um episódio de aquecimento capaz de transformar drasticamente seus ecossistemas. Há aproximadamente 56 milhões de anos, uma intensa atividade vulcânica liberou enormes quantidades de gases de efeito estufa na atmosfera, provocando uma rápida elevação da temperatura global.

O período ficou conhecido como Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno, ou PETM. Por apresentar algumas semelhanças com o que acontece atualmente, ele é considerado um dos melhores exemplos naturais para investigar as possíveis consequências das mudanças climáticas modernas.

Uma nova pesquisa mostra que, naquela época, as florestas ficaram significativamente menos densas e perderam parte de sua capacidade de armazenar carbono.

Cientistas reconstruíram uma floresta de 56 milhões de anos

Liderados pela paleobotânica Regan Dunn, do Natural History Museum of Los Angeles County, pesquisadores analisaram fósseis vegetais encontrados na Bacia de Hanna, no estado americano de Wyoming.

A região possui camadas profundas de carvão e rochas ricas em matéria orgânica, permitindo encontrar folhas fossilizadas preservadas desde o PETM.

Os cientistas concentraram a análise nas células epidérmicas dessas folhas.

Essas estruturas microscópicas funcionam como pequenas peças de quebra-cabeça. Seu formato pode mudar dependendo da quantidade de luz recebida pela folha durante seu desenvolvimento.

A equipe percebeu que essa característica poderia ser utilizada para estimar o chamado índice de área foliar, medida que indica a quantidade de folhas presentes na cobertura de uma floresta.

Primeiro, os pesquisadores testaram o método utilizando árvores modernas. Depois de confirmar uma forte relação entre o formato das células e a densidade da vegetação, aplicaram a técnica aos fósseis.

O resultado revelou uma transformação surpreendente.

A floresta ficou até 61% menos densa

Seria possível imaginar que o aumento da concentração de dióxido de carbono beneficiasse as plantas. Afinal, elas utilizam CO₂ durante a fotossíntese.

Mas foi exatamente aí que apareceu o problema.

Embora mais dióxido de carbono possa estimular o crescimento vegetal em determinadas condições, temperaturas extremas e falta de água também aumentam o estresse das árvores.

Durante o PETM, esses efeitos negativos aparentemente acabaram superando os possíveis benefícios.

A análise mostrou que a cobertura da floresta da Bacia de Hanna ficou, em média, cerca de 35% menos densa durante o período de aquecimento.

A mudança mais intensa aconteceu logo no início do evento, quando o índice de área foliar apresentou uma queda próxima de 61%.

Os pesquisadores relacionam essa redução principalmente às secas provocadas pelo aumento das temperaturas e pelas alterações nos padrões de precipitação.

O mesmo problema pode estar começando novamente

Essa descoberta chama atenção porque processos semelhantes já estão sendo observados atualmente.

Durante décadas, o aumento do CO₂ atmosférico contribuiu para uma expansão global da vegetação. Porém, desde aproximadamente o início deste século, sinais dessa tendência começaram a enfraquecer em grande parte das áreas vegetadas do planeta.

Calor extremo e secas cada vez mais intensas podem limitar a produtividade das plantas, anulando parte dos benefícios proporcionados pela maior disponibilidade de dióxido de carbono.

Isso cria um problema particularmente perigoso.

As florestas funcionam como enormes reservatórios naturais de carbono. Quando crescem, retiram CO₂ da atmosfera e armazenam parte desse carbono em troncos, folhas, raízes e solos.

Se as árvores começarem a morrer ou crescer menos, essa capacidade diminui.

Algumas projeções indicam que o carbono armazenado na biomassa acima do solo das florestas pode cair significativamente até 2100 caso as tendências atuais continuem.

Um perigoso ciclo de retroalimentação

A perda de capacidade das florestas de absorver carbono pode acelerar ainda mais as mudanças climáticas.

Temperaturas maiores provocam mais estresse nas árvores. Florestas enfraquecidas capturam menos CO₂. Mais dióxido de carbono permanece na atmosfera e intensifica o aquecimento.

Esse processo pode formar um ciclo de retroalimentação difícil de interromper.

Existe, porém, espaço para agir. Projetos de reflorestamento em diferentes partes do planeta mostram que políticas de recuperação florestal podem aumentar novamente a quantidade de vegetação e sua capacidade de armazenar carbono.

O problema é a diferença de velocidade entre destruição e recuperação.

Hoje, o aquecimento acontece muito mais rápido

O PETM é particularmente importante porque permite observar como ecossistemas responderam a uma enorme liberação natural de carbono.

Mas existe uma diferença preocupante.

Segundo estimativas científicas, a taxa atual de liberação de carbono causada pela queima de combustíveis fósseis pode ser aproximadamente dez vezes mais rápida do que durante aquele antigo episódio.

Os pesquisadores agora querem investigar fósseis de outras regiões para descobrir se a redução das florestas ocorreu globalmente, principalmente nas áreas tropicais.

Compreender isso pode ajudar a prever o futuro de ecossistemas como a Amazônia, que já enfrenta simultaneamente desmatamento, secas e temperaturas maiores.

Há 56 milhões de anos, as florestas acabaram se recuperando. Mas o planeta precisou de uma escala de tempo gigantesca para eliminar o excesso de carbono.

A história mostra que a natureza consegue se adaptar. A questão é se as florestas modernas terão tempo suficiente para acompanhar a velocidade das mudanças que estamos provocando.

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados