Durante décadas, uma vasta região árida entre o Nilo e o Mar Vermelho parecia guardar apenas areia, pedras e silêncio. Mas imagens de satélite revelaram algo completamente inesperado sob o deserto africano. Utilizando plataformas como Google Earth, arqueólogos identificaram centenas de estruturas gigantescas pertencentes a uma sociedade desconhecida que viveu há mais de cinco mil anos. O achado está sendo tratado como uma das descobertas arqueológicas mais importantes recentes sobre os povos nômades do nordeste da África.
As estruturas gigantes apareceram no meio do deserto

A descoberta aconteceu no deserto de Atbai, localizado no leste do Sudão, em uma área extremamente difícil de acessar por expedições tradicionais.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade Macquarie, da unidade francesa HiSoMA e da Academia Polonesa de Ciências.
Usando imagens de satélite de alta resolução, os arqueólogos mapearam quase mil quilômetros quadrados da região e identificaram 260 estruturas monumentais desconhecidas até então.
Os recintos possuem formato circular e são cercados por muros de pedra que, em alguns casos, chegam a atingir 80 metros de diâmetro.
Segundo os pesquisadores, essas construções funcionavam principalmente como espaços funerários.
Dentro delas foram encontrados vestígios de sepultamentos humanos e restos de animais como bois, cabras e ovelhas.
A presença constante do gado chamou atenção dos cientistas porque sugere que esses animais tinham importância muito maior do que simples fonte de alimento.
Os pesquisadores acreditam que os rebanhos funcionavam como símbolo de riqueza, prestígio e organização social dentro daquela civilização.
Segundo os autores do estudo, possuir grandes quantidades de gado naquela época equivaleria, simbolicamente, a ostentar um item de luxo extremamente valioso.
A descoberta desafia antigas ideias sobre povos nômades
O estudo revelou que essas comunidades estavam longe de ser grupos desorganizados vagando pelo deserto.
As estruturas aparecem estrategicamente distribuídas próximas a antigos cursos d’água, lagoas sazonais e áreas capazes de sustentar rebanhos mesmo em períodos de clima mais seco.
Isso indica um conhecimento sofisticado do ambiente e uma capacidade avançada de adaptação às mudanças climáticas que atingiram a região após o fim do chamado Período Úmido Africano.
Outro detalhe importante está na organização interna dos túmulos.
Em vários recintos, os sepultamentos foram posicionados ao redor de um enterramento central mais destacado, sugerindo a existência de lideranças ou elites tribais.
Segundo os pesquisadores, isso pode representar um dos primeiros sinais de desigualdade social entre povos nômades da região do Saara.
Durante décadas, arqueólogos discutiram quando sociedades pastorais começaram a desenvolver estruturas hierárquicas mais complexas.
Agora, a descoberta em Atbai fornece novas pistas sobre esse processo.
Os cientistas acreditam que a construção desses monumentos exigia enorme coordenação coletiva, mobilização de mão de obra e forte organização social.
Além disso, muitas dessas estruturas continuaram sendo reutilizadas como cemitérios por populações posteriores durante milhares de anos.
O patrimônio milenar já está ameaçado antes mesmo de ser totalmente estudado
Apesar da importância arqueológica da descoberta, os pesquisadores alertam que parte desse patrimônio já corre risco sério de destruição.
A mineração ilegal de ouro e atos de vandalismo vêm causando danos severos em regiões como Wadi Gabgaba, onde alguns dos monumentos já foram destruídos em poucos dias.
Segundo os cientistas, ao menos uma dúzia de sítios sofreu danos irreversíveis antes mesmo de serem totalmente documentados.
Isso preocupa os arqueólogos porque muitos desses vestígios sobreviveram intactos durante mais de cinco mil anos, resistindo a mudanças climáticas extremas e ao avanço do deserto.
Agora, a atividade humana moderna pode apagar rapidamente registros fundamentais da história africana.
Os pesquisadores destacam que o uso de tecnologias como Google Earth está revolucionando a arqueologia justamente porque permite localizar estruturas escondidas em regiões inacessíveis ou politicamente instáveis.
Mas eles alertam que descobrir os sítios é apenas o primeiro passo.
Sem medidas de proteção urgentes, parte dessa civilização recém-revelada pode desaparecer antes que a ciência compreenda completamente quem eram essas pessoas, como viviam e qual papel desempenharam no surgimento das primeiras sociedades complexas do nordeste africano.
[Fonte: La Nacion]