A ideia de congelar corpos humanos para trazê-los de volta à vida no futuro sempre ocupou um espaço estranho entre ficção científica, filosofia e promessas futuristas da indústria da longevidade. Durante décadas, a criogenia foi tratada mais como curiosidade cultural do que como possibilidade científica real.
Mas um novo estudo publicado na revista PLOS One mostra que parte da comunidade médica talvez esteja começando a enxergar o tema de forma menos fantasiosa do que se imaginava.
Pesquisadores liderados pelo neurocientista Ariel Zeleznikow-Johnston, da Universidade Monash, na Austrália, entrevistaram mais de 300 médicos de diferentes especialidades para entender como profissionais da saúde avaliam a possibilidade de preservar cérebros ou corpos humanos em estado de suspensão extrema visando uma futura reanimação.
E os resultados chamaram atenção principalmente por um detalhe: neurocirurgiões se mostraram surpreendentemente otimistas.
O que é a criogenia humana
A criogenia — ou criopreservação — consiste em preservar corpos ou cérebros humanos em temperaturas extremamente baixas logo após a morte legal do paciente.
A ideia é impedir a degradação das estruturas cerebrais e celulares até que tecnologias futuras sejam capazes de reparar danos, curar doenças fatais e, teoricamente, restaurar a consciência da pessoa preservada.
Hoje, não existe nenhuma técnica capaz de reviver um ser humano criopreservado. Nenhum mamífero complexo jamais foi congelado e trazido de volta à vida sem danos severos.
Mesmo assim, empresas de biostase e organizações ligadas à longevidade continuam investindo em métodos cada vez mais sofisticados de preservação cerebral.
Neurocirurgiões foram os médicos mais otimistas
No total, 27,9% dos médicos entrevistados consideraram “plausível” ou “muito plausível” que a criopreservação possa algum dia permitir algum tipo de reanimação futura.
Mas o cenário mudou drasticamente quando os pesquisadores separaram os resultados por especialidade médica.
Os neurocirurgiões apresentaram uma estimativa mediana de 72% de chance de sucesso na preservação de informações psicológicas críticas do cérebro humano — um número muito superior à média geral do estudo, que ficou em apenas 25,5%.
Segundo Zeleznikow-Johnston, isso pode acontecer porque profissionais que trabalham diretamente com cérebros e pacientes terminais tendem a enxergar melhor o potencial técnico dos métodos modernos de preservação.
Ele afirma que parte da resistência médica provavelmente vem do desconhecimento sobre os avanços recentes na área.
O cérebro é o verdadeiro foco da preservação
Grande parte das pesquisas modernas em criogenia não está concentrada necessariamente em preservar o corpo inteiro, mas sim o cérebro.
Isso porque muitos pesquisadores acreditam que identidade, memória, personalidade e consciência dependem principalmente das conexões neurais armazenadas no tecido cerebral.
Se essas estruturas forem preservadas com precisão suficiente, teoricamente seria possível reconstruir ou restaurar aspectos fundamentais da mente humana no futuro.
O estudo chama isso de preservação de “informações psicológicas críticas”.
Na prática, o objetivo não seria apenas manter células intactas, mas preservar os padrões neurais que definem quem uma pessoa é.
Os médicos também discutiram questões éticas delicadas
A pesquisa não analisou apenas a viabilidade científica da criogenia. Os autores também perguntaram aos médicos como eles enxergam procedimentos médicos ligados à preservação humana.
Uma das questões envolvia o uso de anticoagulantes, como a heparina, em pacientes próximos da morte. Esses medicamentos ajudam a evitar formação de coágulos que poderiam danificar vasos sanguíneos e tecido cerebral após a parada cardíaca.
Mais de 70% dos médicos entrevistados disseram que esse tipo de procedimento provavelmente deveria ser permitido para facilitar futuras técnicas de preservação.
Outra questão foi ainda mais controversa: iniciar procedimentos de preservação enquanto o paciente ainda está vivo, mas em estado terminal e com consentimento explícito.
Hoje, isso é ilegal em praticamente todos os países.
Mesmo assim, 44,3% dos médicos afirmaram acreditar que esse tipo de prática deveria “provavelmente” ou “definitivamente” ser legalizado. Ainda assim, quase 29% se posicionaram contra.
A ciência ainda está muito longe de reviver alguém
Apesar do otimismo parcial observado no estudo, os próprios pesquisadores deixam claro que a criogenia continua extremamente especulativa.
Atualmente, não existe tecnologia capaz de reparar os danos celulares causados pelo congelamento extremo, restaurar atividade cerebral complexa ou reverter processos completos de morte biológica.
Além disso, muitos especialistas continuam profundamente céticos quanto à possibilidade de recuperar consciência, memória e identidade após décadas ou séculos de preservação.
Mesmo assim, o debate começa a mudar.
Durante muito tempo, a criogenia foi vista apenas como um conceito marginal ligado ao transumanismo e à ficção científica. Agora, pesquisas como essa mostram que parte da comunidade médica já considera a ideia ao menos cientificamente discutível — especialmente quando o foco está na preservação cerebral e não necessariamente na “imortalidade” como costuma aparecer em filmes.
No fim, a criogenia continua sendo uma aposta extrema no futuro da ciência. Mas talvez já não seja mais uma aposta completamente absurda para todos os médicos.