Sob as águas rasas do arquipélago de Bazaruto, em Moçambique, antigas florestas ganharam uma função inesperada. Seus restos, submersos há milhares de anos, formam estruturas que hoje oferecem abrigo e alimento para diferentes animais marinhos. Esses recifes não possuem corais vivos. Sua base é a turfa, um material rico em carbono produzido pelo acúmulo de plantas parcialmente decompostas.
Pesquisadores do Observatório Oceânico do Bazaruto Center for Scientific Studies (BCSS) investigaram essas formações, originadas de vegetação costeira de aproximadamente 3 mil a 5 mil anos atrás. Os resultados, publicados na Scientific Reports, indicam que depósitos semelhantes podem estar escondidos em outras partes do mundo.
Quando o chão da floresta virou fundo do mar
Antes de o oceano ocupar a região, florestas e áreas pantanosas cresciam sobre terrenos próximos à costa. A vegetação acumulava restos orgânicos que, ao se decompor parcialmente, contribuíam para formar camadas de turfa.
Com a elevação do nível do mar, esses ambientes ficaram submersos. Posteriormente, a remoção de sedimentos pela água expôs os antigos depósitos vegetais.
Esse processo deixou disponível uma superfície diferente da areia móvel que domina grande parte do fundo marinho local. A camada compactada passou a oferecer pontos onde organismos podiam se fixar e animais encontravam espaços para se esconder ou procurar alimento.
Em comunicado do BCSS sobre a descoberta, Mario Lebrato, cientista-chefe da instituição e principal autor do estudo, explica que a região possui poucas superfícies naturais firmes no fundo do mar. Por isso, a exposição da turfa criou um habitat raro naquela paisagem.
Sem corais, mas com muita vida
Para avaliar a importância dessas estruturas, a equipe estudou três recifes de turfa e um recife de coral próximo, no oeste do oceano Índico.
Os pesquisadores compararam a cobertura do fundo, os invertebrados, os peixes pequenos e a presença de animais maiores. Entre os grupos observados estavam tubarões, raias e tartarugas.
Embora os recifes de turfa tenham aparência diferente das formações coralíneas, os dois ambientes compartilhavam parte da fauna. Nas estruturas de origem vegetal, a equipe encontrou algas e plantas marinhas, além de lagostas espinhosas, ostras e cracas.
Peixes jovens também utilizavam esses locais, incluindo representantes de grupos conhecidos como pargos e roncadores. Cada recife de turfa abrigava entre 26 e 36 espécies de peixes pequenos, uma diversidade comparável à registrada no recife de coral investigado.
A comparação não significa que os ambientes sejam equivalentes em todos os aspectos. Ela mostra, porém, que uma estrutura sem corais vivos pode sustentar uma comunidade diversa e participar da rede de habitats costeiros.
Um antigo solo funciona como berçário
Uma das características destacadas pelos pesquisadores é o uso desses depósitos por peixes juvenis. O que antes constituía o chão de uma floresta passou a oferecer condições para uma nova etapa da vida marinha.
Lebrato relatou surpresa com a quantidade de organismos sustentados pela turfa e com as espécies que circulavam entre essas formações e os recifes de coral próximos.
Essa conexão ajuda a compreender o valor do habitat. Sua importância não depende apenas dos animais que permanecem nele, mas também daqueles que o utilizam durante parte do crescimento ou se deslocam entre diferentes ambientes.
Tubarões, raias e tartarugas apareceram nos registros dos dois tipos de recife, reforçando a presença de fauna de maior porte na área estudada.
Outros refúgios podem estar escondidos
Os autores sugerem que recifes de turfa ainda não identificados podem existir no Sudeste Asiático, no Caribe e na África Ocidental. Essa possibilidade precisa de novas investigações.
Com o declínio da cobertura de corais em diferentes regiões, localizar habitats alternativos pode ajudar a compreender onde algumas espécies encontram refúgio. Isso não significa que as formações de turfa substituam os recifes coralíneos, mas que merecem atenção própria nas estratégias de conservação.
Também existe uma questão ligada ao carbono. Como a turfa contém matéria vegetal antiga, os pesquisadores destacam seu possível papel na preservação desse estoque, sem tratar essa função como totalmente esclarecida.
A equipe pretende continuar acompanhando os recifes para entender melhor sua dinâmica e importância ecológica. Esses dados poderão orientar medidas de proteção para ambientes que, embora tenham começado em terra firme, hoje sustentam uma parte pouco conhecida da vida no oceano.