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Ciência

Ele procurava um lugar para acampar no Google Maps e encontrou algo escondido há 390 milhões de anos

Uma simples busca por um destino de camping revelou uma formação misteriosa que surpreendeu geólogos. A descoberta levou cientistas a investigar um acontecimento extraordinário do passado terrestre.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O Google Maps permite explorar praticamente qualquer região do planeta sem sair de casa. Mas, enquanto procurava um lugar tranquilo para acampar, um astrônomo amador percebeu algo incomum nas imagens de satélite. Uma enorme estrutura circular, escondida entre florestas e lagos, parecia não combinar com a paisagem ao redor. Sua curiosidade desencadeou uma investigação científica que acabaria revelando uma marca deixada na Terra muito antes do surgimento dos dinossauros.

Uma viagem de camping se transformou em uma descoberta científica

Tudo começou em 2024, quando Joël Lapointe, um astrônomo amador canadense, utilizava o Google Maps para planejar uma viagem à região de Côte-Nord, na província de Quebec, no Canadá.

Enquanto examinava imagens de satélite próximas ao lago Marsal, percebeu uma formação circular de dimensões impressionantes.

A estrutura parecia uma depressão cercada por elevações naturais, algo que despertou sua curiosidade. Lapointe começou a suspeitar que aquela paisagem poderia esconder as marcas de um antigo impacto cósmico.

Em vez de ignorar a observação, decidiu procurar especialistas em geologia planetária na Europa e na América do Norte.

Sua hipótese chamou a atenção de pesquisadores franceses, que passaram a investigar a possibilidade de existir uma estrutura de impacto ainda não catalogada naquela região.

O geólogo planetário Gordon Osinski, professor da Western University, no Canadá, também foi informado sobre a descoberta.

Inicialmente, ele demonstrou ceticismo. Afinal, formações circulares podem surgir por diferentes processos geológicos, incluindo atividade vulcânica e erosão.

Entretanto, as características do terreno justificavam uma investigação mais aprofundada.

A expedição revelou uma cicatriz gigantesca na superfície terrestre

Ele procurava um lugar para acampar no Google Maps e encontrou algo escondido há 390 milhões de anos
© Pexels

Em outubro de 2025, uma equipe internacional de pesquisadores chegou à região do lago Marsal para examinar a formação.

O acesso foi extremamente complicado. Os cientistas precisaram utilizar um hidroavião e atravessar aproximadamente 50 metros de água carregando equipamentos até alcançar a margem.

A região apresentava vegetação densa, terrenos pantanosos e grandes quantidades de insetos.

Apesar das dificuldades, a equipe encontrou evidências importantes já no segundo dia de exploração.

Entre as rochas estavam estruturas conhecidas como shatter cones, ou cones de estilhaçamento, formadas quando ondas de choque extremamente intensas atravessam materiais rochosos.

Essas marcas são consideradas evidências características de impactos de meteoritos.

A descoberta permitiu confirmar a origem cósmica da formação, que recebeu o nome de Uhackatik após consultas ao Conselho Innu de Ekuanitshit, comunidade indígena da região.

Segundo a NASA, que apresentou os resultados da investigação, a estrutura possui aproximadamente 25 quilômetros de diâmetro e teria se formado há cerca de 390 milhões de anos.

Na época, a Terra atravessava o período Devoniano, muito antes do aparecimento dos primeiros dinossauros.

O impacto teria provocado uma destruição extraordinária

A dimensão da cratera indica que o objeto responsável pela colisão possuía energia suficiente para transformar profundamente a paisagem.

O impacto produziu uma estrutura geológica complexa, com elevações centrais e grandes formações rochosas.

Gordon Osinski explicou que uma colisão semelhante, caso acontecesse atualmente em uma região habitada, poderia destruir grandes cidades e provocar consequências climáticas globais.

Entretanto, os pesquisadores ainda precisam aprofundar as análises para compreender detalhes como o tamanho exato do objeto, sua velocidade e os efeitos ambientais daquele acontecimento.

As evidências geológicas sugerem que a estrutura permaneceu preservada durante centenas de milhões de anos, apesar da erosão e das transformações naturais.

Isso torna o local especialmente interessante para estudar a história dos impactos extraterrestres na Terra.

Por que existem tão poucas crateras conhecidas no planeta?

Embora meteoritos tenham atingido a Terra inúmeras vezes, os cientistas conhecem apenas cerca de 200 estruturas de impacto confirmadas.

A explicação está na própria dinâmica terrestre.

Ao contrário da Lua, onde muitas crateras permanecem visíveis durante bilhões de anos, nosso planeta apresenta processos que modificam constantemente sua superfície.

Chuvas, rios, ventos, movimentos tectônicos e atividade vulcânica podem apagar ou esconder as marcas de colisões antigas.

Além disso, florestas, oceanos e sedimentos dificultam a identificação dessas estruturas.

A cratera Uhackatik representa uma das maiores descobertas recentes desse tipo, sendo a maior estrutura de impacto identificada desde a descoberta da formação de Hiawatha, na Groenlândia, em 2018.

Apesar das evidências consideradas conclusivas pela equipe, a NASA informou em setembro de 2026 que o reconhecimento formal da nova cratera pela Sociedade Meteorítica ainda estava pendente.

O Google Maps pode ajudar a encontrar outros mistérios geológicos?

A descoberta demonstra como ferramentas digitais acessíveis podem contribuir para investigações científicas.

Imagens de satélite permitem identificar padrões geográficos que seriam difíceis de reconhecer durante uma caminhada pelo terreno.

No entanto, observar uma formação circular não é suficiente para afirmar que ela foi produzida por um meteorito.

É necessário examinar rochas, identificar sinais de pressão extrema e realizar análises geológicas detalhadas.

O caso de Lapointe também destaca a importância da ciência cidadã, na qual pessoas sem formação profissional específica contribuem com observações e descobertas.

A própria NASA mantém projetos que permitem ao público participar da identificação de asteroides e de fenômenos astronômicos.

O mais surpreendente dessa história é que uma estrutura gigantesca permaneceu desconhecida durante tanto tempo, apesar de estar visível em imagens disponíveis na internet.

E tudo começou porque alguém decidiu observar com atenção um lugar onde pretendia simplesmente montar uma barraca.

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